Uma fábula

Era uma vez um porqueiro chamado Herr Junker. Junker tinha uma vara de porcos que mantinha na pocilga com os cuidados e os mimos necessários à melhor preservação. Poucos porcos morriam por incúria de Herr Junker, que dizia a quem por ali passava que a sua pocilga era a melhor das redondezas e que os fazendeiros vizinhos, como Mister Trumpter ou Gospod Porktin, tratavam mal os seus porcos e os deixavam entregues ao acaso e ao Deus dará. “Deus dará, percebem?”, dizia ele com uma piscadela de olho. “Deus dará. Mas aqui, na minha pocilga, não é Deus, mas os próprios porcos que decidem como são tratados. Claro que, meus amigos, sendo eles uns porcos, preferem a lama e a porcaria, mas quem sou eu para os contrariar? Eles são donos e senhores do seu próprio destino. Aqui não é ao Deus dará, mas sim e literalmente, ao Nós daremos.”

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O touro Ferdinando

Ontem o meu amigo A. estava febril e, por prudência, fez-me saber que não saía. Levei por isso comigo para o café um dos romances de Arturo Pérez-Reverte sobre a guerra civil espanhola, Eva, para me entreter nos intervalos do futebol. Brinco, claro. A televisão do café transmitia o noticiário da noite, e explorava com denodo o tema forte do dia: o IVA das touradas.

De modo que acabei por ter a leitura interrompida por G. e C., dois velhos compinchas da minha juventude. G. é um veterano do Partido Comunista, no qual já obedeceu a todas as ordens e passou com êxito por todas as ordalias. Não tem, por isso, nada que provar. C. é comunista também, mas de uma estirpe mais venal, mais amanteigada. Veste melhor e tem a pele cuidada. Não usa boina. E preferiu o Bloco de Esquerda, uma congregação com um ambiente por certo bem mais acolhedor. Eu lia, quando se vieram sentar à minha mesa, aquela passagem do livro em que a dita Eva, uma agente soviética da tcheca a operar em Barcelona como controleira da República, revelava a Falcó, um operacional dos serviços secretos franquistas, que fora chamada a Moscovo e que, apesar da sua impecável fé na revolução, não esperava regressar. “Deveras?”, pergunta-lhe Falcó. “Sim. Nem todos os que vão, voltam,” responde Eva.

A conversa prossegue. Falcó quer saber por quê, que crime cometera Eva aos olhos do Partido. E esta explica: “Talvez o de antepor ainda, de modo burguês, os sentimentos à ideia colectiva da humanidade.” “Falas de morrer.” “Isso não é assim tão horrível. Nós, humanos, levamos milhões de anos a morrer.” “E a tua vida? A tua felicidade?” “A vida não é mais do que uma preocupação burguesa. E a felicidade, um problema de engenharia social.”

G. e C. estão obviamente de acordo. Comigo sentem-se à vontade e expõem abertamente as suas ideias. Não lhes ocorre negar ou fingir que lamentam os mortos de Estaline ou Mao, de que discutem o número, mas não o fundamento. Se há algo a lamentar não é que tenham sido mortos em excesso, mas que não tenham sido, como me diz G., “os necessários”. Ou nos momentos necessários. O que importa são os fins, e não os meios. Os sentimentos são sem importância, excepto os dos adversários, que convém que os tenham, porque os enfraquecem.

Há no ecrã da televisão um corropio de gente a protestar contra o IVA das touradas, aquele espectáculo bárbaro, incivilizado. Os meus companheiros nada dizem. Digo eu, que gosto às vezes de os provocar: “E a posição do Bloco?” Quero saber como se explica este contraste entre o humanismo que se apieda do animal, que ele promove, e o positivismo guerreiro e frio da esquerda política, esse epítome do humanismo. C. justifica: “É diferente. Nós reconhecemos a necessidade da violência, mas não a desejamos. A violência revolucionária é um meio para acabar com toda a violência. Já isto não se justifica. É só barbárie, é um puro show. Um espectáculo reaccionário e primitivo, que avilta a humanidade que queremos ser. Por isso, somos contra.” G. confirma, com um sorriso discreto. Há que ser prudente. Convém não esquecer que a tourada é ainda hábito e receita em muitos municípios de maioria comunista.

E é, pois, assim. A tourada é violência gratuita. E isso a torna intolerável. Não por ser violência, mas por não servir para nada. E as demais pessoas pensam tal e qual, isto é, que a tourada é crueldade arbitrária e absurda. C. não tem dúvidas de que está, como actividade, condenada. É uma aberração, como meter um gato num micro-ondas, mas para pior, porque é um micro-ondas com aficionados e espectadores a quem se cobra bilhete. “Não é, portanto,” digo, “uma questão de violência, mas uma questão de narrativa, ou melhor, de falta dela.” Num mundo em que o espectáculo taurino deixou de fazer sentido, de significar, no fundo de “ser útil” à humanidade, a morte do touro choca-nos. Ao invés, porque é útil, não nos choca a morte (e o sofrimento) das vacas no matadouro.

“No fundo,” remato, “o que redime o touro é ser um animal. Um ser sem culpa. Se fosse humano, haveria talvez razão para o bandarilhar. Ou razões diversas.”

G. nega com a cabeça. “Bandarilhar não é o termo,” diz. “Nós não bandarilhamos ninguém. Queremos educar, e no limite redimir. Se não pudermos redimir, suprimimos.”

Há um brilhante futuro à nossa espera. Por enquanto esse futuro é apenas para os animais. Mas chegará, estou certo, a nossa vez.

A NASA VAI A MARTE

Hoje, dia 26 de Novembro de 2018, as parangonas dos jornais engalanam-se com a aterragem prevista em Marte de uma sonda robótica da NASA, a inSight. É coisa leve e mui pequena, com a forma de uma mesa de tampo circular com 1,56 m de diâmetro e 1 metro de altura, e cerca de 350 kg de peso. Leva três instrumentos e um braço mecânico para os movimentar. Dizem-nos que vai examinar o interior do planeta vermelho, especialmente a sua temperatura e actividade sísmica. Depois de mais de dois anos de avarias e adiamentos, a sonda foi lançada em Maio de 2018. Estamos a fazer figas para que não se desintegre na aterragem, o que é bem possível.

Tudo isto me fez pensar no que DUTTON e MENIE escreveram nas três primeiras páginas do seu recente livro At Our Wits’ End, uma obra sobre a decadência intelectual da humanidade, a qual parece ter vindo a acentuar-se nas últimas décadas. Recomendo-vos a leitura destas páginas, como aperitivo à aterragem (ou será ‘amartagem’?) do inSight. Vai com Deus, pequena sonda. Vai com Deus.

Eis aqui as páginas de abertura desse livro: Continuar a ler

A Árvore da Cocanha

Boa noite, jóias refulgentes da criação. Nesta madrugada de sexta em que, mandado Bruno em paz, nada acontece, convém talvez contar uns cabrititos saltando cercas pela pradaria. Um, três, treze, trinta e três. Ou, em alternativa, se a matemática não for o nosso forte, ocuparmo-nos com uma reflexão correcta e agudíssima. Seja por exemplo esta simples e modesta: já notaram que o Hugo Chavez foi bem melhor do que o Maduro? Tal como o Cunhal foi melhor do que o Jerónimo, e o Che foi melhor do que o Fidel, e este foi melhor do que o Raul, e o Kim-pai melhor do que o Kim-filho, e o Kim-filho melhor do que o Kim-neto, e o Lenine melhor do que o Trotsky, e este último melhor do que o Estaline, e o Mao Tse-Tung melhor do que …. bom, do que a mulher dele, qualquer que tenha sido o nome dela, talvez Yoko Ono? Há aqui – parece-me – neste fenómeno repetido e regular uma espécie de lei geral em acção, que talvez possamos resumir dizendo que, nos Paraísos Socialistas, o melhor acontece sempre no Princípio, o qual dá lugar a continuações um pouco menos boas e assim sucessivamente, de menos bom em menos bom, até à catástrofe final da instauração da ditadura do (super)mercado.

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Monta a morte a sua corte

04330CFB-4AAE-4D26-BF17-789A21FEAC96Ricardo II (falando com o Duque de Aumerle):

Falemos de campas, de vermes, de epitáfios;
Façamos do pó papel, e com olhos rasos d’água
Ditemos lamentações ao ventre duro da terra,
Escolhamos executores, discorramos de legados:
E nem mesmo disso, pois que podemos nós legar
Excepto ao solo os nossos restos despojados?
As terras, até as vidas, tudo é de Bolingbroke,
E a nada, salvo à morte, chamemos de coisa nossa,
Ou a esse pequeno monte de terra estéril
Que servirá de veste mole dos nossos ossos.
Por Deus, sentemo-nos aqui mesmo, neste chão,
Da morte de reis contemos a triste história;
Alguns depostos; outros partidos na guerra,
Ou perseguidos pelo espectro dos que dizimaram;
Envenenados por mulheres; mortos no sono;
Todos assassinados: pois dentro da oca coroa
Que cerca as têmporas mortais de um rei
Monta a Morte a sua corte e nela toma assento,
Do homem escarnecendo, rindo da sua pompa,
Deixando-lhe tão só um suspiro, uma breve cena,
Para reinar, ser temido, matar com pose altiva,
E inchando-o assim de prosápia e vã vaidade,
Como se a carne que empareda a nossa vida
Fosse bronze inexpugnável, e, dest’arte divertida,
A nós por fim chegando e com pequena agulha
Rebentando a muralha do castelo e … era uma vez um rei!

(William Shakespeare, Ricardo II, Acto 3, cena 2. Tradução minha)

Salazares até ao fundo

Há nos arredores da Bila uma aldeia pequena e muito pobre onde se faz desde tempos imemoriais uma olaria de barro escuro. A aldeia chama-se Bisalhães. No dia de São Pedro, que é o dia 29 de Junho, faz-se uma feira na Bila onde se expõem e vendem, na rua fronteira à Capela Nova, os produtos da aldeia. É uma tradição local, sustentada por cada vez menos fabricantes. Restam hoje, dizem-me, não mais de meia dúzia. A Câmara, num esforço de apoio à actividade, dispôs há uns anos atrás uns espaços abarracados numa espécie de avenida à entrada da Bila (tudo é uma espécie de avenida na Bila), para quem vem do Porto (na Bila tudo vem do Porto), e onde os turistas podem comprar umas peças da famosa olaria negra. Dizem que ficam bem em cima de um armário de cozinha, a dar o toque de rusticidade num tête-à-tête nonchalante com a porcelana Qing. Coisa chique.

Bisa cópia

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Onde se fala de desgraças, mas de tal modo que o leitor não se sentirá – garante-se – ele mesmo desgraçado, antes esclarecido quanto ao verdadeiro sentido da existência

Como todos os hipocondríacos, o meu amigo A. tem uma saúde de ferro, embora esteja sempre doente ou em vias de adoecer. Estamos hoje sentados no nosso lugar habitual das noites de semana, na esplanada da Avenida, e olhamos para a fachada recuperada do Hotel Tocaio, agora transformado em Hospital. As letras brancas de néon, em maiúsculas de um neo-grotesco sem serifa, dirigem-se-nos numa demonstração de competência fria. Hospital da Luz, o adversário das trevas. A. fuma um dos muitos Marlboros com que diariamente desafia as Parcas, indiferente aos protestos da própria carteira e dos pulmões alheios. Já o alertei para o subsídio que ele assim oferece ao Repugnante Governo do Coiso, e até fizemos as contas, calculadora do telemóvel na mão: sejam cerca de três euros de imposto em cada maço, dez euros por dia, a passar. Quatro mil euros por ano, uns quarenta mil por década. “Podias comprar um Mercedes de tempos a tempos, só com os impostos do vício,” digo-lhe. “E dos bons, não dos já velhos, como os carros de praça que estão ali estacionados,” concluo com uma mão ondulante a apontar para o outro lado da avenida.

Carvalho A

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