O Último Messias

Peter Wessel Zapffe (1899-1990) foi um filósofo norueguês relativamente desconhecido. É dele o ensaio que se apresenta a seguir, publicado em 1933 no número 9 da revista Janus. Discípulo de Schopenhauer e de Nietzsche, Zapffe exprime aqui, num estilo semi-poético e menos formal do que é habitual entre filósofos, o que entende ser a estrutura fundamental da existência humana.

Tanto quanto sei, trata-se da primeira tradução portuguesa, feita a partir da tradução de Gisle R. Tangenes para inglês.

I

Uma noite, há muito tempo atrás, o homem acordou e viu-se a si mesmo.

Viu que estava nu sob o cosmos, sem casa no seu próprio corpo. Todas as coisas se dissolviam diante do seu pensamento inquisidor, maravilhas atrás de maravilhas, horrores atrás de horrores desdobrando-se na sua mente.

A mulher acordou então, e disse que era tempo de ir e de matar. E ele pegou no seu arco e flecha, um fruto do casamento do espírito com a mão, e saiu para o mundo sob as estrelas. Mas à medida que os animais chegavam às nascentes de água, onde ele os esperava pela força do hábito, já não sentia no sangue a ligação ao tigre, mas sim um grande salmo sobre a irmandade no sofrimento entre todas as coisas vivas.

Nesse dia ele não voltou com caça, e quando o encontraram na lua seguinte, estava sentado morto junto da nascente de água.

II

O que aconteceu? Uma brecha na unidade da vida, um paradoxo biológico, uma abominação, um absurdo, um desastroso exagero da natureza. A vida disparara para além do seu alvo, estilhaçando-se a si mesma. Uma espécie fora dotada de uma arma excessiva — pelo espírito feita toda-poderosa para fora, mas tornada ao mesmo tempo uma ameaça ao seu próprio bem-estar. A sua arma era como uma espada sem punho ou guarda, uma lâmina de dois gumes rasgando tudo; mas aquele que a empunha tem de pegar na lâmina e voltar um dos dois gumes contra si mesmo.

Apesar dos seus novos olhos, o homem estava ainda enraizado na matéria, a sua alma nela misturada e subordinada às suas leis cegas. E no entanto ele podia olhar a matéria como um estranho, comparar-se com todos os fenómenos, penetrar e localizar os seus processos vitais. O homem vem à natureza como um conviva sem convite, estendendo em vão os seus braços num pedido de conciliação com o seu criador: mas a Natureza já não responde, fez nele um milagre, mas não o conhece mais. O homem perdeu o seu direito de residência no universo, provou da Árvore do Conhecimento e foi expulso do Paraíso. É poderoso no mundo próximo, mas amaldiçoa o poderio obtido à custa da harmonia da alma, da inocência, da paz interior dentro do amplexo da vida.

E é assim que ele está agora, traído pelo universo, com as suas visões de pasmo e de medo. O animal conhecia igualmente o medo, nas tempestades e nas garras do leão. Mas o homem tornou-se temeroso da própria vida — de facto, do seu próprio ser. A Vida era para o animal o sentir o jogo do poder, era o calor e as brincadeiras e o conflito e a fome, e depois finalmente o inclinar-se perante a lei de todas as viagens. No animal, o sofrimento é auto-contido, no homem abre-se para um medo do mundo e um desespero da vida. Mal a criança começa o seu percurso pelo rio da vida, já o barulho da cachoeira da morte se ergue por todo o vale, cada vez mais próximo, e rasgando, rasgando a sua alegria. O homem contempla a terra, e esta respira como um enorme pulmão; sempre que exala, a vida maravilhosa exsuda de todos os seus poros e ergue-se para o sol, mas quando inala ouve-se um gemido de ruptura na multidão, e os cadáveres tombam no solo como bolas de granizo. E não via apenas o seu próprio dia, mas as tumbas que se erguiam diante dos seus olhos, os lamentos de milénios de gritos abafados vindos das formas putrefactas dos fantasmas, os sonhos das mães feitos em pó. E a cortina do Futuro abria-se, revelando um pesadelo de repetição incessante, um desperdício sem sentido de material orgânico. Pela porta da compaixão penetra-o o sofrimento de biliões de humanos, de tudo o que acontece ergue-se um riso de mofa pelos pedidos de justiça, o seu mais profundo princípio ordenador. Vê-se a si mesmo a emergir do ventre da sua mãe, ergue as mãos no ar e estas têm cinco ramos; de onde vem este diabólico número cinco, e que tem ele a ver com a minha alma? Já não é óbvio para si mesmo — toca o seu corpo com horror profundo; isto és tu e a isto acedes e a nada mais. Transporta em si uma refeição, que ontem era um animal que se podia mexer, hoje como-o e torno-o parte de mim, e onde começo e acabo? Todas as coisas se encadeiam em causas e efeitos, e tudo o que ele quer abranger se dissolve diante do pensamento inquisidor. E pouco depois são maquinarias o que ele vê, mesmo no que era, até então, querido e inteiro, no sorriso da amada — há outros sorrisos também, uma bota rompida nos dedos. Com o tempo, as características das coisas passam a ser apenas as suas. Nada existe sem ele, todas as linhas apontam na sua direcção, o mundo um mero eco fantasmagórico da sua voz — ele salta gritando alto e quer vomitar-se na terra com o impuro alimento, sente a aproximação da loucura e quer encontrar a morte antes de perder essa capacidade.

Mas, uma vez diante da morte iminente, ele apreende a sua natureza, e a importância cósmica do passo que se aproxima. Por detrás da cortina da morte, a imaginação criativa constrói perspectivas novas e temerosas, e ele vê que nem mesmo aí encontra santuário. E eis que agora pode ver o contorno do seu ser biológico-cósmico: ele é o cativo desamparado do universo, pronto a cair em possibilidades sem nome.

A partir deste momento, ele está num estado de pânico sem descanso.

Esse ‘sentimento de pânico cósmico’ é essencial em cada mente humana. De facto, a raça parece destinada a perecer, pois qualquer preservação e continuação efectiva da vida revela-se impossível quando toda a atenção e energia do indivíduo se ocupam em suportar ou em descarregar a enorme e catastrófica tensão interior.

A tragédia de uma espécie incapaz de viver pelo desenvolvimento excessivo de uma competência não é um exclusivo da humanidade. Pensa-se, por exemplo, que em épocas paleontológicas certos alces sucumbiram ao desenvolver chifres demasiado pesados. As mutações são cegas e operam e manifestam-se sem qualquer interesse pelo ambiente.

Nos estados depressivos, a mente pode ser vista à imagem desses chifres, os quais, em todo o seu fantástico esplendor, amarram o seu possuidor ao chão.

III

Porque será, então, que a humanidade não se extinguiu há muito tempo em grandes episódios epidémicos de loucura? Por que razão só um insignificante número de indivíduos pereceu por incapacidade de aguentar a violência do viver — porque o conhecimento lhes dá mais do que podem transportar?

A história cultural, bem como a observação de nós mesmos e dos outros, autoriza a seguinte resposta: a maioria das pessoas aprende a salvar-se limitando artificialmente o conteúdo da consciência.

Se o alce gigante tivesse quebrado, de vez em quando, os ramos exteriores dos chifres, poderia ter continuado a viver por mais algum tempo. Em febrilidade e dor constantes, contudo, e atraiçoando de facto a sua peculiaridade, ele que estava vocacionado pela mão da criação a ser o portador de cornos dos animais selvagens. O que ganharia em continuidade, perderia em significado, em grandeza de vida, por outras palavras numa continuação sem esperança, numa caminhada não para os cumes da sua afirmação, mas, através de ruínas sempre renovadas, numa corrida auto-destrutiva contra a sagrada vontade do sangue.

A identidade entre o propósito e o perecimento é, para o alce gigante tal como para o homem, o paradoxo trágico da vida. Num devoto Bejahung, o último Cervis Giganticus carreou o emblema da sua linhagem até ao seu fim. O ser humano, esse, salva-se a si mesmo e continua. Realiza, para estender o sentido de uma frase consabida, uma repressão mais ou menos auto-consciente do seu doentio excesso de consciência. Este processo é virtualmente constante durante as nossas horas de vigília activa, e é uma exigência da adaptabilidade social e de tudo o que é comumente considerado saudável e normal na vida.

A própria psiquiatria trabalha no pressuposto de que o ‘saudável’ e o viável fazem um só com o mais elevado em termos pessoais. A depressão, o ‘medo da vida’, a recusa de alimento, etc., são invariavelmente considerados sinais de um estado patológico e sujeitos a tratamento. É, contudo, frequente que esses fenómenos sejam mensageiros de um sentido da vida mais profundo e imediato, os frutos amargos de uma genialidade de pensamento ou sentimento que está na raiz das tendências antibiológicas. Não é a alma que adoece, mas as suas protecções que caem ou são rejeitadas por causa do que se experimenta — correctamente — como uma traição ao mais elevado potencial do ego.

A totalidade da vida que se vê hoje diante de nós está, desde o mais íntimo ao mais exterior, enredada em mecanismos repressivos, sociais e individuais; podemos encontrá-los mesmo nas fórmulas mais banais da vida quotidiana. Embora assumam uma vasta e multiforme variedade de modalidades, parece legítimo identificar pelo menos quatro tipos principais, os quais naturalmente ocorrem em todas as combinações possíveis: isolamento, ancoragem, distracção e sublimação.

Por isolamento quero aqui significar uma exclusão completamente arbitrária da consciência de todos os pensamentos e sentimentos perturbadores e destrutivos. (Engström: “não deveríamos pensar, é apenas confuso.”) Encontra-se uma sua variante perfeita e quase abrutalhada em certos médicos, que, para se protegerem, apenas vêem os aspectos técnicos da sua profissão. E pode decair para um puro holliganismo, como sucede com os delinquentes mais rasteiros ou os estudantes de medicina, entre os quais a sensibilidade para o lado trágico da vida é erradicada por meios violentos (futebol jogado com cabeças de cadáveres, etc.)

Na interacção quotidiana, o isolamento manifesta-se num código geral de silêncio mútuo: primeiramente face às crianças, para que estas não sejam prematuramente atemorizadas pela vida que apenas começaram, mas conservem as ilusões até ao momento em tenham condições para as perder. Em compensação, as crianças não devem aborrecer os adultos com recordações despropositadas de sexo, higiene, ou morte. Entre os adultos há as regras do ‘tacto’, um mecanismo que se revela abertamente quando um homem que chora na rua é removido com a ajuda da polícia.

O mecanismo da ancoragem é usado também desde a infância; os pais, a casa, a rua tornam-se matéria de facto para a criança e dão-lhe um sentimento de segurança. Esta esfera de experiência é a primeira, e talvez a mais feliz, protecção contra o cosmos que conheceremos na vida, um facto que sem dúvida explica também a tão debatida ‘vinculação infantil;’ a questão de saber se esta está igualmente embebida de sexualidade não tem aqui qualquer importância. Quando a criança descobre mais tarde que estes pontos fixos são tão ‘arbitrários’ e ‘efémeros’ como quaisquer outros, tem uma crise de confusão e de ansiedade e imediatamente procura à sua volta outro ponto de ancoragem. “No Outono, vou para a escola preparatória.” Se, por uma qualquer razão, a substituição fracassa, a crise pode tomar um curso fatal, ou então ocorrer o que eu chamo um espasmo de ancoragem: ficamos agarrados aos valores mortos, escondendo de nós mesmos e dos outros, tanto quanto possível, o facto de que são inoperáveis, de que se está espiritualmente insolvente. O resultado é uma insegurança permanente, ‘sentimentos de inferioridade,’ sobre-compensação, desassossego. Na medida em que este estado assume determinadas modalidades, faz-se matéria de tratamento psicanalítico, o qual tem como propósito completar a transição para novas ancoragens.

A ancoragem pode ser caracterizada como uma fixação de pontos no interior, ou construção de pontos à volta, da estrutura liquidiforme da consciência. Embora tipicamente inconsciente, pode ser, também, completamente consciente (a pessoa ‘assume um objectivo’.) As ancoragens publicamente úteis são consideradas com simpatia, e aquele que se ‘sacrifica totalmente’ pela sua ancoragem (a empresa, a causa) é idolatrado. Terá erguido uma muralha poderosa contra a dissolução da vida, e os outros irão por sugestão beneficiar com a sua força. Numa forma mais brutal, como acção deliberada, encontra-se entre os playboys ‘decadentes’ (“casarei quando chegar a altura, o bom comportamento virá então por si.”) Assim estabelecemos obrigações na nossa vida, expondo-nos ao que é, do nosso ponto de vista, um mal óbvio, mas que será um descanso para os nervos, uma protecção de altas paredes para uma sensibilidade face à vida que crescia de forma cada vez mais crua. Ibsen apresenta, em Hjalmar Ekdal e Molvik, dois casos em floração (duas ‘mentiras vivas’); não há diferença entre as suas ancoragens e a dos pilares da sociedade, excepto na improdutividade prático-económica daqueles.

Toda a cultura é um enorme e arredondado sistema de ancoragens, construído sobre firmamentos fundacionais, as ideias culturais básicas. A pessoa média contenta-se com os firmamentos colectivos, a personalidade constrói para si mesma, a pessoa de carácter acabou a sua construção, mais ou menos baseada nos principais firmamentos da herança colectiva (Deus, a Igreja, o Estado, a moralidade, o destino, a lei da vida, o povo, o futuro). Quanto mais perto dos firmamentos principais estiver um certo elemento portador, mais perigoso será tocá-lo. Aqui estabelece-se normalmente uma protecção directa por intermédio de códigos penais e de ameaças de perseguição (inquisição, censura, a abordagem Conservadora da vida).

A capacidade portadora de cada segmento depende do facto de a sua natureza ficcional não ter ainda sido compreendida, ou de ter sido, mesmo nessa eventualidade, reconhecido como necessário. Daí a educação religiosa nas escolas, que é apoiada até por ateus, os quais sabem que não há outra maneira de submeter as crianças aos modos sociais de resposta.

Quando as pessoas compreendem a natureza ficcional ou redundante dos segmentos, esforçam-se por substituí-los por outros novos (‘a duração limitada das Verdades’) — e daí deriva toda a luta espiritual e cultural que, juntamente com a competição económica, forma o conteúdo dinâmico da história do mundo.

O desejo de bens materiais (poder) não se deve tanto aos prazeres directos da riqueza, pois ninguém pode sentar-se em mais do que uma cadeira ou comer para além do limite da saciedade. Pelo contrário, o valor de uma fortuna, para a vida, consiste nas ricas oportunidades de ancoragem e distracção que oferece ao possuidor.

É verdade, tanto para as ancoragens colectivas como para as individuais, que, quando se quebra um segmento, ocorre uma crise que é tanto mais grave quanto mais próximo for esse segmento dos firmamentos principais. Nos círculos interiores, protegidos pelas muralhas exteriores, essas crises são ocorrências diárias e razoavelmente indolores (‘desapontamentos’); é mesmo possível brincar com valores-âncora (ditos de espírito, jargão, álcool). Mas durante a brincadeira pode-se acidentalmente abrir um buraco até ao fundo, e imediatamente a cena passa da euforia ao macabro. O terror de ser mira-nos então directamente, e, numa rajada de vento mortal, percebemos como a mente está suspensa sobre fios que ela própria fiou, e que um inferno espreita em baixo.

Os firmamentos fundacionais raramente são substituídos sem grandes espasmos sociais e o risco da dissolução completa (reforma, revolução). Durante esses períodos, os indivíduos são cada vez mais abandonados aos seus próprios recursos de ancoragem, e o número de fracassos tende a crescer. O resultado são depressões, excessos, e suicídios (oficias alemães depois da guerra, estudantes chineses depois da revolução).

Outra falha do sistema é o facto de várias frentes de perigo requererem por norma firmamentos muito diferentes. E como sobre cada um deles se ergue uma superestrutura lógica, daqui se seguem choques entre modos de sentir e de pensar mutuamente incomensuráveis. O desespero pode então passar entre as fendas. Em tais casos, uma pessoa pode ser possuída por uma alegria destrutiva, desmantelando o aparato completamente artificial da sua vida, e começando, com um horror extasiado, uma limpeza completa. O horror resulta da perda de todos os valores protectores, o êxtase da sua desapiedada identificação e de uma nova harmonia com o mais profundo segredo da nossa natureza, a falta de solidez biológica, a disposição perene para o abismo.

Amamos as ancoragens porque nos salvam, mas odiamo-las porque limitam o nosso sentido de liberdade. Por isso, sempre que nos sentimos suficientemente fortes, descobrimos prazer em irmos em conjunto enterrar em grande estilo um valor expirado. Os objectos materiais tomam, aqui, um significado simbólico (a abordagem Radical da vida).

Quando um ser humano eliminou todas as ancoragens que são para si visíveis, e só ficam de pé as inconscientes, então ele diz de si próprio que é uma pessoa libertada.

Um modo muito popular de protecção é a distracção. Restringimos a atenção aos limites críticos, mantendo-a constantemente captiva com impressões. Isto é típico mesmo na infância; sem distracção, a criança é também insuportável para ela mesma. “Mãe, que vou fazer?” Uma pequena inglesa de visita às tias norueguesas sai do seu quarto, dizendo: “Que vou fazer agora?” As enfermeiras atingem o virtuosismo: olha, um cãozinho! Olha, estão a pintar o palácio! O fenómeno é demasiado familiar para requerer mais demonstração. A distracção é, por exemplo, a táctica da ‘alta sociedade’ para viver. Pode ser equiparada a uma máquina voadora — feita de material pesado, mas incorporando um princípio que a mantém no ar sempre que se aplica. Deve estar sempre em movimento, pois o ar só a suporta fugazmente. O piloto pode ficar sonolento e demasiado confiante pela força do hábito, mas a crise agudiza-se mal o motor falha.

A táctica é, por vezes, completamente consciente. O desespero pode morar mesmo por baixo e irromper em golfadas, numa convulsão súbita. Quando se gastam todas as opções distractivas, o spleen instala-se, indo de uma indiferença leve até à depressão fatal. As mulheres, em geral menos propensas à cognição, e por isso mais seguras na sua vida que os homens, usam a distracção preferencialmente.

Um mal considerável da vida numa prisão é a negação das opções mais distractivas. E como as modalidades de libertação por outros meios são igualmente pobres, o prisioneiro tenderá a residir na proximidade familiar do desespero. Os actos que ele então comete para deflectir o estado final baseiam-se no próprio princípio de vitalidade. Em tal momento, ele experimenta a sua alma dentro do universo, e não tem outra motivação senão a profunda insuportabilidade dessa condição.

Exemplos puros de pânico-vital são provavelmente raros, dado que os mecanismos de protecção são refinados e automáticos, e em certa medida incessantes. Mas mesmo o terreno adjacente tem a marca da morte, a vida é aqui dificilmente suportável e só a grandes penas. A morte aparece sempre como um escape, ignora-se a possibilidade da vida no além, e como a forma como a morte é experimentada é em parte dependente do sentimento e da perspectiva, pode aparecer como uma solução aceitável. Se a pessoa no statu mortis pudesse arranjar uma pose (um poema, um gesto, ‘morrer de pé’), isto é, uma ancoragem final, ou uma distracção final (a morte de Aase), então esse destino não seria o pior de todos. A imprensa, por uma vez ao serviço do mecanismo de ocultação, nunca deixa de apresentar razões que não alarmam — “acredita-se que a última queda do preço do trigo…”

Quando um ser humano acaba com a sua vida por motivo de depressão, esta é uma morte natural por causas espirituais. A barbaridade moderna que consiste em ‘salvar’ o suicida baseia-se numa arrepiante má compreensão da natureza da existência.

Só uma pequena parte da humanidade pode viver com meras ‘mudanças’, seja no trabalho, na vida social, ou no entretenimento. A pessoa culta necessita de conexões, linhas, uma progressão nas mudanças. Nada de finito satisfaz em última análise, estamos sempre a avançar, a acumular conhecimento, a fazer uma carreira. O fenómeno é chamado ‘aspiração’ ou ‘tendência transcendental.’ Sempre que uma meta é atingida, a aspiração avança; daí que o seu objecto não seja a meta, mas o atingi-la — o gradiente, não a altura absoluta, da curva que representa a nossa vida. A promoção de soldado a cabo pode constituir uma experiência mais valiosa do que a de coronel a general. Quaisquer fundamentos para o ‘optimismo progressivo’ são removidos por esta lei psicológica básica.

A aspiração humana não é apenas marcada pelo ‘impulso para’, mas igualmente por uma ‘fuga de.’ E se usarmos a palavra num sentido religioso, só esta última descrição serve. Porque aqui, nunca ninguém foi ainda claro quanto ao que se espera encontrar, mas tem-se sempre uma consciência fervorosa do que se quer deixar para trás, designadamente o terrenal vale de lágrimas, a nossa própria insuportável condição. Se a consciência desta situação de aperto é o mais profundo estrato da alma, como se sustentou atrás, então compreende-se também por que razão se sente e experimenta a aspiração religiosa como fundamental. Por contraste, a esperança de que constitua um critério divino, de que albergue uma promessa do seu próprio cumprimento, é colocada a uma luz bem melancólica por estas considerações.

O quarto remédio contra o pânico, a sublimação, é uma matéria de transformação, mais do que de repressão. Por intermédio de dons estilísticos ou artísticos, pode a dor mesma da vida ser às vezes convertida em experiências valiosas. Impulsos positivos combatem o mal e põem-no ao serviço dos seus próprios fins, agarrando-se aos seus aspectos pictóricos, dramáticos, heróicos, líricos ou mesmo cómicos.

A não ser que o pior ferrão do sofrimento seja embotado por outros meios, ou lhe seja negado o controlo da mente, essa utilização é porém improvável. (Imagem: o montanhista não desfruta da sua visão do abismo se estiver asfixiado pela vertigem; só quando este sentimento for mais ou menos ultrapassado ele o desfruta — ancorado.) Para escrever uma tragédia, temos de algum modo de nos libertar — de trair — o próprio sentimento trágico, olhando-o a partir de um ponto de vista exterior, ou seja, estético. Aqui encontra-se, aliás, uma oportunidade para a mais selvagem das danças em círculo em níveis de ironia cada vez mais elevados, e até ao mais embaraçoso circulus vitiosus. Aqui podemos perseguir o nosso ego por numerosos habitats, desfrutando da capacidade dos vários níveis da consciência se dissiparem uns aos outros.

O presente ensaio é uma tentativa típica de sublimação. O autor não sofre, está a encher páginas e vai ser publicado num periódico.

O ‘martírio’ de damas solitárias é também uma espécie de sublimação — ganham em significado por isso.

No entanto, a sublimação parece ser o mais raro dos meios protectores aqui mencionados.

IV

É possível às ‘naturezas primitivas’ renunciar a estes espasmos e piruetas e viver em harmonia com elas mesmas na serena bênção do trabalho e do amor? Na medida em que puderem ser considerados humanas, penso que a resposta deve ser não. A alegação mais forte que se pode fazer sobre os chamados povos em estado de natureza é a de que estão de certo modo mais próximos do que nós, povos não naturais, do maravilhoso ideal biológico. E mesmo que nós tenhamos sido por enquanto capazes de salvar uma maioria em cada tempestade, temos tido a ajuda dos aspectos da nossa natureza que estão apenas modesta ou moderadamente desenvolvidos. Esta base positiva (pois a protecção não pode por si criar vida, mas apenas atrasar a sua queda) deve ser procurada na manifestação naturalmente adaptada da energia no corpo e nas partes biologicamente úteis da alma, sujeitas como estão às dificuldades que se devem precisamente às limitações sensoriais, à fraqueza do corpo, e à necessidade de trabalhar para a vida e para o amor.

E é precisamente nesta abençoada terra finita da frente de batalha que a civilização do progresso, a tecnologia e a estandardização têm uma influência tão deletéria. Porque, à medida que uma fracção cada vez maior das faculdades cognitivas se retira do jogo contra o ambiente, há um crescente desemprego espiritual. O valor de um avanço técnico para a empreitada total da vida deve ser julgado pela sua contribuição para a oportunidade humana de ocupação espiritual. Embora os limites sejam imprecisos, talvez que as primeiras ferramentas de corte devam ser mencionadas como um caso de invenção positiva.

Outras invenções técnicas enriquecem apenas a vida do seu inventor; representam um roubo grosseiro e desapiedado da comum reserva humana de experiências e deveriam dar origem ao mais cruel dos castigos, se tornadas públicas contra o veto da censura. Um desses crimes, entre numerosos outros, é o uso de máquinas voadoras para explorar terras não mapeadas. Num único golpe vandalizador, destroem-se assim luxuriantes oportunidades de experiência que poderiam beneficiar muitos, se cada um, esforçadamente, obtivesse o seu justo quinhão.

O momento actual da febre crónica da vida é particularmente manchado por esta circunstância. A ausência de actividades espirituais de base natural (biológica) mostra-se, por exemplo, no recurso dominante à distracção (entretenimento, desporto, rádio — ‘o ritmo dos tempos’). As condições de ancoragem não são tão favoráveis — todos os sistemas colectivos de ancoragem que herdámos estão esvaziados pelo criticismo, e a ansiedade, a repulsa e a confusão transbordam pelas brechas (‘cadáveres no cargueiro.’) O comunismo e a psicanálise, ainda que não comparáveis num outro sentido, tentam ambos (dado que o Comunismo tem também um reflexo espiritual) reactivar por novos meios a velha escapatória; aplicam, respectivamente, a violência e a culpa para tornar os humanos biologicamente capazes, ao aprisionarem o seu excedente crítico de cognição. A ideia, em cada caso, é estranhamente lógica. Mas, mais uma vez, não podem constituir a solução final. Embora uma degenerescência deliberada para um nadir mais viável possa certamente salvar a espécie a curto prazo, ela será, pela sua própria natureza, incapaz de achar a paz nessa resignação, ou sequer de encontrar uma paz qualquer.

V

Se continuarmos estas considerações até ao seu amargo fim, não poderá haver dúvida sobre a conclusão. Enquanto a humanidade persistir sem descanso na ilusão fatal de ser biologicamente destinada ao triunfo, nada de essencial mudará. À medida que aumentam em número e que a atmosfera espiritual se adensa, as técnicas de protecção deverão assumir um carácter cada vez mais brutal.

E os humanos persistirão em sonhos de salvação e na afirmação de um novo Messias. E eis que, depois de muitos salvadores terem sido pregados a árvores e apedrejados nas praças das cidades, um último Messias aparecerá.

Então aparecerá o homem que, como o primeiro de todos, terá ousado despir a sua alma até à nudez, e submetê-la viva ao mais extremo pensamento da linhagem, a própria ideia do fim. Um homem que viu a vida e o seu fundo cósmico, e cuja dor é a dor colectiva da Terra. Com que gritos furiosos não reclamarão as multidões de todas as nações que esse homem morra mil vezes, quando a sua voz, como uma túnica, der a volta ao globo, e a sua estranha mensagem tiver ressoado pela primeira e última vez:

“A vida dos mundos é um rio que ruge, mas a da terra é um charco e uma água parada.
O sinal do fim está escrito na vossa fronte — por quanto tempo esperneareis por causa das picadelas?
Mas há uma conquista e uma coroa, uma redenção e uma solução.
Conhecei-vos a vós mesmos — sede inférteis e deixai a terra ser silenciosa sem vós.”

E quando tiver falado, lançar-se-ão sobre ele, conduzidos pelos fabricantes de chupetas e pelas parteiras, e sepulta-lo-ão nas suas unhas.

Ele é o último Messias. Como filho do seu pai, ele descende do arqueiro junto à nascente de água.

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