A rainha Mab

Sofro intermitentemente de uma estranha condição chamada Paralisia do Sono. Falar aqui da coisa não vem ao caso, muito menos dissecar a sua etiologia ou fazer prognósticos. Há, para os interessados, abundante bibliografia, em especial em línguas estrangeiras. Talvez se possa recomendar, a título de exemplo, o livro de Shelley L. Adler, Sleep Paralysis. Night-mares, Nocebos, and the Mind-Body Connection (2001, Rutgers University Press), ou o website de J.A. Cheyne sobre o assunto (http://watarts.uwaterloo.ca/~acheyne/).

Esta patologia do sono é conhecida desde tempos imemoriais e inscreve-se num complexo de referências folclóricas cujo elemento central é uma personagem chamada Mare. O Mare é um goblin, ou, como se diz pelas nossas bandas, um tardo ou insonho (em Trás-os-Montes, também trasgo), isto é, uma espécie de duende malévolo, ora masculino, ora feminino, que aparece no sono das pessoas e procura asfixia-las fazendo pressão sobre o seu peito. Daí a expressão inglesa nightmare (mais propriamente night-mare), o que, em português, se traduz aptamente por pesadelo.

Note-se que um pesa-delo (um nightmare, em alemão Nachtmahr, em francês cauchemar, em castelhano pesadilla) não é, assim, e originalmente, um sonho mau, mas antes um sonho ou sensação onírica de peso e de paralisia. Ocorre normalmente no início do sono (ou imediatamente antes do despertar) e não vem acompanhado de imagens perturbadoras e causadoras de medo, como sucede nos sonhos que actualmente tendemos a designar por pesadelos propriamente ditos. Pelo contrário: o que caracteriza um pesa-delo (usaremos a hifenação para denotar o sentido original da palavra) é precisamente a ausência das peripécias e da confusão onírica que caracteriza os pesadelos, e a clara e distinta sensação, por parte do sonhador, de que está deitado numa cama a dormir e sem poder mover-se. E, sobretudo, mas nem sempre, a sensação de que existe na escuridão do quarto uma presença vagamente sobrenatural que é responsável pela opressão torácica e pela sensação de asfixia.

O Mare, precisamente. Ou, como diz uma tradição paralela, a velha bruxa — the old hag, a que se refere Shakespeare no final do texto seguinte — ou o íncubo greco-latino que, numa sintomática mistura do sono com a sexualidade, visita as donzelas e as obriga a um nocturno comércio inconfessado.

Tudo isto vem a propósito e é mero pretexto destes versos absolutamente inescapáveis de William Shakespeare no Romeu e Julieta (Acto I, cena iv). A tragédia amorosa avizinha-se. Mercúcio, que sabe do assunto, explica que o amor, a confusão e o engano são obra do sonho, ou melhor, da rainha Mab. Ou Hag, tanto faz.

Os versos são imperdoavelmente sublimes. A tradução é minha. Deliciai-vos.

Romeu

Esta noite tive um sonho.

Mercúcio

Eu também.

Romeu

Oh. Sobre quê?

Mercúcio

Sobre que mentem amiúde os sonhadores.

Romeu

Na cama, sonhos têm verdadeiros.

Mercúcio

A rainha Mab visitou-vos, pelo que vejo.

Benvólio

Quem é a rainha Mab?

Mercúcio

A fada-parteira, em tamanho mais pequena que mulher
Gravada no anel do indicador de um rico-homem,
E a quem um par de átomos minúsculos arrastam
Sobre o nariz dos homens que dormitam.

A sua carroça é uma casca de avelã,
Feita por um artesão-castor ou pela venerável larva,
Desde sempre a fazedora de coches entre as fadas:
Os raios das rodas são as pernas longas das aranhas,
A capota as asas transparentes dos insectos,
Os tirantes finíssimas teias entrançadas,
O colar uns raios aquosos do luar;
O chicote um pé de grilo, o açoite um fio delicado,
O cocheiro um mínimo mosquito de libré cinzenta,
Menos que a metade de um redondo ácaro,
Desses que se arrancam dos dedos preguiçosos das criadas.

E com esta pompa trota ela noites atrás noites incessantes;
Viaja pelo cérebro dos que amam, e fá-los sonhar de amor ardente,
Por sobre os joelhos dos cortesãos, que sonham com imediatas cortesias,
Pelos dedos dos juristas, que logo sonham com gordos honorários,
Pelos lábios das mulheres, que assim sonham mil beijos recebidos,
Lábios que a irada Mab amiúde enche de venéreas pústulas,
Quando o excessivo consumo de confeitos o hálito apodrece.

Às vezes galopa sobre o nariz de um cortesão,
E fá-lo sonhar que aspira o aroma doce de um processo;
E por vezes transforma-se na enroscada cauda de um leitão de dízima,
E faz cócegas no nariz do vigário adormecido,
E acorda nele o sonho de um outro beneficio.

Outras vezes desliza sobre a nuca de um soldado,
E este sonha em cortar com afinco gargantas de inimigos,
E com brechas, com ciladas, com lâminas de Espanha,
Com copázios à saúde, cinco braças de fundura; e súbito
Desperta, em susto imenso, com o rufo de tambores nos seus ouvidos,
E, de terror tomado, articula e balbucia uma oração ou duas,
E adormece de cansaço.

Esta é a mesma e vera Mab
Que faz, pela noite fora, tranças cegas às crinas dos cavalos,
E põe nós de elfos e de fadas no cabelo das imundas meretrizes,
Os quais, se se desatam, auguram vários infortúnios.
Esta é a bruxa que, às donzelas que de costas dormem,
Oprime e pesa e ensina a suportar o peso dos maridos,
Assim fazendo delas mulheres de belo porte.
Esta é aquela que –

Romeu

Paz, paz, Mercúcio, paz!
De nada falas.

Mercúcio

Verdade, falo dos sonhos,
Que são as crias de um cérebro ocioso,
Nascidas de nada senão da torpe fantasia,
Ela mesma, como o ar, coisa inútil e sem peso,
E mais inconstante que o vento, que corteja
Agora mesmo o ventre gélido do norte,
E que, repudiado, ao norte volta as costas de despeito,
E ora aspira ao orvalho do quente meridião.

Benvolio

Este vento de que falas arrasta-nos de nós:
O jantar está findo, e tarde chegaremos.

(William Shakespeare, Romeu e Julieta, I, IV, 49-105)

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