Um avistamento francês de um vrykolakas em Dezembro de 1700 na ilha de Mykonos

Joseph Pitton de Tournefort (1656-1708), foi um botânico francês do século XVII. Nascido em Aix-en-Provence, antiga capital histórica da Provence, viu a sua carreira académica culminar no Collège Royal, em Paris, com a cátedra de medicina e botânica, carreira essa que foi infeliz e prematuramente interrompida por um atropelamento fatal por uma carroça na rue Lacépède, nas proximidades do Jardin des Plantes. Corria o dia 16 de Abril de 1708, tinha o nosso autor apenas 52 anos de idade e uma saúde de ferro.

Como era mister entre os naturalistas da época, Tournefort foi um incansável viajante científico. As suas viagens levaram-no a vários países da Europa, e trouxeram-no inclusivamente a Portugal, que percorreu de norte a sul em busca de curiosidades botânicas e de costumes. Como escreveu de Fontenelle no seu elogio fúnebre de Tournefort, na Académie des Sciences, “a Botânica não é uma ciência preguiçosa e sedentária, que se possa adquirir no repouso e na sombra de um gabinete, como a Geografia e a História (…)”.

A viagem mais conhecida de Tournefort foi, porém, a realizada ao Levante, isto é, às Ilhas do Egeu, à Anatólia e ao Mar Negro, por ordem do Rei Luís XIV. Dessa viagem deixou-nos o autor uma descrição detalhada em três volumes, numa obra publicada postumamente em 1717. É do primeiro volume dessa obra que apresento, a seguir, a narrativa da experiência, por Tournefort e seus colegas de viagem — de que faziam parte, entre outros, o pintor Aubriet e o botânico alemão Andreas von Gundelsheimer — de um Vrykolakas, na ilha grega de Mykonos. A narrativa pode ler-se no terceiro capítulo do primeiro tomo da obra, na sua edição parisiense (há outra edição, feita em Lion, no mesmo ano e com paginação distinta) entre as páginas 131 e 136.

A tradução é minha. Espero que apreciem a descrição que se segue.

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Vimos uma cena bem diferente e bem trágica na mesma ilha [i.e., em Mykonos] por ocasião de um desses mortos que se acredita regressarem depois do seu enterramento.[1] Vamos contar a história de um paisano de Mykonos, de seu natural tristonho e quezilento; há uma circunstância que deve notar-se relativa a casos deste tipo: [ele] foi morto no campo, não se sabe por quem, nem como. Dois dias depois de ter sido inumado numa capela da aldeia, correu o rumor de que o viam de noite calcorrear os caminhos a grandes passadas, que entrava nas casas e virava os móveis, que apagava as lâmpadas, que abraçava as pessoas por detrás, e fazia mil partidas. Inicialmente provocava sorrisos apenas; mas a coisa tornou-se séria quando as pessoas mais importantes começaram a queixar-se: os próprios Papas [i.e., padres] concordaram que era sério e nisto sem dúvida que teriam as suas razões. Rezaram-se missas: o paisano continuou, contudo, com a sua vidinha, sem se corrigir. Depois de várias reuniões das autoridades, dos padres e dos religiosos, concluiu-se que era preciso, de acordo com não sei qual cerimonial antigo, esperar que decorressem nove dias depois do enterro.

No décimo dia rezou-se uma missa na capela onde estava o corpo, afim de expulsar o demónio, que se acreditava nele estar metido. O corpo foi desenterrado depois da missa, e tratou-se de lhe arrancar o coração. O carniceiro da cidade, já velhote e muito desajeitado, começou por abrir o ventre em vez do peito: procurou nas entranhas por bastante tempo, sem nelas encontrar o que procurava: finalmente alguém lhe disse que era preciso furar o diafragma. O coração foi arrancado com a admiração d todos os presentes. O cadáver, porém, fedia tanto, que foi necessário fazer arder incenso; mas a fumarada, misturada com as exalações desta carniça, apenas fazia aumentar a pestilência, e começou a aquecer os miolos desta pobre gente. A sua imaginação, agudizada pelo espectáculo, encheu-se de visões. E disse-se que saía deste corpo uma fumarada espessa: nós não ousávamos dizer que era do incenso. Gritava-se Vroucolacas na capela e no largo fronteiro: é esse o nome que se dá a estes pretensos mortos-vivos. O barulho alastrou para as ruas como em vagas grunhosas, parecendo que este nome fora inventado de propósito para abalar a cúpula da capela. Diversos assistentes asseguravam que o sangue deste infeliz era bem vermelho: o carniceiro jurava que o corpo estava ainda quente; de onde se conclui que o morto fizera bem mal em não ter continuado morto, ou, melhor dizendo, por se ter deixado reanimar pelo diabo; é essa precisamente a ideia que fazem do Vroucolacas. Fazia-se então ressoar este nome de uma maneira espantosa. Apareceu nesse momento um punhado de pessoas, que protestavam em voz alta dizendo que se tinham apercebido muito bem que este corpo não ficara rígido, quando o levaram do campo para a Igreja para o enterrar, e que por consequência era um verdadeiro Vroucolacas: era esse o refrão.

Não duvido que nos acabariam por garantir que ele não fedia, se não tivéssemos estado presentes, de tal maneira estava esta pobre gente aturdida com a situação, e enfatuada com o regresso dos mortos. Nós, que nos colocáramos junto do cadáver para observar com mais exactidão, quase desmaiámos com o enorme fedor que dele saía. Quando nos perguntaram o que pensávamos deste morto, respondemos que achávamos que estava bem morto; mas como queríamos curar, ou pelo menos não ofender, a sua imaginação ferida, dissemos que não era surpreendente que o carniceiro tivesse notado algum calor ao mexer nas entranhas que apodreciam; que não era extraordinário que delas saíssem alguns vapores, que saem de um fumeiro que se remexe; que, quanto a este pretenso sangue vermelho, e que se via ainda nas mãos do carniceiro, não era mais do que um limo muito fedorento.

Depois de todas estas considerações, acordou-se ir até à marina, queimar o coração do morto, o qual, apesar desta operação, se mostrou menos dócil, e fez mais barulho do que antes: acusaram-no de bater em pessoas à noite, de rebentar as portas, e mesmo os terraços; de partir as janelas, de rasgar as roupas; de entornar os jarros e as garrafas. Tratava-se de um morto bastante alterado: creio que apenas poupou a casa do cônsul na qual pernoitávamos. No entanto não vi nada de mais lamentável do que o estado em que se encontrava esta ilha: toda a gente tinha a imaginação transtornada: mesmo as pessoas de melhor espírito pareciam tão atacadas como as demais: era uma verdadeira doença do cérebro, tão perigosa como a mania ou a raiva. Viam-se famílias inteiras abandonar as suas casas, trazendo das extremidades da cidade até à Praça as suas enxergas, para passar a noite. Todos se queixavam de novas ofensas: e só se ouviam gemidos ao tombar da noite; os mais sensatos partiram para o campo.

Neste estado tão geral de prevenção, tomámos a decisão de nada dizer. Porque não só nos teriam tratado de ridículos, mas também de infiéis. Como fazer cair em si toda uma população? Os que acreditavam no seu íntimo que nós duvidávamos da veracidade dos factos, vinham até nós para nos censurar pela nossa incredulidade, e pretendiam provar que há Vroucolacas, por meio de uma qualquer citação retirada do Escudo da Fé do padre Richard, missionário jesuíta. Era latim, diziam, e por consequência deveis acreditar nele. Nada lucraríamos se negássemos a consequência: contavam-nos todas as manhãs a comédia, por um relato fiel das novas loucuras cometidas por esta ave noturna: acusavam-no mesmo de ter cometido os pecados mais abomináveis.

Os cidadãos mais zelosos do bem público acreditavam que se tinha errado no ponto mais essencial da cerimónia. Bastaria, segundo eles, celebrar a missa depois de ter arrancado o coração deste infeliz; e pretendiam que, com esta precaução, não teriam deixado de surpreender o diabo, e que sem dúvida este não encontraria forma de voltar, em vez de, tendo-se começado pela missa, ele ter tido, diziam eles, todo o tempo para fugir e poder regressar depois à sua vontade.

Não obstante todos estes raciocínios, as pessoas encontravam-se no mesmo embaraço que no primeiro dia; reuniam-se à tarde e de manhã, faziam procissões durante três dias e três noites, obrigavam os Papas a fazer jejum, viam-nos a andar pelas casas com o hissope na mão, a lançar água-benta e a lavar as portas; e enchiam mesmo de água-benta a boca desse pobre Vroucolacas.

Dissemos muitas vezes aos administradores da cidade que, em caso similar, não se deixaria na Cristandade de exercer vigilância durante a noite, para se observar o que se passaria na cidade; que talvez se devessem prender alguns vagabundos, os quais certamente teriam algo a ver com todas estas desordens: aparentemente não seriam os seus principais autores, ou então libertaram-nos demasiadamente cedo; porque dois dias depois, para se compensarem do jejum que lhes tinha sido imposto na prisão, recomeçaram a esvaziar os jarros de vinho dos que eram suficientemente tolos para terem abandonado as suas casas durante a noite: foram assim obrigados a regressar às orações.

Um dia em que se recitavam certas orações, depois de se terem enterrado já não sei quantas espadas nuas na fossa deste cadáver, o qual se desenterrava três ou quatro vezes por dia, segundo o capricho do primeiro recém-chegado; um albanês que por essa ocasião se encontrava em Mykonos, achou por bem dizer num tom de doutor que era perfeitamente ridículo em tais casos usar as espadas dos cristãos. Não vêdes, pobres cegos, dizia ele, que a guarda dessas espadas, ao desenhar uma cruz com o punho, impede o diabo de sair desse corpo? Porque não usais ao invés os sabres dos turcos? O conselho deste homem hábil de nada serviu: o Vroucolacas não parecia mais tratável, e toda a gente permanecia numa estranha consternação: não sabiam a que santo se votar, quando, de uma só voz, como se uma ordem tivesse sido transmitida, se puseram a gritar por toda a cidade, que já era demasiada a espera, que era preciso queimar o Vroucolacas inteiro: que depois disso impediriam o diabo de a ele regressar: que era melhor recorrer a esse extremo, que deixar desertar a ilha. Com efeito, havia já famílias inteiras que empilhavam as bagagens, com o propósito de se retirarem a Sira ou a Tinos. Levou-se pois o Vroucolacas por ordem dos administradores à ponta da Ilha de São Jorge, onde se preparara uma grande fogueira com alcatrão, com o receio de que a madeira, por mais seca que fosse, não queimasse tão depressa por si mesma: os restos deste infeliz cadáver foram lá deitados e consumidos em pouco tempo: era o primeiro dia de janeiro de 1701. Vimos este fogo ao regressar de Delos; bem lhe podíamos chamar um verdadeiro fogo celebratório, pois não se ouviram mais queixas contra o Vroucolacas; as pessoas contentaram-se em dizer que o diabo fora bem apanhado dessa vez e fizeram-se algumas canções para o ridicularizar.

Em todo o arquipélago acredita-se que só aos gregos do rito grego é que o diabo reanima os cadáveres: os habitantes da ilha de Santorini apreendem bem estas espécies de lobisomens: os de Mykonos, depois de as suas visões se terem dissipado, receavam também as perseguições dos turcos e as do bispo de Tinos. Nenhum Papas quis permanecer em São Jorge, quando se queimou este corpo, com receio de que o bispo exigisse uma quantia por terem desenterrado e queimado o morto sem a sua permissão. Quanto aos turcos, é verdade que, logo na sua primeira visita, obrigaram a comunidade de Mykonos a pagar o sangue deste pobre diabo que se tornou desta maneira a abominação e o horror da sua terra. Depois disto não é mister confessar que os gregos de hoje não são grandes Gregos, e que só há entre eles ignorância e superstição?

[Pitton de Tournefort, Relation d’un Voyage du Levant, fait par ordre du Roy, Contenant l’Histoire Ancienne et Moderne de plusieurs Isles de l’Archipel, de Constantinople, des Côtes de la Mer Noire, de l’Armenie, de la Georgie, des Frontieres de Perse e de l’Asie Mineure. Avec les Plans des Villes et des Lieux considerables; le Genie, les Mœurs, le Commerce et la Religion des différents Peuples qui les habitent; et l’Explication des Médailles et des Monumëns Antiques. Enrichie de Descriptions et de Figures d’un grand nombre de Plantes rares, de divers Animaux; Et de plusieurs Observations touchant l’Histoire Naturelle. Paris, Imprimerie Royale, 1717. Tome Premier, pp. 131-136.]

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[1] Nota do autor: Vroucolacas, espectro composto por um corpo morto e por um demónio. Há os que acreditam que ‘vroucolacas’ significa uma carcaça. ‘Broukos’ significa o lodo fedorento que se acumula no fundo das fossas antigas, porque ‘lakkos’ significa uma fossa.

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