A Foz

Se lestes o meu último post neste blogue, dedicado ao diário português de Mircea Eliade, sabereis que o escritor romeno exalta nele a popularidade de duas obras de Ramalho Ortigão. Uma delas é “As Praias de Portugal: Guia do Banhista e do Viajante”, publicada em 1876, na Livraria Universal, de Magalhães e Moniz, sita nos números 12 a 14 do Largo dos Loyos, na mui nobre cidade do Porto.

Nesta obra, Ramalho Ortigão descreve as características e o modo de ser das praias portuguesas do seu tempo, de Setúbal para cima. Por esta ordem, que eu gosto de pensar que é, de certa forma, a da importância que ele lhes atribui: a Foz do Douro, Leça e Matosinhos, Pedrouços, a Póvoa do Varzim, a Granja, as praias da costa de Cascais, Vila do Conde, Espinho, a Ericeira, Nazaré, a Figueira da Foz, Setúbal e um conjunto de praias a que ele chama ‘obscuras’, como a de Âncora, a do Furadouro ou a de São Pedro de Moel. Note-se que nenhuma delas se localiza no Algarve, por então e por muitos anos a vir ainda, desconhecida como zona de banhos pelos portugueses leitores a quem Ramalho Ortigão se dirigia.

No extrato que se segue reproduzo o capítulo 2, entre as páginas 23 e 35, e que é dedicado à Foz. A ortographia é, como convém, a da época, que eu quis que fosse rigorosamente a da primeira edição do livro. Deu-me por isso algum trabalho a transcrição, e é perfeitamente natural que erros e gralhas tenham logrado erguer a perversa cabeça, aqui ou ali. Se for esse o caso, rogo-vos paciência e, já agora, que os apontem, para eu corrigir.

Há deste livro uma reedição recente, da editora Quetzal.

Agora o texto sobre a Foz.

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A FOZ

Foz ! Saudosa Foz ! Residencia querida da minha infancia tão afastada já — ai de mim! — d’estes annos duros! Com que terno prazer que eu te saudo, sempre que te avisto, ou penso em ti!

Estamos bem mudados ambos — velha amiga! — tu do que foste, eu do que era!

No tempo em que eu ia de chapéu de palha e de bibe, á tarde, apanhar conchinhas na costa, pela mão de minha avó, tu eras grave, simples, burgueza, recolhida e silenciosa como uma horta em pleno campo.

Tinhas duas hospedarias: a do Julião, defronte do Castello, e a do Silvestre, ao fundo da rua Direita. Em qualquer d’ellas, o preço, com almoço de bifes e ovos, jantar e ceia, com lautas sobremezas de pudim de pão com passas, muita fructa e vinho á discrição, era de um pinto por dia. Porque tudo quanto era bom e caro, custava n’esse tempo — um pinto.

A Foz cerca de 1876 copyAlém d’estas hospedarias havia o café da Senhora da Luz, a Assembleia do Mallen, á esquina da praia dos Inglezes; um barbeiro na rua Direita, que era veterano, tinha a figura de uma esphera, e exhibia á porta do seu estabelecimento um pintasilgo dentro de uma gaiola cylindrica, que andava á roda, fazendo mexer engenhosamente um boneco e uma boneca que estavam dos lados, segurando uma manivella.

Havia também a Rosa das burras, cujo nome provinha do seu estabelecimento, em que se alugavam as mulinhas cavalgadas para a viagem a Leça, chamando a attenção dos viandantes por meio da seguinte taboleta, pintada no muro do quintal:

Aqui se alugo vurras para passeio e para leites
com albarda e com selim de homen e de senhora.

No principio da estação, em agosto, começavam a chegar os banhistas!

Vinham as familias do Douro. Via-as a gente em magotes, confrangidas, arripiadas, olhando para o mar com uma grande sensação de espanto, de pavor e de frio.

Os homens traziam os seus capotes bandados de velludo ou de baeta verde. As senhoras atavam na cabeça três lenços, e punham por cima uma manta. Ao lado ia o padre, o capellão da casa ou o prior da freguezia, com o seu solideo de retroz atabafando-lhe as orelhas, o chapéu braguez seguro por baixo da barba com um cordão, com passador, terminando n’uma bolota. E o ecclesiastico, levando na mão o seu lenço de Alcobaça, de quadrados azues e encarnados, apontava para os navios com o ferrão do seu guarda-sol e explicava alguns segredos da navegação. Atraz seguia a criada, boquiaberta, com os seus bandós alisados com banha de porco, os pés sem meias calçados em grossos sapatos, a saia curta, as mãos debaixo do avental.

Tinham os seus passeios favoritos:

Ao farol da Senhora da Luz, onde o faroleiro deixava olhar pelo oculo para os velhos telegraphos, cujo apparelho de taboinhas, armado no viso dos montes, parecia espreguiçar-se e bocejar as noticias no azul do espaço;

Pela manhã, á feira onde estacionavam os carros das melancias, as canastras com os frangos, os gigos d’uvas, a louça branca e amarella, e as bilhas do leite;

Á Cantareira, de tarde, quando chegavam as lanchas do peixe e se comprava a volumosa pescada de dorso preto, que as criadas traziam para casa em argola, com a ponta da cauda na bocca, como o symbolo da immobilidade egypcia.

Não sei qual era a vida das demais familias que iam para a Foz n’esse tempo, porque a convivência era tão pouca, que toda a gente comia salada de alho, francamente, sem receio de vir a fallar com outrem que não fosse a familia.

Na minha casa, o theor era este:

De manhã, depois do banho, ás oito horas, almoçava-se café com leite, pão com manteiga fresca, que vinha das terras de minha avó. Ao meio-dia jantava-se. Ás Ave-Marias, quando se escondiam as moscas e o sol, persignavamos-nos, resavamos o Angelus ao toque do sino da Igreja e tomavamos chá com pão de Villar e biscoutos de Avintes.

Vinha depois o serão: uns costuravam, outros liam o Periodico dos Pobres, outros jogavam o voltarete ; eu tirava os meus significados de Tito Livio e adormecia — sendo consules Marco Tullio e Publio Vitellio.

Ás oito horas e meia, quando os tambores e as cornetas do Castello tocavam a recolher, comia-se peixe cosido, bifes, esperregado, enormes quantidades de melão; procedia-se á operação de ir cada um para o seu quarto queimar os mosquitos; e todos se deitavam em seguida.

Alta noite acordava-se por via de regra uma vez. No grande silencio da terra ouvia-se o mar bramir e rebentar na costa com um echo solemne e triste. Uma voz ao longe chamava : Ó sê Machado! Ó sê Machado! Eram os pescadores que vinham acordar o patrão de uma lancha. Na capoeira, umas azas espanejavam ruidosamente. Cantava um gallo. A gente pensava: «Está digerido o melão.» E adormecia-se outra vez, emquanto um mosquito, que escapára á queima, zumbia nas trevas, guloso e feroz.

Muita gente vinha do Porto, de madrugada, tomava banho e regressava á cidade. Este serviço era em grande parte feito pelos carroções, um dos mais extraordinarios inventos do espirito portuense, applicado á locomoção.

O carroção era um pequeno predio, com quatro rodas, puxado por uma junta de bois. Dentro havia duas bancadas parallelas, em que se sentavam os viajantes. Por fora, sobre uma faixa pintada de uma côr alegre, lia-se o nome do proprietario e do inventor da machina: Manoel José de Oliveira.

Quanta gente cabia n’um carroção? Nunca se pôde saber. Um carroção levava uma familia. Que esta fosse pequena ou grande, o carroção não se importava com isso e levava-a. Levava-a de vagar, mas ia-a levando sempre.

Havia familias enormes que não cabiam em duas salas e que se accommodavam n’um carroção. No inverno, uma d’essas ingentes molles chegava á porta do theatro de S. João. A portinhola abria-se; havia uma escada com corremão para descer; o carroção começava a despejar senhoras. O pateo do theatro enchia-se e o carroção continuava sempre a deitar gente. Pasmava-se de que elle podésse conter tantas pessoas, ia-se olhar e encontrava-se ainda, lá dentro, no escuro, a mexer-se e a preparar-se para sahir, tanta gente como a que estava fóra !

Nas viagens para a Foz, para Leça, para a Ponte da Pedra, para Mathosinhos, além da gente, ia também nos carroções louça, fatos, roupas, viveres para os viajantes e penso para os bois ! Para este fim havia nas bancadas, por baixo das almofadas, esconderijos tenebrosos e profundos, onde, no caso de necessidade, poderia arrumar-se – outra familia.

Manel Zé de Oliveira, ou simplesmente Manel Zé, como por elegante abreviatura se lhe chamava, alugava os seus carroções por um pinto, como os quartos da hospedaria do Damião.

Por tão módica quantia teve Manel Zé por muitos annos o glorioso privilegio de fazer viajar a população portuense pelos diversos subúrbios tão pittorescos da sua cidade invicta.

Como os carroções andavam tão devagar como as noras, depois de entrar a gente para dentro d’elles e de se pôr a olhar para fora pelos postigos, não tinha remedio senão observar por muito tempo os logares; de sorte que as viagens feitas por este modo eram para sempre memoraveis.

O primeiro golpe na popularidade enorme de Manel Zé foi-lhe verberado pelo segeiro Tavares, da rua da Boa-Vista. Em certo dia de funcção suburbana Tavares pôz na rua tres carroções novos, de cores extraordinarias, maiores que os de Manel Zé e aperfeiçoados com o appenso festival de uma bandeira. Estes três carroções chamavam-se o Rapido, o Veloz e o Ligeiro. Do Porto á Foz, uma legua, ida e volta, grande celeridade, a toda a força dos bois, — um dia.

Manel Zé, vendo passar o Ligeiro — e só Deus sabe o tempo que o Ligeiro levava a passar ! — desmaiou de desgosto.

Além d’estes carroções de aluguer puxados por bois, havia os carroções particulares, puxados por vaccas.

Sobre um jogo de quatro rodas enormemente altas, tendo duas vezes o diametro das rodas das antigas seges de cortinas, alçavam-se quatro tremendos ganchos de ferro; da ponta d’estes ganchos desciam quatro valentíssimas correias ; na extremidade d’estas correias suspendia-se a caixa do carroção particular, tendo na trazeira uma taboa e duas alças para um criado de pé, e ao lado, por baixo das portinholas, dois estribos de que se desdobrava uma escadaria para subir ao monumento.

Consagrando estas modestas linhas á historia da antiga viação portuense, não posso omittir a descripção do notável carroção da minha familia.

Um tio meu, irmão de minha avó, que fora frade Grillo, inventou o carroção — de via estreita.

Meu tio, que era também meu padrinho, tinha uma enorme força legendaria, comparavel á do príncipe Maurício de Saxe, que fazia um saca-rolhas torcendo um prego com as pontas dos dedos. Pouco mais ou menos com a mesma facilidade com que eu dobro pelo meio um bilhete de visita, meu tio dobrava na sua forte mão um pinto de boa e rija prata de lei, do tempo do snr. D. João v. Impossibilitado de andar, em consequência de ter sido gravemente mordido em uma perna por um cão de fila, empregava os seus ócios, de erudito e de prégador notavel, em trabalhos manuaes. Eram feitos por elle todos os instrumentos ruraes da nossa pequena lavoura.

O seu engenho mechanico levou-o um dia a mandar construir, com a sua colaboração e debaixo da sua direcção technica, um carroção.

A modificação essencial introduzida por elle consistia em affeiçoar as rodas ao trilho ordinário dos carros de bois de modo que o seu carroção podésse penetrar nos caminhos viccinaes das aldeias, seguir os atalhos, subir aos montes, entrar nos campos, etc. A outra modificação era a suppressão das molas, dos ganchos de ferro e dos suspensorios de couro. O carroção de meu tio — sinto dizel-o — não era, em resumo, mais que uma caixa envernizada, com rodas e com postigos envidraçados. De resto, infinitamente commodo, porque, como elle muito bem dizia, «ia-se n’aquillo para toda a parte». Somente não se ia bem.

A não ser eu, que tinha então cinco annos, ninguém da minha famiha consentiu jamais em acompanhar meu tio dentro da coisa a que elle chamava um carroção, mas a que minha avó chamava — um moinho.

Os mesmos víveres eram difiiceis de transportar, porque tudo quanto sahia de casa sob as formas de garrafas, perna de vitella, pão, queijo, laranjas, etc, chegava ao termo da nossa viagem sob a fórma unica e homogenia — de picado.

A meu tio, porém, todos os carroções lhe pareciam inferiores ao seu.

— Olha, — dizia-me elle quando passava o carroção do nosso visinho, o visconde de Beire — repara n’aquillo: n’aquella caranguejola tudo são balanços : balanço para diante, balanço para traz, balanço para a direita, balanço para a esquerda. No nosso carroção ha um balanço só, unico, exclusivo, que é o balanço de baixo para cima.

Assim era, effectivamente. Esse balanço, porém, valia por todos os outros, porque era tão forte, que por muitas vezes me fez ir apalpar o tecto com a nuca.

— É para te abrir esse juizo! dizia-me meu tio, usando assim, como orador sagrado, da figura de rhetorica, que toma o conteúdo pelo continente.

No sentido litteral o que verdadeiramente ameaçava abrir-se-me não era o juizo, era a cabeça.

Ainda assim divertiamo-nos. Meu tio estava no carroção como no seu quarto. As caixas dos bancos tinham chaves e levavam as suas coisas, provisões de differentes generos, os seus livros, a sua espingarda. Eu soltava no ar o meu papagaio de papel, e levava-o seguro pelo fio dentro do carroção; meu tio deixava-me algumas vezes dar tiros aos pardaes.

Um dia — dia fatal ! — meu tio entendeu que o seu carroção era de via ainda mais reduzida do que elle effectivamente era. Mandou-o metter no campo por um caminho estreitissimo. De repente achamo-nos atravancados entre dois prédios rusticos. Foram baldados todos os esforços que se empregaram para nos desencravar d’alli: o carroção não ia para diante nem vinha para traz de modo algum. Tivemos então todos que nos separar. Dissemos adeus aos bois pelo postigo da frente. O gado foi por um lado, nós viemos por outro; e por cima, das janellas das casas, desceram homens que desfizeram o carroção e o trouxeram para nossa casa, em pedaços, ás costas.

Além das familias que iam á Foz de carroção, havia as pessoas que iam em burros. Ao pé de Sobreiras parava tudo para desaguar o gado e para os homens comerem.

Ninguém fazia o trajecto de ida e volta á Foz em menos de seis a oito horas, comprehendido o tempo do banho.

No meio d’esta geração vagarosa, pacata, ronceira, havia uma mocidade scintillante, vivaz, animadissima.

O folhetim portuguez teve então a sua edade de ouro nas columnas do Nacional, onde experimentavam as suas armas com o mais brilhante successo Evaristo Basto, Camillo Castello-Branco, Arnaldo Gama e Ricardo Guimarães, mais tarde visconde de Benalcanfôr.

No dandysmo os Browns, os Monteiros, os Maias e outros, constituiam um grupo que não teve egual, e que poderia ser comparado ao que era pelo mesmo tempo em Pariz a celebre sociedade de Roger de Beauvoir.

Um, jogando n’uma soirée na Foz, perdeu um cavallo inglez que apostara n’uma carta contra 50 moedas. Veio em seguida á rua, montou o cavallo, esporeou-o pelas escadas e pelos corredores, e foi pôl-o na casa de jogo ao pé da cadeira de José Lombardi, que o ganhara.

Outros, sahindo a cavallo de madrugada, e encontrando-se no largo da Trindade com os piquetes da guarda municipal, que tinham patrulhado a cidade e que se reuniam n’esse ponto para marcharem juntos para o quartel, carregaram a guarda, desarmaram-a e dispersaram-a a chicote.

Os de outra cavalgada tomaram de uma vez o Castello do Queijo, aprisionaram os veteranos que faziam a guarnição, carregaram as peças, levantaram a ponte levadiça e ficaram lá dois dias, homens, mulheres e cavallos, vivendo uns de amor, outros de champagne, outros de palha, conforme as necessidades do temperamento e do appetite de cada um.

Os jornalistas tinham uma audacia e uma furia, de que não ficou exemplo. Conta-se que tres bons burguezes, membros da Sociedade da herva, que assim se chamava a Assembleia Portuense, fulminados n’um folhetim, morreram successivamente de ataques apopleticos dentro de quinze dias.

O respeito das formulas exteriores era tal que nenhum negociante ousava deixar crescer o bigode e nenhum homem grave fumava na rua. Da força da resistencia contra este espirito humilde, timorato e burguez, bastará dar um exemplo:

Eu mesmo vi um dia sahir da Foz uma burricada, em que um dos cavalleiros ia em ceroulas, com as chinellas de ter no quarto, levava aos hombros um lençol, e na cabeça, enfiada pelo cano, uma enorme bota de montar.

Os negociantes do Souto, do largo da Feira e da rua das Flores, tinham epylepsias de rancor perante estas exhibições do escandalo, mas nenhum protestava ostensivamente, porque os rapazes d’esse tempo ainda se não chamavam os crevés, chamavam-se os leões; usavam calças á hussard e esporas, bigodes longos e recurvos; traziam em vez de bengallas casse-têtes de castões de ferro ou de galho de veado, suspensos do pulso por uma asa de couro.

Sob o seu aspecto bellicoso, tinham um grande fundo de innocencia e de candura, uma sentimentalidade terna e magoada; eram umas crianças — terriveis.

Deram de uma vez um jantar de despedida a uma alegre rapariga franceza. O jantar celebrou-se n’uma casa de Entre-Paredes, e foi todo servido em louça da China e em cristaes inglezes. Á sobre-meza houve um hurrah temeroso : os convivas pegaram na toalha e arrojaram toda a baixella á rua.

O serviço dos carroções e dos burros, sobre os quaes as senhoras regressavam do banho com os seus narizes frios e os seus chapéus postos em cima de seis lenços atados na cabeça, foi ampliado por fim com o serviço dos omnibus, cuja empresa falliu cuido eu.

Os homens sérios não queriam sujeitar-se ás convivências que ás vezes os esperavam, ou aos ditos de que eram objecto se não confraternisavam com a companhia que se lhes deparava no omnibus.

Na carreira d’estas carruagens, quando o ventre de um capitalista assomava á portinhola para se apear, havia na almofada uma voz que bradava: «Previne-se o publico de que vae arrotar o omnibus!» Logo que o poderoso burguez saltava á rua, outra voz não menos temerosa gritava de dentro: «Meus senhores e minhas senhoras ! o omnibus arrotou ; vamos proseguir ! »

Aos omnibus seguiram-se os chars-à-bancs; e desde que estes entraram na carreira da Foz, partindo do Carmo e da Porta Nobre, o movimento dos banhistas augmentou extraordinariamente e a vida n’esta praia entrou na sua phase moderna. Como eram insufficientes as casas da antiga povoação, circumscripta nos pequenos bairros do Monte, da Praia e da Cantareira, as novas edificações começaram a estender-se por Carreiros, aonde se abriu a formosa estrada de Lessa, batida pelo Oceano, varrida pela brisa maritima, impregnada das penetrantes exhalações salgadas. Alguns dos novos prédios construídos n’este sitio, um dos mais bellos do nosso litoral, seguiram os modelos das construcções francezas do mesmo género e offerecem o elegante aspecto modesto e confortável, tão raro nas casas portugaezas.

O movimento da sociedade na Foz tem o que quer que seja de desordenado e confuso que perturba os que chegam de novo.

Não se sabe facilmente de onde é que tanta gente vem e para onde é que tanta gente vae. Os estrangeiros acham-se isolados no meio da multidão e julgam-se infastiadamente fora dos interesses que determinam aquelle movimento geral. A rasão é que toda a gente na Foz anda na rua sem outro destino que não seja sahir de casa e voltar para casa.

A arte de empregar o tempo agradavelmente, rara em portuguezes, é inteiramente desconhecida na Foz. Não ha o estabelecimento dos banhos como nas praias francezas; não ha um parque com flores, com agua, com musica, com jogos de jardim, para onde as mulheres e as crianças vão estar ao ar livre ; não ha sequer um club — o triste club — pelo menos em que as senhoras se reunam de dia.

Almoçar, jantar, enxugar os cabellos, é a occupação ordinaria das banhistas n’esta praia, desde as oito horas da manhã até o fim da tarde.

Á noite, os homens jogam nos tripots.

Algumas senhoras do Porto recebem nas suas casas ou organisam soirées em uma casa commum destinada especialmente para este fim. Estas soirées são extremamente agradáveis.

As senhoras portuenses, em cujas physionomias predomina o louro elemento minhoto e britanico, entre as quaes é raro o typo meridional da mulher de Lisboa, são inteiramente amaveis.

Vestem-se melhor para o campo e para viagem, do que para baile. Nas suas toilettes decotadas, nos seus vestidos cobertos de renda, nos seus penteados difficeis, vistas á noite, entre as flores, no meio das bandejas dos gelados, sob os lustres, falta ás vezes uma pequena coisa, uma prega, uma dobra, um vinco, um toque quasi indizivel, mas essencial ao effeito da linha.

Umas vezes é a roda do vestido que não tem a devida dimensão, que não está bem distribuida, que não quebra onde devia quebrar, e por esse motivo, na valsa ondula mal, descobre de mais ou não descobre bastante o pé, e ao sentar n’um fauteuil ou no canto de uma ottomana, não se aparta bem, rapidamente, com um impulso do pé, para um lado; e cae mal.

Outras vezes são as luvas, demasiadamente apertadas, que não deixam fechar a mão, e são um indicio flagrante e terrivel de refinamento provinciano.

Ha n’alguns casos o cabello, a complicada questão do cabello, que nem sempre se resolve satisfactoriamente.

No penteado ha dois generos: o genero desdem e o genero esmero. O genero desdem fica bem ás louras. Os cabellos castanhos e os cabellos pretos não supportam senão o genero esmero.

Os escolhos do penteado desdem são a pellicula e o gancho. Uma pellicula, uma pelliculasinha muito pequenina, o mais tenue indicio, a mais remota suspeita de caspa, compromette tudo. O gancho que se deixa ver está no mesmo caso da pellicula.

O perigo do penteado esmero é a complicação e os cosmeticos: desde que elle não reune a extrema simplicidade com a minima porção de pomada, está perdido.

Estes senões são coisas tão subalternas e tão secundarias, que eu só as menciono a titulo de pura curiosidade local.

De resto, as soirées da Foz, mesmo género das soirées portuenses, são animadissimas. As senhoras teem alegria e vivacidade. Conversam affectuosamente, com uma certa ingenuidade captivante. A entonação e o compasso da sua maneira especial de declamar dá-lhes na conversação um ar sympathico, de uma bondade risonha, que fica bem entre os bons dentes brancos, nas lindas boccas frescas e vermelhas.

Os homens teem o tom, o ar e a moda ingleza; cultivam esmeradamente a suissa, a gravata apparatosa, o fraque curto, a bota grossa e o chapéu de chuva. Andam depressa e a largas passadas. Jantam sempre em familia. Os restaurantes e as mezas redondas são apenas frequentadas pelos viajantes e pelos extrangeiros. Ha dois annos contavam-se apenas na cidade toda quatro sujeitos vadios. Ultimamente, consta-nos que foi um d’elles para o Brazil, — de enfastiado; e que o outro montou uma casa de commissões, — para ter para onde ir. Assim, o numero dos habitantes do Porto inteiramente desoccupados, deve n’esta data achar-se reduzido — a dois.

Ha quatro annos, os portuenses, considerando que Lisboa gostava muito de touros, e que elles detestavam os touros, pareceu-lhes que esta differença constituia para a sua cidade uma inferioridade burgueza, e na semana seguinte, a cidade em peso, como um só homem, como um só fadista, pediu touros, muitos touros, que lhe não dessem senão touros!

— Pois quê! pensavam elles, os lisboetas cuidam que são muito por gostarem de touros? Não são nada. Vamos-lhes provar immediatamente que gostamos trezentas mil vezes mais de touros do que elles.

Construiram-se duas praças e as touradas principiaram. Exito enorme! Concorrencia immensa! Geral frenesi de enthusiasmo! A sociedade tomou um certo ar toureiro. As senhoras mostravam-se interessadas na qualidade dos curros, queriam vêr o gado, punham gravatas vermelhas e offereciam-se para dar moñas. Muitos cavallos appareciam arreados ao modo do Ribatejo, com o xairel de pelle e estribos de pau. Os mancebos á moda vestiam-se de jaleca e cinta, com calças de bôca de sino, aos sabbados de tarde. As duas praças eram insuílicientes para a multidão dos aficionados. Os lidadores eram cobertos de charutos, de rebuçados, de palmas e de gritos de triumpho. Finalmente, um delirio !

Ao cabo de dois annos ninguém mais voltou aos touros. Os elegantes deram as jalecas e as calças de bôca de sino aos seus criados de cavallariça; as senhoras nunca mais tornaram a fallar em gado; as guitarras que haviam sido importadas desappareceram da circulação; o fado, que alguns dedos femininos dedilhavam nos teclados de Herard, deixou de acordar os eccos surprehendidos e vexados dos salões portuenses; as duas praças, não tendo outra coisa que fazer, começaram a apodrecer e esperam anciosas o primeiro pretexto decente para se deixarem cahir.

Mas Lisboa tinha recebido uma lição terrível ! O Porto tinha-lhe mostrado que, se quizesse gostar de touros, ninguém gostaria mais, ninguém seria mais maníaco, mais doido, mais frenetico por touros, do que elle ! É para que se saiba !

O portuense é o homem mais dedicado, mais serviçal, mais bom homem. Somente ha três coisas de que elle não gosta — e n’esse ponto é mau brincar com elle. Não gosta de Lisboa. Não gosta da policia. Não gosta da auctoridade. Da auctoridade vinga-se, despresando-a. Da policia vinga-se, resistindo-lhe. De Lisboa vinga-se, recebendo os lisboetas com a mais amavel hospitalidade e com a mais obsequiosa bisarria.

O serviço dos caminhos de ferro americanos, explorados com talento, convertera dentro em pouco tempo a Foz n’um bairro do Porto. A empreza do carril da Boa-Vista annuncia bilhetes annuaes a preços reduzidissimos. Como esses bilhetes são pessoaes e intransmissiveis, em cada bilhete será impressa a photographia do seu dono. Para este fim, a empreza fará de graça o retrato photographico de cada um dos seus clientes.

As casas na Foz alugam-se ao mez ou pela temporada. As rendas em qualquer das casas orçam pelas de Lisboa. Os mezes mais baratos são os de junho e agosto. A grande affluencia realisa-se em setembro e outubro.

As principaes hospedarias são a de Mary Castro — cosinha ingleza; a da Boa-Vista — cosinha portugueza; a do Louvre — cosinha mixta, portugueza e franceza. Os preços são de 1$200 por dia.

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