A Póvoa de Varzim

No seu livro antes citado, Ramalho Ortigão dedica um capítulo — o quinto — à descrição da Póvoa de Varzim e dos poveiros, prestando assim uma mais do que justa homenagem àquela que é a praia nortenha por excelência. Por lá passei os meus verões da meninice, no sector 45, salvo erro. Um mês inteiro, por causa das gripes e pneumonias de inverno, sob o cuidado solícito da minha mãe, das amigas da minha mãe, que eram uma legião de matronas, e de um sem número de banheiros e vizinhos de que não lembro mais o nome. Mas lembro a rua da Junqueira, lugar de encantamento permanente, e o cinema Garrett, onde por cinco tostões eu podia sentar-me num banco de pau corrido, ver as obras completas do Cantinflas e assistir, com uma lágrima de comoção, às paixões nunca consumadas do Joselito e da Marisol.

Mas é de Ramalho Ortigão que se trata aqui. A descrição do pescador da Póvoa é antológica e nenhum português deve ir para a cova sem a ter lido. Antes de irdes para a cova, lêde-a, pois.

Como sempre, a ortographia é a original. Que elegância perdida…

——————–

POVOA DE VARZIM

É o caravansará dos habitantes do Minho em uso de banho ou de ar do mar. Nenhuma outra praia offerece tão variada concorrencia. Em agosto e setembro a Povoa converte-se em uma enorme estalagem com quartos a todo o preço, em que se albergam os romeiros de todas as gerarchias, desde o mendigo legendario, o mendigo dos melodramas e das feiras minhotas, de muletas, de alforge ao pescoço e de grandes barbas esqualidas, até o poderoso commendador brasileiro, de camisa de bretanha anilada como um retalho de ceu pregado no peito com um brilhante.

A rua da Junqueira — principal arteria da povoação que liga a praça em que se acha a casa da camara, a administração e o mercado, com a praia — está desde pela manhã cedo até alta noite coalhada de moscas e de gente.

As moscas cobrem os muros, as humbreiras das portas, as vitrines e os mostradores das lojas, n’uma immobilidade, n’um goso, n’um extasi que impressiona particularmente os forasteiros. As superficies que as moscas deixam devolutas são occupadas pela gente. Quando um viajante chega, com a sua mala, ergue-se no ar uma nuvem negra que scintilla e que zumbe: são as moscas que se deslocam e procuram apertar-se um pouco mais para dar logar ao adventicio. Outras vezes é a gente que encurta o passo, que se condensa, que se enovella: n’estes casos é uma nova mosca que chega e sollicita o seu logar na rua. Dá-se-lhe o espaço preciso para ella se estabelecer e a circulação dos viandantes regularisa-se e prosegue.

Vê-se o pequeno lavrador que desceu dos montes para banhar as suas enfermidades. Traz um lenço na cabeça, por baixo do chapéu, atado ao queixo, amplas chinellas de couro crú, longo capote de cabeções. Mulheres de pés nús, com as saias de baeta pelos hombros, as mãos crusadas no estomago, o cabello curto cahido n’uma sanefa sobre as sobrancelhas. Os morgados ruraes, de botas de montar e esporas, jaqueta de astrakan, alta chibata de marmeleiro. As senhoras provincianas com as suas boas cores sadias, os seus bons dentes brancos, as suas fortes bocas vermelhas, luvas de fio de Escócia apertadas com cordões de seda azul e cuias de retroz em rolo inteiriço, enroscado como o chouriço de sangue, ou dividido em secções como um cacho de murcellas de Arouca preso á nuca com dois pregos de cabeça de tartaruga. Todos os juizes, todos os delegados, todos os presidentes de camaras das comarcas e das municipalidades circumvisinhas. O sport de Braga, com os seus bigodes espessos e brilhantes, os seus chapeus á moda e as suas esporas de prata tilintando na lage das calçadas. O high-life de Guimarães, de Fafe, dos Arcos, de Santo Thyrso, de Villa Nova de Famalicão, de Barcellos, ostentando novas toilettes esmeradas, imitadas dos ultimos figurinos com as devidas modificações exigidas por um bem entendido espirito de conciliação entre a novidade de Pariz e as tradições e as conveniências locaes dos respectivos meridianos. Os jogadores de toda a provincia e de outros pontos do reino com as palpebras inflammadas pela acção do gaz e do petroleo, com a sua pallidez oleosa como se fosse tratada pelas exhalações da terebentina ou como se se lhes tivesse congelado na face o gorduroso vapor das batotas.

Entre esta multidão que permanece na Povoa durante um, dois ou tres mezes, figuram ainda os touristes que fazem a viagem circulatoria do Minho e se demoram poucos dias, os visitantes do Porto que chegam nos domingos com os seus bilhetes de ida e volta.

A rua da Junqueira com a sua gente e as suas moscas apresenta o aspecto de um arruamento de feira.

Em todas as casas ao rez da rua se organisam estabelecimentos de commercio, uns fixos, outros fluctuantes.

As lojas de barbeiro, sempre em exercicio, no meio das quaes um homem envolto n’uma toalha, dorme n’uma cadeira de braços ou considera as moscas que coalham o tecto, em quanto o Figaro, de mangas arregaçadas, lhe segura delicadamente a ponta do nariz e lhe raspa a face envolta n’um floco de espuma.

Os ourives postados por traz das suas vitrines mostrando ás mulheres do campo os grandes corações de filagrana de ouro, os relicarios, as grossas arrecadas.

Os camiseiros com a sua exposição de camisas de cor, de gravatas de todas as gradações do íris, de bengalas, de chapeus de chuva, de joias de cobre dourado, de collarinhos postiços, de luvas, de aguas de cheiro e de unguentos aromaticos, — todos os artigos do luxo barato.

Os espectaculos das grandes guerras e dos longinquos paizes, das mulheres gordas e das mulheres gigantes, tendo á porta o seu reposteiro de chita encarnada ao lado do respectivo cartaz e dentro o realejo festival moendo um trecho da Favorita.

Os botequins, os estancos, as tabernas com o seu grande ramo de loureiro á porta.

Os mercadores ambulantes, vendendo ás esquinas os pequenos espelhos, as estampas, as lithographias das testas coroadas e os reportorios montados n’um barbante. Os que trazem suspenso do pescoço por uma correia o taboleiro com os canivetes, os garfos, as colheres, os pentes, as caixas dos pós de dentes e os sabonetes Windsor. Os que tiram as nodoas e vendem as pastilhas maravilhosas que comem a gordura da gola das jalecas. Os que exhibem encostada ao muro a collecção de varapaus argolados, de desempenados marmeleiros, de cannas da India com os seus ferrões polidos embrulhados em papel.

N’esta multidão espessa e ruidosa sobresahem de espaço a espaço as pesadas diligencias, os chars-à-bancs de cortinas de riscado ou de couro, cobertos de poeira, puxados por tres cavallos escancellados, com o tejadilho acuculado de malas, de saccos de chita, de alforges, de bahus, de caixas de lata, carreando os passageiros de Barcellos, de Fão, de Celorico e do Pico.

A’ porta das estalagens homens com as suas bagagens sobraçadas descendem gymnasticamente da imperial, emquanto mulheres gordas e pesadas, amparadas com as duas mãos aos batentes da portinhola, adeantam para o estribo um pé arrastado, descobrindo o grosso artelho entorpecido pela sciatica.

Dois grandes e bellos cafés, com óptimos bilhares, grandes espelhos, muita luz, abrem as suas portas sobre a rua da Junqueira.

A’ noite esses cafés enchem-se inteiramente. Homens, senhoras, banhistas de todas as classes, viajantes de todas as procedencias, occupam todos os bancos, agglomeram-se em volta de todas as mezas. No meio os jogadores de bilhar procuram com difficuldade um pequeno espaço para poderem recuar os tacos. Os creados circulam dificilmente com as bandejas. Harpas e rebecas organisam um concerto. Uma mulher hespanhola ou italiana, com um prato de estanho, sollicita com um sorriso os donativos da assembleia. Um baritono de longos cabellos, penteados para traz das orelhas, infatigavel berrador, com a mão na abertura do collete, a fronte alta, o olhar intrepido, entôa uma romansa. Uma espessa athmosphera de fumo dos charutos, empregnada dos vapores do álcool, da cerveja e do café, envolve aquelle grande ruido. Ás portas mulheres do povo, homens de cajados e jalecas ao hombro, olham apinhados e em bicos de pés.

Por cima de um d’estes cafés é a casa de jantar do hotel Luso-Brasileiro, um vasto salão que em algumas noites se converte em sala de baile. Não ha club. Os bailes organisam-se por subscripção entre os banhistas e a casa é alugada para esse fim aos proprietarios do hotel.

Em todos os cafés ha um compartimento supplementar em que se joga o monte ou a roleta; em um d’elles passa-se da sala do bufete ao jardim, onde se acha a roleta installada n’um bonito pavilhão.

Na Povoa, assim como em Espinho, na Foz, na Figueira, em todas as grandes praias, a concorrência em volta do panno verde é das mais curiosamente variadas. Homens de todas as condições sociaes, proprietarios, funccionarios publicos, capitalistas, professores, litteratos, militares com os seus uniformes, sacerdotes com as suas coroas. Como o jogo é prohibido, como a casa da tavolagem se considera secreta, como ha uma entrada mysteriosa, cada um se julga ao abrigo da notoriedade e todo o mundo joga. Os caixeiros imaginam que não serão ahi vistos pelos seus patrões, os filhos que não encontrarão lá os seus paes, os devedores remissos que estarão livres dos fornecedores implacaveis, os amanuenses que não darão com os chefes de secretaria, os jovens tenentes que estarão a coberto do olhar reprehensivo e severo dos commandantes dos corpos. Depois, lá dentro, se os inesperados encontros se effectuam, como geralmente succede, a cumplicidade n’um delicto commum estabelece uma indulgencia reciproca. Isto é uma calamidade que só ha um meio de evitar: decretar a liberdade do jogo sob certas condições essenciaes entre as quaes não devem esquecer as seguintes:

1.ª Que o jogo seja inteiramente publico, com porta aberta para toda a gente sem excepção alguma. Desde que um filho-familia com os seus sapatos envernizados, as suas meias de seda e as suas luvas côr de perola, resolve frequentar a batota, é preciso que entenda bem que se rebaixa até o ponto de ir achar-se sentado entre um moço da cavallariça e um empregado na limpesa dos canos, os quaes irão com as suas camisas gordurosas e fetidas e com os seus pés nús dar á mocidade inexperiente e elegante a dura lição das vicissitudes sociaes.

2.ª Que a casa de jogo seja assignalada á critica do publico, ao exame dos philosophos e á vigilancia da policia por meio de uma taboleta e de uma lanterna especial que estará accesa toda a noite.

3.ª Que a policia tenha direito, quando o julgue conveniente, de exigir o nome de cada um dos jogadores, a fim de que possa capturar os vadios, que por ventura se tenham escapado á acção da lei.

4.ª Que os proprietarios das casas de jogo sejam devidamente inscriptos nos registros dos escrivães de fazenda, que se torne extensiva á sua industria a lei tributaria que pesa sobre os lucros proporcionaes de todos os cidadãos.

5.ª Que os banqueiros, proprietarios das casas de jogo sejam obrigados a uma escripturação regular e authentica dos seus lucros e perdas, da qual a policia extraia os dados precisos para a estatistica geral do vicio, averiguada pelo exame d’estas novas casas toleradas.

A repressão do jogo, além de offensiva da liberdade, é difficil de se tornar effectiva. Dá em resultado encarcerar de quando em quando alguns pobres diabos que jogam os seus patacos em um quarto de taberna, emquanto deixa impunes os jogadores mais poderosos que encontram sempre meio de evadir-se ás pesquisas policiaes.

Emquanto o jogo fôr uma illegalidade secreta, elle manterá os attractivos das coisas defesas. E’ preciso dar-lhe na sociedade o seu verdadeiro logar e mostral-o claramente, não como um fructo prohibido, mas como um fructo pôdre.

Emquanto a imprensa considerar sob outro ponto de vista a questão do jogo este continuará como até agora fazendo estragos irremediaveis na honra e na fortuna das familias e constituirá nas praias de Portugal durante a estação dos banhos o mais lamentavel flagelo.

Gomo o numero das pessoas do Minho predomina na concorrência a esta praia, a Povoa mantem inalteravelmente a feição provinciana. Todos os banhistas jantam ás tres horas e fazem os seus passeios á tarde. Ao toque das Ave-Marias toda a gente que passeia na praia e no Paredão, que é o ponto da reunião geral, tira os seus chapéus, pára, persigna-se e faz oração.

A mais interessante e a mais importante curiosidade da Povoa é o pescador poveiro.

O poveiro constitue uma raça perfeitamente especial na população do nosso littoral. Inteiramente differente dos typos gregos, finos, magros, elegantes, de perfis aquilinos, dos varinos, dos celebres pescadores de Ovar e de Olhão, o poveiro tem o typo saxonio. É ruivo, de olhos claros, largos hombros, peito athletico, pernas e braços herculeos. As feições são arredondadas e duras. As bocas dos velhos quando perdem os dentes alargam-se extremamente na direcção das orelhas e dão-lhes ao perfil uma certa similhança com os jacarés. Teem uma força prodigiosa. Ha tempos um poveiro ainda moço foi capturado em consequencia de um pequeno disturbio n’uma taberna. Mettido pela primeira vez da sua vida na cadeia, onde devia passar vinte e quatro horas, sentiu uma saudade irresistivel da liberdade e fez o seguinte: agarrou a grade com os seus fortes pulsos, arredou um dos varões de ferro para um lado, arredou o outro para o lado opposto, e pelo espaço aberto foi-se embora para casa.

Eu mesmo conheço um já velho, que o vicio da embriaguez fez expulsar successivamente de todas as companhas. Um amigo meu, José Falcão, deu-lhe um bote e umas redes. Elle só, constitue a tripulação d’este barco; elle só, lança e recolhe as redes; elle só, dirige a embarcação no mar alto; elle só, à força de remos, a arranca da praia e lança ao mar nos dias em que a maré rebenta com mais impeto na costa. Quando vae embriagado para o mar, o que muitas vezes lhe succede, chora de enthusiasmo no meio da borrasca e faz discursos patheticos ao oceano. Os seus confrades teem-o visto só no meio dos vagalhões, em pé na sua pequena barca, bater no peito nú e hirsuto com o punho cerrado e exclamar trovejantemente: — Eh! Mar!… aqui agora é nós dois, tu e eu!! Tu com as tuas ondas, eu com os meus protectores: Deus e o sôr José Falcão!

Quando o mar se levanta repentinamente, todos os barcos ancorados na praia são varados na areia á força de braços por homens e mulheres. As embarcações, grandes lanchas algumas d’ellas, são encalhadas a remos. Uma vez na areia homens e mulheres, mettidos na agua até á cinta, encostam o hombro ao barco e fazem-o subir na praia até dez ou quinze metros acima da lingua da maré. É nestes duros exercícios que se póde apreciar a extraordinaria força muscular d’esta raça privilegiada. Velhos de sessenta a oitenta annos, de cabellos brancos e duros cahidos na testa, a camisa desabotoada, o peito mordido pelo sol e pelo vento do mar, a pelle vermelha, doirada, com reflexos metalicos como uma folha de vinha no outono, acocoram-se debaixo da popa de uma lancha, fincam os pés na areia e impellem com as costas, desenvolvendo a maior força de que póde dispôr a columna vertebral, um peso de esmagar um homem vulgar. N’essas attitudes, com as claviculas descobertas, os braços e as pernas nuas, de uma riqueza, de uma amplidão, de uma perfeição muscular que eguala as mais vigorosas anatomias de Miguel Angelo, os poveiros são verdadeiramente bellos, de uma belleza titanica.

O traje de que usam contribue para fazer realçar o aspecto da sua forte corpulencia. De uma especie de grossa flanella branca, fabricada na Covilhã e chamada branqueta, trazem umas amplas pantalonas largas até o bico do pé, camisa egual, cinta de lã preta, barrete encarnado, de grande manga, cahido quasi até á cinta, e, lançado ao hombro, um jaquetão de grosso panno azul, que se não veste senão quando chove. Nada mais simples, mais confortável e mais commodo para um homem do mar.

Para os trabalhos da pesca arregaçam as mangas até o hombro, arregaçam as calças até o alto da perna, e ficam quasi nús como os atlethas.

Muitos são condecorados pelos assombrosos actos de dedicação e de bravura, praticados no mar em serviço dos seus similhantes. Nenhum d’elles traz a medalha na camisola ou na jaqueta. A condecoração, que elles estimam como uma lembrança querida e solemne, trazem-a pendente do pescoço, escondida, junto da pelle, sobre o coração.

No mez de maio do anno findo, 1875, naufragou uma lancha á vista de terra. Morreram seis homens. N’essa occasião, um dos tripulantes de um dos botes que acudiram de terra ao logar do sinistro, mergulhou no alto mar e arrancou do fundo do oceano um dos seus companheiros exânimes. Prestaram-se-lhe promptos soccorros e esse naufrago sobreviveu aos effeitos da congestão que o atacara. O valente companheiro que o salvou e por esse facto foi condecorado com a medalha de prata chama-se Domingos Gomes, o Ainda.

Os factos d’esta natureza repetem-se por varias vezes em cada inverno.

Os trabalhos do mar são aqui perigosissimos. Na costa, inteiramente descoberta e nua, ha apenas um pequeno abrigo feito por um quebra-mar não concluido. Dobrar a ponta do quebra-mar e recolher no abrigo é de um perigo iminente apenas o mar se encrespa. Logo que uma lancha está em perigo, as mulheres dos tripulantes vêem á praia e pedem em gritos dilacerantes aos santos seus conhecidos que salvem a embarcação. Se o perigo continua, se os santos se não apressam a salvar os maridos, os paes e os irmãos d’aquellas boas mulheres, ellas accordam os santos que estão em uma capella próxima, partindo-lhes as vidraças e enchendo de pedradas o templo. Emquanto a lancha em crise se não vira, os pescadores que estão na praia desembarcando as suas redes ou varando os seus barcos são absolutamente indifferentes ao alarido lacrimoso das mulheres e ao espectaculo do naufragio eminente. Aquillo mesmo foi o que lhes succedeu a elles na vespera e é o que os espera no outro dia. Virada a lancha, correm então ao salva-vidas e todos se prestam a partir immediatamente em auxilio dos seus companheiros.

De uma actividade infatigavel no mar, os poveiros em terra trabalham pouquissimo; alguns não trabalham pela palavra nada. Ancorado o barco recolhem o remo e ficam nos bancos dormindo com os braços crusados no peito. São n’este caso as mulheres que descarregam o peixe, que contractam a venda, que recebem o dinheiro dos negociantes e que distribuem as quotas pelos tripulantes. Estes acordam para receber o dinheiro, mettem-o na algibeira, sobraçam um pichel ou um pequeno pipo que todo o pescador leva com vinho para o mar, lançam ao hombro o jaquetão, saltam á praia, e, com a indiferença mais profunda por tudo quanto os cerca, caminham solemnemente para a taberna.

De uma ignorância pyramidal, é rarissimo aquelle que sabe syllabar. Nenhum sabe escrever. Na administração do concelho perguntaram a um que ali tinha ido saber se o filho estava recenseado como se chamava o filho; elle pediu que o esperassem um momento e foi n’uma corrida a casa perguntar como o filho se chamava. Pela sua parte, nunca lhe tinha chamado senão unicamente filho.

São naturalmente bons, dedicados, reconhecidos, doceis como mulheres. Com uma palavra e com um sorriso, uma creança leva-os por uma orelha para onde quizer, para a taberna ou para a morte.

Não usam faca. Nas suas questões pessoaes batem-se ao pugilato. Nas questões de companha para companha batem-se no alto mar á pedrada. Nos motins em terra lançam mão da primeira arma que o acaso lhes ministra e tudo é arma nas mãos d’elles. Um dia, em 1846, constou-lhes que a camara municipal, reunida em vereação, estava tractando de lhes lançar um novo tributo. Vieram alguns á praça em que estavam os paços do concelho, arrancaram os estadulhos dos carros que estão no mercado, subiram á casa da municipalidade, e tudo quanto lá estava dentro, vereadores, auctoridades administrativas, policia, fisco, saltaram pelas janellas á rua. No dia immediato chegava á Povoa um regimento para suffocar a anarchia. Os pescadores que teem ás armas de fogo um terror de selvagens, apenas lhes constou esta noticia, desamarraram de noite os seus barcos, fugiram para o mar e durante muitos dias nem um único appareceu. Se o regimento não retirasse seria de receiar que nunca mais voltassem a terra.

É incomparavel e unica a aversão do poveiro ao serviço militar. O modo como elles conseguem evadir-se ao pagamento do tributo de sangue merece referir-se. Para isso porém são necessarias algumas palavras acerca do bairro especial dos pescadores na Povoa.

Nada teem com o resto da villa os pescadores. Vivem em uma parte da povoação inteiramente distincta e que fica na praia ao sul do paredão a que acima me referi. Tres ruas parallelas, cujas pequenas casas ficam umas defronte das outras á beira do mar, constituem a porção da villa que os pescadores habitam. Um signal dado n’um apito ou n’uma busina previne todos os moradores d’este pequeno bairro. As casas são interiormente de um grande pittoresco. Nos dias de sol, com todas as casas abertas, de qualquer das ruas se avista a espaços o mar descoberto atravez das portadas. O mesmo quarto serve de sala, de alcova, de cosinha. A um lado está o lar, ao outro a cama, um leito ou um beliche suspenso como a bordo; a prateleira da louça pende de uma parede; do tecto suspendem-se os molhos das cordas côr de sepia; as trouxas de roupa, as redes, os cestos, os apparelhos de pesca. Lembraria os interiores flamengos se a ausencia completa da agua, os cações escalados que estão secando ao sol estirados nas portas com tres pregos, as paredes negras e gordurosas não provassem evidentemente ao viajante que elle está bem longe das cabanas hollandezas escrupulosamente baldeadas, esfregadas e lustradas todos os dias, como o convez da mais nitida corveta da marinha ingleza.

Effectuados na Povoa os trabalhos do recenseamento militar e do recrutamento subsequente sem que um só poveiro se tenha apresentado perante as convocações da auctoridade, um, dois, tres ou quatro beleguins acompanhados do respectivo escrivão apresentam-se no bairro dos pescadores a requisitar os refractarios. Apenas os representantes dos poderes publicos penetram no bairro da pesca, um signal dado pela primeira pessoa que os avista, um velho, uma creança, uma mulher, põe de sobreaviso toda a visinhança. Se os pescadores estão a essa hora no mar não apparecem senão mulheres, as quaes declaram todas, contestes, que nunca ouviram fallar nos nomes dos refractarios a que a auctoridade se refere. Se os pescadores estão em terra, apparecem todos ás suas portas. Todos teem os mesmos typos physionomicos, todos teem o mesmo vestuario, o grande gorro encarnado ou preto, a larga calça e a camisa de branqueta ou a camisola justa com um coração e uma cruz bordada no peito, e umas armas de Portugal com a respectiva coroa bordadas no braço direito. Principia então o inquerito do refractario.

— Onde mora aqui João das Pragas, filho de José, o Russo?

O primeiro dos pescadores a quem se dirige esta pergunta retira o seu cachimbo de gesso do canto da bocca e diz:

— João?

— Sim, snr.

— João das Pragas?

— Sim, snr.

— O filho do Russo?

— Sim, snr.

— Conheci muito bem. Esse rapaz morreu.

— Morreu? Mas do livro dos obitos da freguezia não consta que elle tenha fallecido.

— Pois póde mandar plantar no livro que morreu. A gente não estamos lá no livro, porque a gente quando morremos não morremos cá na freguezia. A gente morremos no mar.

Passa-se a interrogar o segundo poveiro, que dá exactamente a resposta que deu o primeiro; o terceiro responde como o primeiro e o segundo; e assim por deante, successivamente, a mesma resposta invariavel, até não haver mais poveiros que inquirir.

Outro refractário: Manoel Forte, filho de Joaquim da Rita.

— Está intimado para declarar terminantemente sob pena de cadeia onde pára este mancebo.

— O Manoel? O Manoel Forte? o filho do Joaquim da Rita? Conheci-o muito bem! Até parece que ainda o estou a ver! Esse rapaz está ali defronte…

— Onde?

— No fundo do mar.

É a evasiva consagrada, a resposta sabida e constante: todo o mancebo recenseado morreu.

Deante das requisições da auctoridade não ha entre os pescadores inimigos nem indifferentes, protegem-se todos dedicadamente perante o inimigo commum. É uma alliança indissoluvel e invencivel. Todos os esforços são inuteis para a combater. Violados no seu bairro, os pescadores fogem para a praia. Ahi a perseguição é perigosissima para quem a intenta. Se um official de justiça ousasse apparecer na praia seria infalivelmente morto debaixo da mais densa chuva de pedras, de fisgas, de harpões. Em ultimo recurso embarcam. Assim a Povoa não dá um unico homem para o recrutamento maritimo, o que prova que quando tres mil e quinhentos homens reunidos não querem uma coisa é impossivel obrigal-os áquillo que elles não querem.

Tres mil e quinhentos é o numero dos pescadores na Povoa. O producto annual da pesca é, segundo as estatisticas da alfandega, de 145 contos. Segundo o computo mais provavel dos negociantes, que proposeram fiscalisar por sua conta e dar ao Estado o tributo proporcional, eleva-se aquella somma a 269:666$600 reis.

O imposto do pescado pago pelos pescadores da Povoa é de 5:661$828 reis.

Em troca d’esta elevada quantia quaes são os serviços prestados pelo Estado a estes pescadores? Nenhuns. O quebra-mar está por concluir ha muitos annos, apesar da promessa feita aos pescadores pela propria pessoa de el-rei, em 1872, de que o governo iria occupar-se immediatamente da conclusão d’aquella urgentissima obra. A camara da Povoa e os seus habitantes estão inhibidos de occorrer áquelle trabalho tão importante pela razão que pertencem exclusivamente ás attribuições do ministerio da marinha as obras comprehendidas desde o ponto a que chega a lingua da maré em agosto até o mar.

Não ha um guindaste a vapor, que poderia prestar relevantes servidos á fazenda dos pobres pescadores recolhendo rapidamente nas occasiões de borrasca os seiscentos barcos ancorados na praia nos dias de inverno.

Ha um farol cujo custeio é pago da bolsa particular dos pescadores. A somma de perto de seis contos de reis que elles pagam annualmente ao Estado não chega a este para lhes accender sequer uma luz que os livre de serem devorados pela vaga suspendendo assim o pagamento do tributo que pesa sobre as suas vidas. Uma vez que elles deixam de pagar depois de mortos, estaria talvez, não diremos n’um dever de humanidade, de justiça, mas no proprio interesse do Estado contribuir um pouco para salvar a vida dos que tão desinteressadamente o subvencionam.

O unico serviço que ha memoria de ter sido prestado aos poveiros pelo governo portuguez é o presente que ha annos lhes foi feito de um barco de salva-vidas cujo patrão percebe pelo orçamento geral do Estado a quantia de 360 reis diários. Estes 360 reis diarios são todo o troco, que o Estado julga conscienciosamente dever dar aos poveiros, dos cinco contos seiscentos e sessenta e um mil oitocentos e vinte e oito reis, que o fisco lhes subtrae do modo mais escandalosamente iniquo perante os principios mais rudimentares do direito.

Sempre que um cidadão paga ao Estado em imposto mais do que o Estado lhe ministra em serviços á classe, á industria, ao meio em que elle vive, o cidadão é roubado em quantia egual á differença que existe entre a importância do imposto e o valor equivalente do serviço.

Ora os mesmos únicos 360 reis votados pelo Estado ao patrão do salva-vidas não são a paga de um serviço real prestado aos pescadores, por isso que o patrão é um cargo exclusivamente nominal e honorifico. O patrão não embarca nunca. O salva-vidas nas occasiões de temporal e de perigo é tripulado pelos proprios pescadores. Para occorrer ás despesas dos soccorros aos naufragos, os poveiros impuseram-se um segundo tributo que pagam à Senhora d’Assumpção. Esta segunda collecta, de uma rede de peixe annual por cada lancha produz uma receita de 600 a 700 mil reis que a confraria dispende no farol, nos estipêndios aos que tripulam o salva-vidas e em ajudas de custo para irem ao Porto submetter-se aos cuidados de um algebrista aquelles que quebram alguns ossos no trabalho da pesca. O saldo que no fim do anno sobeja da applicação da receita a estes encargos, mais á fabrica da capella e a seis missas resadas por alma dos que morrem no mar, calcula naturalmente o leitor que reverte aos pescadores que se associaram na confraria para esse fim? Não. Quando na confraria ha um saldo no fim do anno economico, esse saldo embolsa-o o Estado para o applicar juntamente com o imposto do pescado aos encargos orçamentaes do exercito, da instrucção, das estradas, da religião do Estado, coisas de que o pescador poveiro tiraria apenas o delicado proveito, puramente platonico, da satisfação do seu orgulho nacional, se lhe fosse dado fazer alguma ideia da existência de qualquer d’ essas coisas : nacionalidade, instrucção, viação publica, religião do Estado, etc.

Da nacionalidade elles sabem que um soberano portuguez, viajando a bordo de um paquete e encontrando-os no mar alto, impressionado pela extranheza dos seus trages e dos seus typos physionomicos, lhes perguntou se eram portuguezes. Ao que elles responderam que não; e accrescentaram: — «A gente semos poveiros, meu senhor.»

De instrucção sabem o que aprenderam com os seus pães: tecer uma rede, colher uma vela, manejar um remo, prever o tempo e calcular a hora pelo aspecto do ceu.

Da viação sabem que ha o caminho de ferro da Povoa — feito por uma empreza particular.

Da religião sabem que ha o parocho a quem elles pagam os baptisados, os casamentos e os enterros e que ha também a Senhora da Assumpção que lhes dá missas regulares que elles pagam e um ou outro milagre extraordinario, que elles tambem pagam.

Tal é o poveiro. Tal é o caracter das suas relações com a sociedade portugueza. Entre o Estado e elle, a seguinte distribuição de serviços: o Estado recebe; elle paga. Paga e pesca.

Poderoso e desdenhado, o poveiro captiva a nossa mais viva sympathia, e alcançará decerto a do leitor, que nos perdoará as longas linhas que dispendemos em apresentar-lh’o de perto.

A Povoa de Varzim, vestigio evidente da existencia de uma colonia saxonia n’esta parte do territorio portuguez, tem um nome commum a varias posições da Allemanha. Chama-se egualmente Varzim á propriedade celebre, residencia habitual do snr. de Bismark.

Da Povoa podem-se emprehender com commodidade e com economia os melhores passeios e as mais interessantes digressões no alto Minho. A cerca de duas leguas ao Norte, á beira da estrada de Barcellos, fica perto de S. Pedro de Rates, o Monte de S. Felix de Lanudos, cuja ascenção está nas forças do homem menos robusto e até de qualquer senhora habituada a andar a pé.

A vista, do alto da montanha, estreitada de moinhos de vento, coroada por um marco geodesico, é admirável. No fim da tarde, nos bellos dias do outomno, o aspecto da paizagem compensa bem o leve incommodo da ascenção, que somente se póde fazer a pé. Para todos os lados bastas florestas de pinheiros, por entre os quaes ondeia o rio Cavado; largo horisonte de dez leguas, descobrindo para um lado a Povoa, Villa do Conde, Moreira; para outro lado a Apulia, Fão, Esposende, Vianna do Castello.

Na falda do monte, á beira da estrada, ha uma pequena taberna, que recommendamos aos viajantes. O fino ar da montanha, o exercicio da ascenção e mais ainda o da descenção, abrem naturalmente o appetite e tornam convidativo e ridente o aspecto rustico e negro da pequena taberna. Que o viajante a evite! Essa crypta é a mansão do jejum. Tudo lhe falta. É inteiramente encyclopedica a sua nudez. Não tem um ôvo, não tem uma talhada de chouriço, não tem uma simples fatia de pão, não tem um biscoito! Estive n’esta catacumba, ao descer de Lausados, restaurando as minhas forças com a única coisa que o antro me podia fornecer — o contacto de um banco. Tive a curiosidade de perguntar á dona da taberna o que fazia ella mesma tenção de jantar. Ella sorriu tristemente. Insisti. Um homem que estava á porta, encostado, e ao qual eu tinha dado lume para accender um cigarro, explicou-me então que por aquelles sitios não era uso entre os povos o jantar; cada um comia um bocado de pão, quando o tinha, ou um cacho de uvas, quando o encontrava.

Na Povoa ha vários hotéis, dos quaes damos os nomes dos maiores pela ordem da sua importância: Central, de Italia, Portuense, do Signal. Os preços são de 1$000 a 1$500 reis. As rendas da casa variam, segundo as commodidades que proporcionam, desde a quantia de 200 a 2$000 reis.

horário

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.