Le Portugal

No seu livro de 2014, Threats of Pain and Ruin, o ensaísta inglês Theodore Dalrymple escreve a dado passo sobre Portugal, a propósito de um velho livro de viagens de 1956 e que ele encontrou em casa de uma amiga recentemente falecida. Este livro de viagens é o Le Portugal, de um escritor francês, Yves Bottineau, com fotografias de um tal Yan. Paris, edição Arthaud.

Porque essas páginas são, a meu ver, interessantes e sugestivas, aqui as deixo. Como habitualmente, a tradução é minha.

Boa leitura.

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Capítulo 13. Portuguese Men-Of-Art. (1)

[…] entre os seus livros encontrei um sobre Portugal, datado de 1956. Era de um autor de que eu não ouvira falar, Yves Bottineau. (…) Folhei preguiçosamente o livro sobre Portugal, mas com um interesse crescente. Ignorei a maioria do texto, foram as fotografias que capturaram a minha imaginação. Eram belas, mas eram também fotografias de beleza, natural mas igualmente feita pelo homem.

Acabei de dizer que tinha ignorado o texto quase por completo, mas vou, apesar disso, citar uma frase da primeira página:

Este país, que goza aos olhos do turista da reputação de ser um paraíso, é na realidade uma terra muito humana, isto é, matizada…

Talvez; mas é muito difícil aceitar, vistas as fotografias, a visão matizada. Portugal parecia de facto um paraíso que alegrava o olhar, mas também entristecia o coração, pois esta beleza inconspurcada certamente já passou hoje deste mundo.

Yves Bottineau

É claro que o fotografo (um homem ou mulher chamado Yan) apontou a câmara de maneira a excluir tudo o que era feio ou discordante. Há cinquenta anos, provavelmente, as pessoas ainda não sofreriam do sentimento doentio de que o feio é de alguma forma mais real, mais autêntico, do que o belo, e portanto mais digno de captura em película ou em livro. Hoje acreditamos que procurar apenas o belo com exclusão do feio é num certo sentido uma derrogação deliberada do dever, quando a fealdade existe ao lado do belo, como quase sempre sucede nesta vida (e certamente também no Portugal de 1956). E se tivéssemos de escolher entre a suspensão voluntária da percepção do feio ou do belo, a primeira seria moralmente pior, por ser uma negação implícita do sofrimento que sempre caminha a par da fealdade.

Na economia do desenvolvimento existe há muito uma teoria, de facto e por larga margem a mais popular a julgar pelos livros existentes na maioria das grandes livrarias, de que a riqueza de alguns países foi adquirida à custa da pobreza de outros; e de que não é a riqueza que precisa de ser explicada, mas a pobreza. O mesmo se passaria na estética: a beleza é adquirida só à custa da fealdade, sendo a fealdade a consequência natural da injustiça social. Colocarmo-nos do lado da beleza é portanto uma traição à humanidade sofredora, cuja miséria foi e é explorada como pré-condição da criação de beleza. Seria interessante saber quantas das pessoas educadas do nosso tempo reagiriam ao Le Portugal de Yves Botinneau, com fotografias de Yan, dizendo: ‘nem tudo poderia ter sido assim’.

Sem dúvida que não; e contudo penso que nenhuma pessoa sensível poderia deixar de notar a importância da estética na vida portuguesa – uma importância que poderá muito bem ter sido inconsciente, mas nem por isso menos real – na época em que as fotos foram tiradas. Porque não são apenas de pormenores isolados da vida ou de vilas ou de cidades ou de paisagens: muitas delas, incluindo as de paisagens urbanas, são perspectivas extensas que se estendem por quilómetros a perder de vista, e não há nelas nada que ofenda a vista, nenhuma excrescência que estrague o panorama. Há muito tempo que não vou a Portugal, mas duvido sinceramente que fosse hoje possível tirar essas fotografias, não em tão grande número, pelo menos. Com certeza que haverá auto-estradas, ou torres de apartamentos ou outra coisa qualquer a estragar a vista, algo que faz ao olhar o mesmo que uma pedra no sapato faz ao conforto do andar.

Tive uma vez uma conversa com um jovem estudante de filosofia com quem me aconteceu passear numa graciosa praça de uma cidade inglesa de província e que tinha sido (para mim) completamente estragada por um edifício de vidro de estilo sub-Mies van der Rohe, felizmente de proporções atacanhadas, o qual fora construído, não apesar de destoar do classicismo do resto da praça, mas claramente por causa disso, quer dizer como um acto de subversão ou vandalismo deliberado.

O jovem filósofo perguntou-me se eu não podia ainda desfrutar da parte da praça que ainda existia; ao fim e ao cabo, os restantes edifícios eram o que sempre tinham sido. Pensei numa analogia.

‘Suponha’, disse eu, ‘que está num restaurante e que a comida é deliciosa. Suponha também que alguém, na mesa ao lado, vomita de repente copiosamente. Seria razoável eu dizer-lhe: ‘porque é que não continua a desfrutar da sua refeição? Afinal, a comida no seu prato e a decoração do restaurante são ainda exactamente o que eram antes do homem na mesa ao lado vomitar?’ Uma experiência estética é mais do que a soma dos seus componentes individuais, e de facto o mau edifício da praça não me causaria tanto sofrimento se os outros edifícios fossem igualmente maus. Foi o contraste que o tornou doloroso.

Seja como for, as fotos de Portugal tiradas em 1956 ou um pouco antes não mostravam nada de feio, nem mesmo no mais pequeno detalhe da vida camponesa. Porque é claro nas imagens que existia ainda vida camponesa então em Portugal. Havia pescadores camponeses, por exemplo, cujos grandes barcos de madeira – e movidos a remo, não a motor – eram objectos de grande beleza e elegância. É improvável que alguém, durante a sua construção, pensasse especificamente ou conscientemente na elegância da forma ou na beleza da decoração, e porém os construtores realizavam-na, como se não pudessem fazer outra coisa. A estética estava entretecida na tapeçaria das suas vidas.

Era obviamente um tempo de transição, pois embora as mulheres, mesmo no porto de Lisboa, ainda usassem roupas de camponesa que eram diferentes conforme a região de origem, os homens já não o faziam. As mulheres ainda transportavam cestos de pão debaixo do braço, e enormes e graciosos vasos de barro cheios de água nas cabeças, que, por maior que fosse a inconveniência ou a dureza da coisa, fazia maravilhas pela sua postura, a qual era digna e vertical.

Mas foi a arquitectura que mais me impressionou. Mesmo as casas humildes nas aldeias vulgares eram elegantes de uma maneira que nenhuma habitação moderna, pelo menos as dos pobres, o são. Conseguiam ser, ao mesmo tempo, uniformes e distintas: olha-se para elas e diz-se imediatamente e por instinto para nós mesmos: ‘Portugal.’ Não poderia ser noutro lugar.

Os grandes edifícios, góticos, barrocos, e do classicismo oitocentista, são testemunho de um magnífico sentido estético que atravessa as idades; o gosto mudou, mas reteve a sua perfeição. Tudo se harmoniza, um castelo do século onze ao lado de uma igreja do século dezoito; nada ofende.

A outra coisa que me espantou foi o quão belo e imaculadamente cuidado tudo estava. Nada se encontrava fora do seu lugar, tudo estava limpo; mas esta ordem não dava a ideia de retenção anal, como na Suíça, mas antes a de uma genuína preocupação estética. É claro que Portugal era então uma ditadura, a de Salazar, um quase-fascista, mas que no entanto manteve o pais neutral durante a Segunda Grande Guerra. Estava o país tão belamente preservado porque Salazar impunha nele a sua vontade por intermédio da sua polícia secreta, ou tratava-se de uma manifestação espontânea do amor das pessoas pelo que tinham herdado?

Portugal era à época considerado um país muito pobre (é ainda o mais pobre da Europa Ocidental). Mas quando se olha para uma imagem de Lisboa vista do rio da cidade, o Tejo, não se fica com a impressão de pobreza, mas antes de uma riqueza tremenda que poderá ter sido acumulada ao longo dos tempos (talvez não devamos inquirir muito de perto como foi acumulada). Deve ter sido um privilégio raro, embora mal notado como um elemento distinto da experiência quotidiana, viver no meio de tanta beleza.

E contudo as pessoas viraram as costas a este mundo assim que puderam. O mundo camponês, onde as máquinas quase não existiam, onde os grandes barcos eram ainda arrastados para a praia por equipas de bois e empurrados até à agua pela força colectiva de inúmeros homens, em que barris eram feitos à mão e grandes quantidades de vinho movimentadas por transportes não-mecânicos, em que as mulheres tinham de ir ao poço buscar água, em que tinham de lavar a roupa nos tanques comunais, e onde toda a gente fazia os seus próprios entretenimentos, era muito pitoresco mas também muito duro, e não um mundo que alguém como eu, que sou fisicamente preguiçoso e acho que a maioria das tarefas são, com excepção de ler e de escrever, intensamente aborrecidas, desejaria para si próprio. Lisboa pode ter sido rica, mas não no sentido moderno: poucas televisões, frigoríficos, máquinas de lavar, telefones, carros, etc., e todas as coisas que se revelaram irresistíveis para a humanidade em todo o lado.

dalrymple

Uma das perguntas a que eu nunca fui capaz de responder satisfatoriamente foi a de por que razão os camponeses perdem, em todo o mundo, o seu sentido estético mal se mudam do campo para a cidade, e passam a ser aficionados do kitsch. Os que até então tinham uma compreensão instintiva da forma e da cor parecem não se importar mais com elas: observei este facto na Índia, na África e na América do Sul. De facto, não só perdem o seu bom gosto instintivo, como adquirem um mau gosto instintivo para o substituir. Qual é a explicação disto? Será que a abundância e o baixo custo dos bens adquiridos significam que já não é preciso olhar para eles com a mesma concentração que era requerida em condições de escassez relativa? Será que, ao não se fazer já quase nada para si mesmo, se perde a apreciação da forma e da cor? Será que, nas condições novas, tudo o que pertence ao passado acaba por parecer retrógrado e associado na mente à pobreza e à opressão? Será que tudo o que vem do passado – os potes de barro, por exemplo – acabam por parecer quase infantis em comparação com a modernidade dos potes e das panelas de alumínio? Será que a vida perde em intensidade o que ganha em extensão?

Não há certamente forma de fazer o relógio andar para trás: não podem fazer-se ovos a partir de uma omelete, para inverter um dito bem conhecido. Nem deveremos romantizar as vidas dos outros impedindo-os de votar com os seus pés e com as suas compras. Mas seria igualmente errado negar que o progresso tem as suas perdas. E o Le Portugal de Yves Bottineau lembrou-me quão pungente pode ser essa perda.

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(1) Alusão do autor ao ‘portuguese man-of-war’, na realidade um cnidário venenoso.

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