Onde se fala de desgraças, mas de tal modo que o leitor não se sentirá – garante-se – ele mesmo desgraçado, antes esclarecido quanto ao verdadeiro sentido da existência

Como todos os hipocondríacos, o meu amigo A. tem uma saúde de ferro, embora esteja sempre doente ou em vias de adoecer. Estamos hoje sentados no nosso lugar habitual das noites de semana, na esplanada da Avenida, e olhamos para a fachada recuperada do Hotel Tocaio, agora transformado em Hospital. As letras brancas de néon, em maiúsculas de um neo-grotesco sem serifa, dirigem-se-nos numa demonstração de competência fria. Hospital da Luz, o adversário das trevas. A. fuma um dos muitos Marlboros com que diariamente desafia as Parcas, indiferente aos protestos da própria carteira e dos pulmões alheios. Já o alertei para o subsídio que ele assim oferece ao Repugnante Governo do Coiso, e até fizemos as contas, calculadora do telemóvel na mão: sejam cerca de três euros de imposto em cada maço, dez euros por dia, a passar. Quatro mil euros por ano, uns quarenta mil por década. “Podias comprar um Mercedes de tempos a tempos, só com os impostos do vício,” digo-lhe. “E dos bons, não dos já velhos, como os carros de praça que estão ali estacionados,” concluo com uma mão ondulante a apontar para o outro lado da avenida.

Carvalho A

A. olha-me de esguelha. “Que se foda,” diz-me, enquanto emite uma baforada. “Eu nem carta tenho. Para que quereria um Mercedes?” “Sei lá. Talvez para ires a Amarante. Ou a Paredes,” acrescento com um esgar. Paredes, a Feia, apresso-me a esclarecer, não tem realmente nada de especial. É apenas uma espécie de fronteira, um limite simbólico da vida do meu amigo. Todos nós temos uma linha de horizonte que delimita a nossa existência, o nosso habitus, e dentro da qual nos sentimos seguros e em casa. Sabemos quem somos, conhecemos os caminhos, as gentes, os bichos. Do outro lado dessa linha, porém, jaz o indefinido hiante. Para lá do Bojador vai quem procura a dor, como diz o poeta. No caso do meu amigo A., o Bojador é Paredes: para lá de Paredes, vai quem procura o Hades. A Paredes do norte é, para A., Chaves. E a do sul, a Régua. Não há a Paredes do leste, porém. Não existe qualquer leste na vida do meu amigo, que sempre fez por ignorar o leste, chame-se ele Bragança ou Mirandela, esses não-lugares. “Que se foda Bragança,” diz amiúde. Suspeito que por reminiscência de uma qualquer tragédia com saias.

Estamos na semana dos “que se foda.” Ou dos “está tudo fodido,” uma variante que A. introduz sobretudo por razões estilísticas. Quando está mais ensimesmado, o discurso do meu amigo volta-se para dentro e toma uma declinação auto-referencial. “Estou fodido,” declara então. Os caros leitores não devem pensar que A. é um locutor limitado e boçal, como aqueles indígenas do Porto que dizem duas bujardices escatológicas em cada três palavras. Nada disso. A. exprime-se por norma com eloquência e variedade, como um parente de Camilo, o qual somos, aliás, todos mais ou menos por estas bandas. Eu, que me gabo de apreciar as manifestações da verve literária, gosto de o ouvir e provoco-o amiúde para lhe desatar a prosa. Digo-lhe, por exemplo, em tom pensativo e arrastado, que “não há nada a fazer,” e isso é quanto basta para ele disparar numa trajectória poética que extrai sentido das pedras mais inertes e dos episódios mais banais. “De facto tens razão, não há nada a fazer,” começa, e cinco minutos depois faz-nos perceber que “não somos nada,” que “está tudo minado,” que as pessoas andam “perdidas,” que “a verdade desertou do mundo,” e, num volta-face argumentativo que descabela os desprevenidos, que por detrás do quotidiano seco e fero se ergue o “sublime do divino maravilhoso.” O “divino maravilhoso” é uma sua categoria ontológica fundamental, que reside na zona do baixo-ventre, nunca no cérebro, “onde só existem o evanescente e o palavroso,” e que prefere na nossa espécie, por razões biologicamente enigmáticas, os exemplares masculinos aos femininos. Tal como o “sublime,” que não é bem um equivalente do “divino maravilhoso”, mas antes um seu antagonista dialéctico, e dele resultante por eclosão de um elemento negativo e perigoso. “As mulheres,” explica A., “fogem do divino como o diabo da cruz. E fogem ainda mais do sublime, que lhe acrescenta o risco e o hostil.” O elemento delas, remata, é o “banal.”

De modo que, meus amigos leitores, esta superabundância de interjeições não é uma limitação vocabular ou conceptual, mas um recurso expressivo, uma forma deliberada de significar. Significa que o momento não é de sublimidades, mas de banalidades. E que maior banalidade do que a do foder ou ser fodido? “A carne é toda ela feminina,” explica-me A. “A carne não fala, não discute, não arrisca, não desafia. A carne age. A carne não tem dúvidas. A carne sabe o que quer e nunca hesita. A carne fecha o mundo.” A. puxa a brasa do cigarro, que esmaga na borda do pires do café arrefecido, e fita-me com um ar de spleen quase infinito. “Estou fodido.” Ite missa est.

Olhamos para a estátua do Carvalho Araújo, que nos observa com um esgar por entre as árvores. Este ilustre homem da Bila, mais um dos parentes do Camilo, faz esta semana cem anos que morreu, afogado nas águas gélidas ao largo dos Açores, sob o olhar estupefacto do alemão Lothar von Arnauld de la Perière. “Era maçónico,” diz-me A., que sabe do que fala neste caso. “Não o eram todos?”, pergunto. “Eram. Mas a ele quiseram, não salvá-lo, mas perdê-lo,” explica-me. “E perderam mesmo,” ecoo. “Não perderam. Pensaram que sim, mas não. Ele salvou-se.”

Olhamos de novo o esforçado e um tanto obtuso marinheiro, na sua eternidade de bronze. Há uma homenagem a decorrer por estes dias, uma coisa oficial, com fardetas brancas, fanfarras e senhoras perfumadas. “Pensaram que o tinham fodido bem fodido,” declara A. “Mas ele é que os fodeu.”

Mastigamos aquele mistério por instantes, em silêncio. “Vais à homenagem?”, pergunto-lhe por fim, provocador. “São gajos para te mandarem ir buscar a casa.” A. acende mais um Marlboro. “Não,” responde. “Não vão. Não estarei por aqui nesse dia. Vou a Paredes.”

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