Pisa

André Suarèz, o magnífico escritor francês, nascido judeu Isaac-Félix, em Marselha, em 1868, de quem se disse — e não creio haver aqui um exagero — possuir a cadência e a solenidade séria e meditada da prosa de Pascal, tem um apelido português. Nunca foi, que eu saiba, traduzido ou editado na língua de Camões. Enfim. Pela minha parte gostaria de o saber descendente ou pelo menos familiar do seu homónimo, o grande arquitecto bracarense André Soares. E talvez seja.

Suarèz foi toda a sua vida um apaixonado por Itália, que visitou a pé e em viaturas e carroças várias por diversas vezes. Destas andanças suas deixou-nos um dos mais exultantes livros de viagem que conheço, Voyage du Condottière, publicado em três volumes, entre 1910 e 1932. A segunda parte intitula-se Fiorenza. É sobre a cidade das flores (Florença) e o seu entorno toscano e úmbrico. No quarto capítulo desta segunda parte faz a descrição de Pisa, a cidade que Génova despojou, em momento surpreendente e imprevisível, da sua grandeza no dia 6 de Agosto de 1284.

E reza assim:

__________

IV. SAPIENZA

Pisa.

Quando chegam do norte, todos trazem vinte ou trinta horas de neblina e gelo nas costas. Às vezes até cinquenta, dois dias e duas noites. Estão ébrios de trepidação e de barulho. Têm fuligem em todas as dobras e o cheiro do carvão. Todos estes casais ruivos estão em lua de mel, em viagem de núpcias. Mesmo se forem para Roma, para Sorrento ou para a Sicília, antes de Florença é em Pisa que descem a terra. Pisa é a sua primeira escala: esta noite dormirão no porto. Desembarcam e ficam deslumbrados. O sol inunda-os. A brisa suave do mar toscano adula-lhes os lábios; têm a nuca quente e as bochechas frescas. Uma cobra siltosa, o Arno amarelo e verde corre como um espesso puré de ervilha, entre os cais desertos, que parecem imensos: só por lá se passeia o céu do azul mais belo. Os parapeitos dir-se-ia serem de mármore e de cobre: ​​os recém-casados ​​têm vontade de neles se deitarem. Mas para quê? Todos os hotéis em frente abrem para esses casais mil camas nupciais. Talvez se tenham casado apenas para passar a noite em Pisa, e os dois dias seguintes. Bebem vinho toscano, já um milagre para os filhos da cerveja; acham o Asti a cerveja dos deuses; tintilam com ele lentamente, e têm a ilusão fugaz de finalmente ter espírito. A moral ficou com as bagagens nas mãos da criadagem. Outro copo de Asti: consola-os da comida azeitada. Riem-se e disparatam. Por Júpiter, bebem do mesmo copo. Ah, Pisa, Pisa, mezzatrice Pisa, chegadeira Pisa: Celestina fu la Pisa. O que dirá a Senhora Presidente da Sociedade de Temperança de Coldbedforth? E se o Senhor Secretário da Liga Universal das Mulheres Superiores para a Domesticação dos Homens Insubmissos, By Jove Doodle City, New York, USA, pudesse ver com os seus próprios olhos um tal deboche, engoliria as suas doze libras de goma de mascar e de sermões regulamentares e correria para apanhar o comboio. Seja como for, os náufragos abençoados de Pisa vão para a cama. É o próprio Hamlet que lhes grita: Go to bed! Para a cama, para a cama! Não há cidade na Úmbria e na Toscânia onde não se encontrem estes viajantes. Mostram-se em todos os passeios: são parte da paisagem; nela se sentem no seu sítio; e é por isso que, desde o limiar da entrada, aqui têm eles um.

panorama do arno em pisa_pequeno

Juntamente com os canais de Veneza, o Vesúvio na baía de Nápoles e o São Pedro do Vaticano, haverá algo mais famoso em Itália do que o planalto desértico onde os pisanos servem aos visitantes os seus quatro mais belos edifícios? E porque os relegaram quase para fora da cidade? Parecem ter querido livrar-se deles. Pisa tem a sedução do bizarro, um não sei quê de fatal e de sólido na fantasia. Uma lógica estranha nela rege o absurdo. Nela, a geometria dança nos braços do burlesco. Pisa tem o dom da realidade no irreal. Constroem uma torre: quando estão no segundo andar, a dez metros do chão, percebem que o seu campanário se inclina fortemente e que o eixo não coincide com o centro de gravidade. Em vez de o consertarem, felicitam-se; continuam a construir contra toda a estática, e erguem a sessenta metros e mais os seus seis turbantes de colunas. Assim é a Torre Inclinada, a que eles chamam Pendente, a glória da região e a trigésima sexta maravilha do mundo. Admiramo-la sem a achar bonita. Ficamos felizes por vê-la, sem descobrir porquê. Este objeto de arte é uma curiosidade.

O lugar é verdadeiramente singular, um dos mais originais que se pode ver e agradável ao ponto de nunca o esquecermos. Foi concebido, não pelo demónio, mas pelo génio risonho do absurdo. Calma, impassível mesmo, essa risada é porém grave. Este rectângulo longo estira-se numa pista de corrida, onde a relva cresce entre lajes e as lajes entre a relva curta. O lado comprido do rectângulo, o mais afastado da cidade, é fechado por uma parede de mármore: por detrás, o Campo Santo, o cemitério. Esta é a razão para este extraordinário afastamento: todos os monumentos de Pisa são feitos para o cemitério, o Domo, o Baptistério, a Torre que se inclina; e todos eles estão na lista negra da cidade viva. O quê? Mesmo as pias baptismais? Pisa responde que se baptizam os recém-nascidos apenas para fazer deles mortos: só há um pequeno salto. Ali, a dois passos de distância.

No lado oposto e paralelo abrem-se as ruas que levam ao Arno e atravessam toda a cidade. De frente para a parede mortuária, os hospitais, as escolas, os seminários e as clínicas. Isto é muito etrusco e de uma sabedoria fúnebre. Talvez os pisanos tenham querido proteger os seus preciosos edifícios de tumultos e facções? O facto é que não é possível parecerem mais novos: os mármores mostram ao sol um luto brilhante. Nada é mais frio, nada é mais inalteravelmente sepulcro. Além disso, nesta pista de corrida onde ninguém passa, excepto os estrangeiros, os três monumentos famosos agitam-se e perseguem-se uns aos outros: o grande bebé redondo, o Baptistério, usando o seu colar de contas, será o primeiro a chegar; a mãe e o pai Domo seguem, tão juntos, de braço dado, que não os conseguimos distinguir. Quanto à irmã mais velha, a Torre Inclinada, faz desporto a mais: saltou demais nos Alpes e na neve; feriu-se, tropeça, coxeia; a cada passo vai cair. É a família Damier, de Carrara.

Todo este mármore branco e amarelo tem a cor dos ossos velhos. Ao entardecer, o céu é da cor de folhas rosadas por cima da parede ameada do oeste, e verde-cinza sobre a Torre. Despenteia-se numa confusão de pequenas nuvens a galope: os cavalos vêm do mar com as crinas rosadas que se desfazem. Mesmo de manhã, pelo tempo mais ameno, este céu parece correr. (E se, no entanto, o tabuleiro de xadrez com as grandes peças de mármore estivesse no fundo do mar?) E às vezes, entre a Torre e o Baptistério, eu sonho com a China. As muralhas de ameias quadrangulares, a vastidão abandonada deste espaço verde e amarelo onde crescem estes enormes frutos de pedra, o silêncio e a paz parecida com a ausência, a música deste lugar, ao mesmo tempo augusta, um pouco cómica e solene, estranha e distinta, tudo isto finalmente é chinês. E a China também veste o branco como a cor do luto.

Contra a porta do Domo, cada um no seu recanto, dois espectros estendem de repente os braços na minha direcção. Um hábito preto, apertado com uma corda na cintura, desce-lhes até as sandálias. Mascara-os um capuz negro; das cabeças só se vêem os olhos através de dois buracos. Não sei se me equivoco, mas têm tíbias em cruz de Santo André no peito. Estes fantasmas horrorizam-me. Mas murmuram uma oração; e agitam, na ponta dos seus dedos sujos, moedas numa tigela. São os Irmãos da Misericórdia; pedem pelos mortos e enterram-nos; pedem também pelos hospitais, e a sua voz lúgubre anuncia a agonia. Que bem que aqui estão eles neste prado de mármore, cruel deserto, eriçado de colunas muralhadas que não deixam o céu passar, e tão cadáver que a paz aqui é como um rosto sem olhos.

Tarquínio, Porsenna, os Lucumones; os túmulos, a obsessão dos funerais; e estes sarcófagos demasiado pequenos, em forma de caixa de tabaco, reminiscentes das caixas onde se sentam os mortos do Japão; na tampa, a imagem do defunto, gorda e anã, esse povo suave e preciso, às vezes obtuso e fero, é assombrado pelo destino fatal que pesa sobre todos os humanos. O inferno obceca-o. Dante, o mais etrusco dos toscanos, fixaria para sempre as visões do inferno da Etrúria. O branco, o preto, o vermelho escuro são as suas cores favoritas, o alabastro pálido, o mármore e a argila. Dão poesia às ideias macabras. São fúnebres com uma espécie de tranquilidade; mas esta calma esconde mal um tremor obscuro. Os etruscos saem neste ponto aos celtas. A morte é a sombra que por todo o lado os acompanha. Muitas vezes é grotesca; faz caretas assustadoras nos seus vasos e nos seus objetos de arte como as moedas de Populonia, onde deita para fora a sua língua de Górgona. Os seus reis chamam-se Lars, e os primeiros lares das casas latinas são as Larvas etruscas. Como os egípcios, têm uma preocupação constante com o seu sepulcro. A sua nostalgia é ainda mais próxima da Bretanha: há chuva e lágrimas no seu clima. Gostaria de saber se se estudaram já, com suficiente empenho, as relações do ainda inexplicado etrusco com a mais antiga língua gaélica. O luto de Pisa vem de longe e sua contemplação sombria persiste sob a luz do céu. Pisa colocou num cemitério a sua beleza e a sua glória.

ENCONTRO DA ARTE

Momento ilustre, cheio de emoção e surpresa, para o homem do Ocidente ou do Norte, que não se tenha detido no caminho: Pisa é o encontro de arte e a revelação da inteligência antiga, em Itália. Aí ficamos embriagados de alegria ou desapontados, se chegamos em estado de graça ou antes como heróis conquistadores.

(…)

Pisa é impagável. É de maravilha e sempre à beira do riso. Mesmo os Irmãos da Misericórdia, quando sentem vontade de sacudir a melancolia do capucho, só têm que ir ver o rei Victor Emmanuel, na entrada da cidade: este babuíno é, sem dúvida, a mais tola estátua da Europa. Como em toda esta gloriosa Itália, a arte está por toda parte, se a isso nos prestamos;  e é rara, no caso contrário. O Campo Santo é, de longe, o objecto mais belo de Pisa. A beleza aqui é a da ordem, do estilo e do sítio. O Campo Santo é um vastíssimo claustro rectangular; duas galerias longas que alternam com duas galerias quase dois terços mais curtas. Os mortos passeiam por aqui, seguramente, à noite; durante o dia, os seus seiscentos túmulos, bustos, estelas e sarcófagos apanham sol entre os grandes arcos semicirculares, de belas janelas com nervuras de uma renda tão firme e tão ligeira. No meio, um jardim onde eu colhi, em Maio, mais de uma rosa. As proporções deste claustro constituem o seu mérito singular. Aí reina uma calma quase suave, uma luz tão amável e tão luminosa na tranquilidade, que este cemitério tem alegria. Já não pensamos em todos os mortos que dissolveram a sua forma e a sua substância nesta terra santa; mas antes na grande idade destas suas sombras, talvez vivas, que assombram estes pórticos sem perder a alegria ou o prazer de envelhecer num clima tão bonito e de nela prometerem a si mesmas a eternidade, essa teia de aranha suspensa de todos os ângulos das nossas almas: mas quem a cuida e quem a fia?

(…)

Sob o sol de Agosto ao meio-dia, ou sob a chuva do Outono, os cais imensos de Pisa convidam ao sonho. A chuva está em sua casa no Arno, sobre o lodo amarelo um lodo cinzenta; o rio arrasta uma amargura densa: tem fel; talvez ele se lembre, desespero das águas fluindo; estende um espelho oleoso às arcadas das pontes e às fachadas biliosas da margem. Esqueço todos os transeuntes que ali vi; pareço estar sempre sozinho. Lá, no entanto, numa noite antiga, tive uma conversa trémula sobre paixão, juventude e amor pela noite adentro. Com os olhos baixos e a alma aos saltos, andamos cem passos, refazemo-los mil vezes ao longo do leito que murmura correndo para o seu fim. Acreditei então, ainda acredito, mas não o faria mais acreditar, sem dúvida, que nascera para nunca morrer, e que a própria dor poderia ser uma oportunidade de grandeza e uma razão para viver. Estranha miséria da esperança: a verdadeira esperança não depende de nós; a vida não precisa de esperar: aguenta-se, é segura. A realidade da esperança, a mentirosa, vem dos outros e do objecto. São eles os que nos fogem; e por mais firmes que sejamos em nós mesmos, neles precisamos de medir a fuga. Os parapeitos são baixos sobre o rio amarelo: são perfeitos para lançar as pessoas borda fora; mas elas nunca por lá estão: e disso queixa-se a corrente agressiva, com a sua agitação de pequena onda. Pisa, uma cidade que sente o vazio e foi uma capital. Ela esteve sobre o mar, poderosa e rica, cheia de galeras. Já nem sabemos, hoje, onde era então o porto. (…)

[André Suarèz, Voyage du Condottière, 1932, Volume II]

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