Imortalidade II

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Em conversa nocturna com A., ao lado da Capela Nova. Queixamo-nos de dores em lugares exóticos da nossa anatomia. Já não é só no baixo ventre, como costumava ser. Agora é no baixo ventre do baixo ventre, como se houvesse em nós uma criança minúscula prestes a nascer e esta viesse ao mundo sofrendo de uma maleita irremissível. É esta pelo menos a minha teoria, que eu desfio contemplando aquela fachada veneranda, que viu gerações de vilarealenses ilustres, todos eles indispensáveis para si próprios, nascerem e morrerem sem sombra de lamento dos vindouros. E vou-me eclesiasticando deste modo, perante o olhar sarcástico do meu amigo.

“Enfim” – remato ridiculamente, eu que me surpreendo a quase dizer ‘vaidade de vaidades, tudo é vaidade’, uma banalidade que felizmente travo a tempo – “o óptimo é inimigo do bom”. 

Do lugar onde nos encontramos, os nossos pés direitos amparados na frontaria do antigo Banco Ultramarino, um edifício em pedra grossa que consta que a Caixa alienou por tuta e meia a um etnarca socialista da região, conseguimos ver, no outro lado da rua, o telhado degradado do edifício do Grémio do Comércio, que escorre um musgo podre e verde escuro. O Grémio, rebaptizado no vinte e cinco de abril com o nome pomposo de Associação Comercial e Industrial de Vila Real, fora um edifício vivo nos meus tempos de menino, mas é hoje um lugar abandonado onde nem os comerciantes da rua direita querem que os vejam, com receio de que as famílias os exponham na montra do Euclides.

Calo-me. Não sei que mais dizer. A decadência não é tema que me espevite a eloquência. A., porém, não precisa de grandes palavras para dizer o que se impõe. Sempre foi discípulo do doutor Johnson, um witticista que ele teimou em nunca ler, apesar das minhas recomendações. Uma frase, às vezes um simples gesto, são-lhe suficientes para expôr a mecânica do mundo. Invejo-o.

“Com a idade” – retorque, sorrindo levemente – “descobrimos que até o bom é inimigo do razoável.”

É verdade, claro. O tempo enrola-se sobre nós, como uma esfera perfeita e completa. Toda a verdade é finita. Aspiremos, pois, ao razoável. Ou talvez, mais propriamente, ao medíocre, que é o que a palavra ‘razoável’ quer dizer. Ergue-se uma rajada de ar gelado. Aconchego o colarinho do anoraque ao pescoço e olho para as estrelas que não se vêem. Nyarlathotep, o deus tutelar da cidade, assoma por momentos, entre duas núvens, sobre o ombro de um dos anjos de Nasoni. Pisca-me a pupila cósmica.

“O teu amigo é um grande médico,” diz-me ele.

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