Elogio de Jerónimo de Sousa

Uma característica das democracias representativas é o facto de os políticos serem escolhidos, não pelos seus pares, mas pelas massas, ou mais exactamente pelo que deveríamos chamar A Massa. Veja-se o caso português: entre nós o Presidente da República é eleito por mais de metade dos cidadãos que em cada acto eleitoral vão até às urnas, uma mole inquietante de três milhões de almas, ou algo perto disso. Da mesma maneira, a escolha do chefe do governo exige quase sempre uma maioria de eleitores nos distritos eleitorais, um número que, somado, não será inferior a dois milhões. Para sinecuras menos imponentes, por exemplo os municípios ou as freguesias, os votos necessários não são tantos, mas ainda assim constituem uma pequena multidão, quer dizer, são também massa. Mais de dez mil na minha pequena Bila, quinhentos ou um milhar nas aldeias espalhadas pelas serranias.

Tal circunstância faz do chamado sistema democrático um ambiente psicológico bem peculiar. O indivíduo que se dispõe a uma eleição – por norma alguém que se convence ter subido bem acima da melée, e que sente soprar-lhe pelas costas, como um vento que enfuna as velas da sua barcarola, uma espécie de carreira concebida para o levar até às alturas do poder – tem de passar o crivo, em democracia, de um colégio que pouco deve ao intelecto. Uma humilhação. O indivíduo superior percebe que na turba, em cada mil, centenas, talvez mesmo a maioria, possuem apenas as luzes necessárias para pôr um xis hesitante e aflito numa folha de papel. E que o eleitor pensa conhecer o que lhe dita o egoísmo ou a emoção clubista, mas tem uma ideia errada do que de facto o serve, e com certeza nenhuma do que é o melhor para os demais. E que, pior ainda, se porventura alguém lhe tenta, num gesto missionário, dizer o que é isso que é melhor para os demais, o nosso homem duvida, despreza e deita fora. Sou esperto, diz ele. A mim ninguém me engana com conversas moles. E descarrega, convencido, um voto bronco, espesso e tolo.

Li numa página perdida de um jornal que forrava uma gaveta que o nosso premier António Costa fora reeleito, em Maio do ano passado, como líder do PS por 96% de quase mil congressistas do partido. Uma tão esmagadora percentagem, noventa e seis em cada cem, novecentos e sessenta naquele mar de gente, parecerá, ao olhar fugaz de um observador externo, coisa de causar conforto. Mas admitamos que António Costa é uma pessoa de luzes e um cavalheiro, digamos, razoavelmente distinto — e porque não o admitir de alguém que chega a primeiro ministro de um país como Portugal, o qual não está, por maiores que sejam os seus defeitos, ao nível da Bolívia ou do Burkina Faso? Uma tal eleição não poderá deixar de ser, para António Costa, causa de depressão. Mil pessoas de um ajuntamento partidário é MASSA, quer dizer, uma amálgama de gentes que nenhum chevalier d’esprit pode considerar, por mais generoso que seja o seu órgão judicativo, uma assembleia dos seus pares. Ao olhar para toda aquela gente, suando à luz baça de uma vaidade de província, no que será, não um salão requintado, com espelhos antigos, mesas de madeiras nobres e criados de libré a servir consommé acompanhado por Grand Crus Saint Émilion, mas um barracão industrial com mesas de plástico cobertas de garrafinhas de Água do Luso, não pode impedir-se de pensar que não serão os homens que ele respeita, mas sim os que despreza, que o vão eleger. E ficará, por isso, frustre, aquém.

Esta triste condição não é, como se sabe, exclusiva deste homem ou deste grémio. É uma necessidade da democracia. António Costa é pois aqui, tal como em tantos outros casos em que o acusam de perfídia, inocente como uma andorinha. Uma peça do sistema. No fundo, igual a tantos outros.

Imaginem como o deve olhar, de que altitude o deve olhar, um príncipe escolhido por um colégio limitado de seus pares! Por exemplo, um Jerónimo de Sousa. Imaginem!

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