A execução da Marquesa de Távora

Na sua obra Perfil do Marquês de Pombal, publicada em 1882, Camilo Castelo Branco descreve a execução pública de Dona Leonor Tomásia de Lorena, a terceira marquesa de Távora. Camilo simpatiza com Leonor, de quem diz que era “gentilíssima, d’um talento extraordinário, muito lida, uma verdadeira distinção na corte de D. João V”. Leonor é a primeira vítima do tenebroso processo dos Távora, uma família nobre que, por despeito do Marquês de Pombal e conveniência do rei Dom José, é executada em público com requintes de uma malvadez que Pombal desejaria exemplar. Camilo não perdoa a Pombal os crimes que comete e os vícios que o apoucam. A descrição que vão ler a seguir é uma peça que, embora breve, é extraordinária.

D._Leonor_Tomásia_de_Lorena_e_Távora_(c._1770)_-_J.B._Gérard

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A aurora do dia 13 de janeiro de 1759 alvorejava uma luz azulada do eclipse daquele dia, por entre castelos pardacentos de nuvens esfumaradas que, a espaços, saraivavam bátegas de aguaceiros glaciais. O cadafalso, construído durante a noite, estava húmido. As rodas e as aspas dos tormentos gotejavam sobre o pavimento de pinho. Às vezes rajadas de vento do mar zuniam por entre as cruzes das aspas e sacudiam ligeiramente os postes. Uns homens, que bebiam aguardente e tiritavam, cobriam com encerados uma falua carregada de lenha e barricas de alcatrão, atracada ao cais defronte do tablado. Às 6 horas e 42 minutos ainda mal se entrevia a facha escura com umas cintilações de espadas nuas, que se avizinhava do cadafalso. Era um esquadrão de dragões. O patear cadente dos cavalos fazia um ruido cavo na terra empapada pela chuva. Atrás do esquadrão seguiam os ministros criminais, a cavalo, uns com as togas, outros de capa e volta, e o corregedor da corte com grande majestade pavorosa. Depois — uma caixa negra que se movia vagarosamente entre dois padres. Era a cadeirinha da marquesa de Távora, D. Leonor. Alas de tropa ladeavam o préstito. À volta do tablado postaram-se os juízes do crime, aconchegando as capas das faces varejadas pelas cordas da chuva. Do lado da barra reboava o mugido das vagas que rolavam e vinham chofrar espumas no parapeito do cais. Havia uma escada que subia para o patíbulo. A marquesa apeou da cadeirinha, dispensando o amparo dos padres. Ajoelhou no primeiro degrau da escada, e confessou-se por espaço de 50 minutos. Entretanto martelava-se no cadafalso. Aperfeiçoavam-se as aspas, cravavam-se pregos necessários à segurança dos postes, aparafusavam-se as roscas das rodas. Recebida a absolvição, a padecente subiu, entre os dois padres, a escada, na sua natural atitude altiva, direita com os olhos fitos no espectáculo dos tormentos. Trajava de cetim escuro, fitas nas madeixas grisalhas, diamantes nas orelhas e num laço dos cabelos, envolta em uma capa alvadia roçagante. Assim tinha sido presa, um mês antes. Nunca lhe tinham consentido que mudasse camisa nem o lenço do pescoço. Receberam-na três algozes no topo da escada, e mandaram-na fazer um giro no cadafalso para ser bem vista e reconhecida. Depois, mostraram-lhe um a um os instrumentos das execuções, e explicaram-lhe por miúdo como haviam de morrer seu marido, seus filhos, e o marido de sua filha. Mostraram-lhe o maço de ferro que devia matar-lhe o marido a pancadas na arca do peito, as tesouras ou aspas em que se lhe haviam de quebrar os ossos das pernas e dos braços ao marido e aos filhos, e explicaram-lhe como era que as rodas operavam no garrote, cuja corda lhe mostravam, e o modo como ela repuxava e estrangulava ao desandar do arrocho. A marquesa então sucumbiu, chorou muito ansiada, e pediu que a matassem depressa. O algoz tirou-lhe a capa, e mandou-a sentar num banco de pinho, no centro do cadafalso, sobre a capa que dobrou devagar, horrendamente devagar. Ela sentou-se. Tinha as mãos amarradas, e não podia compor o vestido que caíra mal. Ergueu-se, e com um movimento do pé concertou a orla da saia. O algoz vendou-a ; e ao pôr-lhe a mão no lenço que lhe cobria o pescoço,—não me descomponhas—disse ela, e inclinou a cabeça que lhe foi decepada pela nuca, de um só golpe.

[Camilo Castelo Branco, Perfil do Marquez de Pombal. Porto: Clavel & C.ª, 1882. p.15-17.]

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