Os admiradores dos turcos

Na última entrada de Junho de 1877, intitulada “Os admiradores dos turcos”, do seu Diário de um Escritor, Fiódor Dostoievski contrastou a crença cristã do povo russo com a sabedoria ilusoriamente superior do “ilustrado”. O pretexto próximo deste escrito fora a guerra russo-turca de 1877-78, que levara os “intelectuais” a abraçar, como tende quase sempre a acontecer, a causa do inimigo maometano. Mas por detrás da vontade do escritor de zurzir este iluminismo ignorante e anti-patriota há sobretudo o propósito de exaltar o mistério da fé dos simples, uma fé que é para Dostoievski uma verdade axial da humanidade. De caminho é também o cristianismo seco do pastor protestante que é criticado.

Para os que, como eu, vêm no protestantismo uma descida do nível do mistério e um empobrecimento face aos modos de relação com o sagrado típicos do cristianismo pré-reformado (o cristianismo das profissões católica e ortodoxa, que neste particular não se distinguem), este pequeno texto de Dostoievski é precioso na sua brevidade lapidar.

A tradução portuguesa foi feita a partir da edição francesa da Pléiade, de Gustave Aucouturier.

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(…) e eis que entre nós [na Rússia] aparecem muitos admiradores dos turcos – certamente que por causa da nossa guerra com eles. Até há pouco tempo não me recordo de ter alguma ver ouvido alguém louvar os turcos. Hoje, porém, falam-me amiúde dos seus defensores. E até encontrei alguns deles, e dos excitados. Há nisto, é óbvio, uma vontade de parecer original. Ainda assim, os admiradores são cientistas, mestres-escola, professores da universidade.

“O islão introduziu a ciência no mundo cristão. A cristandade estava mergulhada nas trevas da ignorância quando a ciência já florescia entre os árabes.”

Reparem, a causa da ignorância é o cristianismo. (…) Resulta pois daqui, a contrario, que o islão é luz, e o cristianismo princípio das trevas. Que lógica tão singular! Deve ser por isso que o maometanismo é nos nossos tempos tão luminoso em comparação com o cristianismo. Porque razão, perguntemo-nos, terão eles extinguido a tocha tão cedo?

“Seja, mas … eles professam o monoteísmo, ao passo que os cristãos…”

Esta exaltação da religião maometana por causa do seu monoteísmo, isto é, por causa da pureza da sua doutrina da unicidade de Deus, supostamente mais elevada do que a dos cristãos, é a menina dos olhos de muitos admiradores dos turcos. Mas o ponto importante aqui é que estes admiradores se afastaram do povo e não o compreendem. E, tendo-se separado do povo, acabaram por elaborar umas estranhas ideias sobre o que se passa na cabeça de um plebeu russo. Entretanto, o plebeu russo, “que nada sabe de matérias religiosas e não entende as suas orações” – como se costuma dizer a seu respeito – forma frequentemente, se não mesmo sempre, na sua cabeça e na sua alma uma convicção assaz peculiar, embora verdadeira e precisa, e que o  satisfaz completamente, sobre as coisas em que acredita, embora seja verdade que são muito raros os homens do povo que conseguem exprimir em palavras de maneira clara e consistente aquilo em que acreditam. Este “intelectual” russo que se afastou do povo ficaria surpreendido se lhe dissessem que o mujique iliterato acredita de uma maneira total e inquebrantável na unidade de Deus, que só existe um Deus, e que não há outro Deus senão Ele. Ao mesmo tempo o mujique russo sabe e acredita reverentemente (todos os mujiques russos sabem isso) que Cristo é o seu Deus verdadeiro; que Ele foi gerado por Deus Pai e nasceu da Virgem Maria. Desde logo, o intelectual russo, afastado do povo, recusará admitir a mera possibilidade de que o mujique russo, que não aprendeu nada, possua tais conhecimentos: “ele é tão ignorante, tão mergulhado nas trevas; não lhe ensinam nada. Onde está o seu professor?” E nunca entenderá que o professor do mujique é, “no que diz respeito à sua fé”, o próprio torrão, toda a terra russa; que estas crenças, por assim dizer, nascem com ele e estão fortificadas no seu coração a partir da própria vida. Mas o que será sempre inacreditável para alguns destes intelectuais russos é que o homem do povo russo possa não estar enganado nas suas convicções! Ele mesmo, tendo perdido há já muito tempo a compreensão do que significa esta enorme e ardente fé espontânea do povo, é incapaz de admitir que, acreditando reverentemente no grande mistério cristão da encarnação do Filho de Deus, o plebeu seja, ao mesmo tempo, um aderente do monoteísmo mais estrito. Ele preferirá atribuir essa firmeza das convicções imediatas do plebeu russo à incapacidade de raciocínio, ao hábito de confundir ideias por indolência e obtusidade e à ausência da faculdade crítica da sua mente. E atribuirá o estado “lamentável” do intelecto do homem do povo à opressão, à pobreza, à devassidão, à servidão e a outras coisas deste tipo. É esta também a tese do russo ilustrado que estuda o povo russo. Desta mesma mentalidade resulta também que se condenem os russos ortodoxos pela sua veneração dos ícones. Um certo pastor luterano não compreende como é possível acreditar no verdadeiro Deus e adorar, ao mesmo tempo, uma “tábua,” uma imagem de um santo, e evitar a acusação de idolatria. O intelectual russo tende, na maioria das vezes, a concordar com este argumento do pastor. E, no entanto, não há um mujique russo – seja homem ou mulher – que, inclinando-se diante de um ícone, confunda, ainda que minimamente, a “tábua” com o próprio Deus, não obstante o facto de o povo ortodoxo, ao mesmo tempo, acreditar no carácter miraculoso de alguns ícones. E não existe um único russo que atribua esta força miraculosa ao próprio ícone, e não à vontade de Deus, o que é completamente diferente. E, porém, nem o pastor nem o russo que se afastou do povo admitirão esta maneira de ver própria do russo comum; nem sequer acreditarão por um momento que ela possa ser o que ela é.

Mas basta lembrarem-se do paraíso de Maomé para se convencerem da pureza das ideias turcas sobre a unidade de Deus. (…)

Fiédor Dostoievski, Diário de um Escritor. Junho de 1877.

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