O Futuro já chegou

Achais que não se pode prever o futuro? Que o dom da profecia foi uma superstição de rústicos da idade do bronze? Que o Espírito se calou de vez e Deus já não sussurra aos ouvidos dos seus o que Ele quer que os homens saibam? Que já não há Verdade?

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Então lêde esta passagem de Dostoievski, escrita em 1881. O Inquisidor fala com Cristo e descreve-lhe com minúcia exacta o que hoje está a acontecer. E o que vem aí, a galope, pela mão dos zeladores da humanidade, os Grandes Humanistas, o Concílio da Bondade Universal, os Cientistas e os Crentes da Igreja do Bem, o Papa da Roma Pachamama, os Oficiantes da Grande Obediência, os oráculos da Razão Universal, os zurzidores da Superstição e da Diferença, os perseguidores da Matemática, da Metafísica e de Mozart, os promotores da Felicidade e da Segurança e da Igualdade e da Indistinção. E esta vai finalmente estender-se por toda a terra, como um caldo morno e confortável, e o milénio durará exactamente mil anos.

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“Esta causa está apenas no princípio, mas já começou. Há que esperar ainda muito tempo até à sua conclusão, e a terra vai ainda sofrer muito, mas atingiremos o nosso objectivo e seremos os Césares, e então pensaremos na felicidade universal das pessoas. Entretanto, tu poderias já então ter aceitado a espada de César. Por que motivo rejeitaste essa última dádiva? Aceitando esse terceiro conselho do espírito poderoso terias completado tudo o que o homem procura na terra, ou seja: alguém diante de quem se inclinar, a quem entregar a consciência e o meio para se unir num incontestado formigueiro comum e solidário, porque a necessidade da união universal é o terceiro e último tormento das pessoas. A humanidade no seu conjunto sempre aspirou a organizar-se numa base universal.

(…)

Havemos de os convencer finalmente a não serem orgulhosos, (…) havemos de lhes provar que são fracos, que são apenas crianças lastimáveis, mas que a felicidade infantil é a mais doce de todas. Tornar-se-ão tímidos, e começarão a olhar-nos e a acolher-se junto de nós, como os pintainhos debaixo da galinha. (…) Estremecerão debilmente perante a nossa ira, as suas mentes serão tímidas, os seus olhos ficarão lacrimosos como os das crianças e das mulheres, mas com a mesma facilidade passarão, a um sinal nosso, à alegria e ao riso, ao regozijo luminoso e à feliz canção infantil. Obrigá-los-emos a trabalhar, sim, mas nas horas livres do trabalho organizaremos as suas vidas como um jogo infantil, com canções infantis, em coro, com danças inocentes. Oh, até lhes permitiremos o pecado, porque são fracos e impotentes, e hão-de amar-nos como crianças porque lhes permitimos pecar. Dir-lhes-emos que todos os pecados serão redimidos se forem cometidos com a nossa permissão; permitimos-lhes que pequem porque os amamos, e tomamos sobre nós o castigo desses pecados. Tomamo-lo sobre nós, e eles hão-de adorar-nos como benfeitores que assumem os seus pecados perante Deus. E não terão quaisquer segredos para connosco. Segundo o seu grau de obediência, havemos de lhes permitir ou de lhes proibir viverem com as suas mulheres e amantes, terem ou não terem filhos, e eles hão-de obedecer-nos com prazer e alegria. Hão-de nos contar tudo, tudo, até os segredos mais dolorosos da sua consciência, e nós decidiremos tudo e eles acreditarão na nossa decisão com alegria, porque ela os poupará à grande preocupação e aos horríveis tormentos actuais da decisão pessoal e livre. E todos serão felizes, todos os milhões de seres, excepto as centenas de milhar que os dirigem. Porque só nós, os que guardamos o mistério, seremos infelizes. Haverá milhões de crianças felizes e cem mil sofredores, que assumem a maldição do conhecimento do bem e do mal.”

[Fiódor Dostoievski, Os Irmãos Karamazov, tradução de António Pescada, Relógio de Água, pp. 263-265.]

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