O Futuro já chegou

Achais que não se pode prever o futuro? Que o dom da profecia foi uma superstição de rústicos da idade do bronze? Que o Espírito se calou de vez e Deus já não sussurra aos ouvidos dos seus o que Ele quer que os homens saibam? Que já não há Verdade?

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Então lêde esta passagem de Dostoievski, escrita em 1881. O Inquisidor fala com Cristo e descreve-lhe com minúcia exacta o que hoje está a acontecer. E o que vem aí, a galope, pela mão dos zeladores da humanidade, os Grandes Humanistas, o Concílio da Bondade Universal, os Cientistas e os Crentes da Igreja do Bem, o Papa da Roma Pachamama, os Oficiantes da Grande Obediência, os oráculos da Razão Universal, os zurzidores da Superstição e da Diferença, os perseguidores da Matemática, da Metafísica e de Mozart, os promotores da Felicidade e da Segurança e da Igualdade e da Indistinção. E esta vai finalmente estender-se por toda a terra, como um caldo morno e confortável, e o milénio durará exactamente mil anos. Continuar a ler

Um conto de Tolstoi

Em 1905 Lev Tolstoi escreveu um pequeno conto, a que deu o nome de Aliocha Pote (Alesha Gorshok), baseado, ao que se diz, na figura de um criado da sua propriedade de Yasnaya Polyana. Aliocha, que nunca aprendera, por falta de capacidade e de tempo, a ler, e cujo horizonte vital não ultrapassará a do seu entorno imediato, personifica uma posição face à existência que é um ideal de Tolstoi na última fase da sua carreira como escritor e como pensador: um modo de ser radicalmente cristão, desprovido de qualquer egocentrismo. As crianças riem-se de Aliocha, Aliocha ri-se de si próprio e tudo está bem. Está bem aqui e estará bem .

A tradução deste conto baseia-se na de António Pescada, in Os Últimos Escritos (Relógio d’Água, Lisboa, 2018), com algumas alterações aqui e ali. Espero que gostem.

Tolstoi, Lev (1936) - Obras Completas. Tomo 36 (em russo) página 68

Fac-símile da primeira página manuscrita de Aliocha Pote (1905).

 

ALIOCHA POTE

Aliocha era o mais novo dos irmãos. Chamaram-lhe Pote porque uma vez a mãe mandou-o levar um pote de leite à mulher do diácono, e ele tropeçou e quebrou o pote. A mãe bateu-lhe e as crianças começaram a arreliá-lo com o “pote”. “Aliocha Pote,” passou a ser a sua alcunha.

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Elevação

É uma coisa real. Não feita de palavras ou de paisagens imaginárias, que apenas existem por dentro dos olhos, na parede das pálpebras. Não rima com nada. Não está à espera da aprovação dos outros. Existe antes de nós, fora de nós, por cima de nós, a toda a nossa volta. É o solo de onde tudo brota, onde assenta a nossa liberdade.

Não tem nome.

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