Soneto já antigo

Ontem à noite um amigo explicava-me que aquele orangista que tinha dito que nós, os portugueses, gastávamos o dinheiro que eles nos mandavam em putas e vinho verde até que tinha razão.

– A., disse eu depois de uma pausa, ele pode até ter razão (que não tem, apresso-me a acrescentar aqui). Mas há coisas que não se dizem.
– Verdade, verdade, repetiu o meu amigo, acendendo o octagésimo cigarro do dia. Ele há coisas que não se devem dizer.
– Mesmo que se pensem, disse eu.
– E que sejam verdade, confirmou ele.

A fachada de pedra do defunto Banco de Portugal, agora Qualquer Coisa Agrícola, olhou-nos com aprovação. Um cliente noctívago das francesinhas do Cardoso, que urinava os restos da cerveja no nicho do multibanco, também.

Subimos a rampa de São Pedro de regresso ao calor das nossas casas. Ao passar pela montra do Pai dos Pobres parámos por momentos a apreciar os produtos expostos.

– Não precisas de um porta-moedas, A.?
– Para quê?
– Sei lá. Podes precisar. As moedas tendem a cair para o forro do casaco pelo buraco dos bolsos.
– Melhor. De cada vez que viramos o forro, ficamos ricos.

E com esta metáfora da economia nacional nos fomos.