Agamben e a Renúncia de Bento XVI

Em 2013, o filósofo italiano Giorgio Agamben publicou um pequeno livro, intitulado Il mistero del male. Benedetto XVI e la fine dei tempi (Editora Laterza, Roma-Bari). O ensaio principal, O Mistério da Iniquidade, uma conferência pronunciada em Freiburg (Suíça) aquando do seu doutoramento honoris causa em Teologia, é uma tentativa de interpretação, à luz de Ticónio (um teólogo norte-africano do século IV), da famosa passagem da Segunda Epístola de São Paulo aos Tessalonicenses (2 Tess 2:1-10) sobre o fim dos tempos. A passagem paulina diz assim:

Acerca da vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo e da nossa reunião junto dele, pedimo-vos, irmãos, que não percais tão depressa a presença de espírito, nem vos aterrorizeis com uma revelação profética, uma palavra, ou uma carta atribuída a nós, como se o dia do Senhor estivesse iminente. Ninguém, de modo algum, vos engane. Com efeito, antes deve vir a apostasia e manifestar-se o homem da iniquidade, o filho da perdição, o adversário, aquele que se ergue contra tudo o que se chama Deus ou é objecto de culto, até a ponto de ele próprio se sentar no templo de Deus e de se ostentar a si mesmo como Deus. Não vos lembrais de que, quando ainda estava convosco, vos dizia estas coisas? E agora sabeis o que o detém para que se manifeste no momento que lhe toca. Com efeito, o mistério da iniquidade já está em acção; basta que seja afastado aquele que agora o detém. Então é que se manifestará o iníquo que o Senhor destruirá com o sopro da sua boca e aniquilará com o fulgor da sua vinda. A vinda do iníquo dá-se por obra de Satanás, com toda a espécie de milagres, sinais e prodígios enganadores, com todo o tipo de seduções de injustiça para os que se perdem, porque não acolheram o amor da verdade para serem salvos. (ed. Difusora Bíblica, Capuchinhos, Lisboa).

Logo depois da renúncia de Bento XVI ao papado, anunciada em 11 de Fevereiro de 2013, Agamben escreveu um pequeno ensaio em que sustenta que essa renúncia deve ser interpretada nos exactos termos em que Ticónio elucida a passagem paulistana sobre o fim dos tempos: Bento XVI renunciou porque terá assumido, tal como Ticónio, que o katechon (“o que pára”, isto é, a entidade que retém a chegada do Anticristo e a subsequente segunda vinda de Cristo), é a própria Igreja, na sua parte negra ou satânica (“fusca“). Esse pequeno texto, intitulado O Mistério da Igreja, precede no livrinho atrás referido o ensaio sobre a iniquidade e constitui uma espécie de actualização do mesmo sob o impacto ainda fresco do evento traumático da renúncia papal. Em suma, diz Georgio Agamben, Bento XVI terá concebido, face à renúncia da própria Igreja em assumir a responsabilidade historial que lhe pertence – e que a obrigaria a situar-se permanentemente no seio de uma visão escatológica da História, visão que a Igreja contemporânea terá quase completamente esquecido – , o gesto desesperado, ele mesmo escatológico, da sua própria renúncia. Perante uma Igreja que é pouco mais do que uma cúria que “persegue com obstinação as razões da economia e do poder temporal,” esvaziada de legitimidade transcendente, “Bento XVI optou por usar somente o poder espiritual, do único modo que lhe pareceu possível, isto é, renunciando ao exercício do vicariato de Cristo. Assim, a própria Igreja foi colocada em questão, desde a raiz.”

A Igreja é o Katechon, a entidade que retém a vinda do Anticristo e a parusia do Senhor. A Igreja é o obstáculo. Como diz o Grande Inquisidor a Cristo na obra de Dostoievski, “vai e não voltes mais.”

No que se segue apresentamos um excerto das primeiras páginas desse ensaio sobre o mistério da Igreja, na convicção de que poderá ajudar os cristãos que olham com perplexidade a Igreja de Roma actual a lidar com a condição a todos os títulos lastimável do trono de São Pedro e da Cúria romana. Seguimos aqui a tradução de Silvana de Gaspari e Patricia Peterle para a Editora Boitempo, da qual nada alterámos, excepto aqui e ali uns detalhes da sintaxe brasileira.

Espero que, depois de lerem o que segue, vos apeteça ler o livro todo.

_______________________________________________________________

O mistério da Igreja

1.

Nestas páginas procuraremos compreender a decisão [de renúncia ao trono papal] do papa Bento XVI, situando-a no contexto teológico e eclesiológico que lhe é próprio. Contudo, olharemos para essa decisão na sua exemplaridade, isto é, para as consequências que é possível tirar dela para uma análise da situação política das democracias em que vivemos.

De facto, estamos convencidos de que, cumprindo a “grande recusa”, Bento XVI deu prova não de vileza – que, segundo uma tradição exegética, seria tudo menos segura, como Dante teria escrito de Celestino V –, mas de uma coragem que adquire hoje um sentido e um valor exemplares. As razões invocadas pelo pontífice para motivar a sua decisão, certamente em parte verdadeiras, de modo nenhum explicam o gesto que, na história da Igreja, tem um significado particular. E esse gesto assume todo o seu peso se lembrarmos que, em 28 de abril de 2009, Bento XVI havia depositado, precisamente sobre o túmulo de Celestino V, na cidade de Áquila, o pálio que recebera no momento da posse, provando que a decisão tinha sido meditada. Celestino V explicou a sua renúncia praticamente com as mesmas palavras de Bento XVI, falando de “fraqueza do corpo” (debilitas corporis; Bento XVI invocou uma diminuição do “vigor do corpo”, vigor corporis) e de “enfermidade da pessoa” (infirmitas personae); mas fontes antigas informam já que a verdadeira razão deveria ser procurada na sua indignação “face às prevaricações e às simonias da corte”.

Por que nos parece hoje exemplar uma tal decisão? Porque volta a chamar atenção para a distinção entre dois princípios essenciais de nossa tradição ético-política, dos quais as sociedades parecem ter perdido qualquer consciência: a legitimidade e a legalidade. Se é tão profunda e grave a crise que a nossa sociedade está a atravessar, é porque ela não só questiona a legalidade das instituições, mas também a sua legitimidade; não só, como se repete muito frequentemente, as regras e as modalidades do exercício do poder, mas o próprio princípio que o fundamenta e o legitima.

Os poderes e as instituições não são hoje deslegitimados porque caíram na ilegalidade; é mais verdadeiro o contrário, ou seja, que a ilegalidade é difundida e generalizada porque os poderes perderam toda a consciência de sua legitimidade. Por isso é vão acreditar que se pode enfrentar a crise das sociedades por meio da acção (certamente necessária) do poder judiciário – uma crise que investe a legitimidade não pode ser resolvida somente no plano do direito. A hipertrofia do direito, que tem a pretensão de legiferar sobre tudo, revela, isso sim, através de um excesso de legalidade formal, a perda de toda a legitimidade substancial. A tentativa moderna de fazer coincidir legalidade e legitimidade, procurando assegurar, através do direito positivo, a legitimidade de um poder, é – como resulta do irrevogável processo de decadência em que ingressaram as instituições democráticas – totalmente insuficiente. As instituições de uma sociedade só continuarão vivas se ambos os princípios (que na nossa tradição também receberam o nome de direito natural e direito positivo, de poder espiritual e poder temporal ou, em Roma, de auctoritas e potestas) se mantiverem presentes e nelas agirem, sem nunca pretender que coincidam.

2.

(…) Por isso o gesto de Bento XVI nos parece tão importante. Esse homem, que era chefe da instituição que arroga a si ter o mais antigo e significativo título de legitimidade, colocou em questão, com a sua decisão, o próprio sentido do título. Perante uma cúria que, totalmente esquecida da própria legitimidade, persegue com obstinação as razões da economia e do poder temporal, Bento XVI optou por usar somente o poder espiritual, do único modo que lhe pareceu possível, isto é, renunciando ao exercício do vicariato de Cristo. Assim, a própria Igreja foi colocada em questão, desde a raiz.

3.

Uma compreensão mais aprofundada do gesto de Bento XVI exige que este seja restituído ao contexto teológico, o único que permite avaliar plenamente o significado da decisão e, em particular, à concepção de Igreja do próprio papa. Em 1956, aos trinta anos, o teólogo Joseph Ratzinger publicou, na Revue des Études Augustiniennes, um artigo com o título “Considerações sobre o conceito de Igreja de Ticónio no Liber regularum”.

Ticónio, activo em África na segunda metade do século IV e classificado em geral como herético donatista, é, na realidade, um teólogo extraordinário, sem o qual Agostinho jamais teria escrito a sua obra-prima, A Cidade de Deus. O seu Liber regularum (única obra conservada, junto aos fragmentos de um Comentário ao Apocalipse) contém, com efeito, um verdadeiro tratado de eclesiologia, numa série de sete regras para a interpretação das Escrituras.

A segunda regra, que traz como título De Domini corpore bipartito [“Sobre o corpo bipartido do Senhor”] e que tem o seu correspondente na sétima regra, De diabolo et eius corpore [“Sobre o diabo e seu corpo”], é aquela sobre a qual o jovem Ratzinger concentra a sua atenção. “O conteúdo essencial da doutrina do corpus bipartitum” –escreve ele – “consiste na tese de que o corpo da Igreja tem dois lados ou aspectos: um ‘esquerdo’ e outro ‘direito’, um culpado e um bendito, os quais, contudo, constituem um único corpo. Ainda mais forte que na dualidade dos filhos de Abraão e de Jacob, Ticónio encontra expressa essa tese nas passagens das Escrituras em que não só os dois aspectos, mas também a coesão entre eles, se tornam visíveis num único corpo: fusca sum et decora, diz a esposa do Cântico dos Cânticos (1,4); ‘sou negra e bela’, isto é, a única esposa de Cristo, cujo corpo é aquele da Igreja, tendo um lado ‘esquerdo’ e um ‘direito’ e compreendendo em si tanto o pecado como a graça”.

Ratzinger ressalta a diferença entre essa tese e a de Agostinho, na qual ele certamente se inspirou para a ideia de uma Igreja permixta de bem e de mal. “Não há [em Ticónio] a clara antítese entre Jerusalém e Babilónia, tão característica em Agostinho. Jerusalém é, ao mesmo tempo, Babilônia; inclui-a em si. Ambas constituem uma só cidade, que tem um lado ‘esquerdo’ e um ‘direito’. Ticónio não desenvolveu, como Agostinho, uma doutrina das duas cidades, mas a de uma só cidade com dois lados.”

A consequência dessa tese radical, que divide e ao mesmo tempo une uma Igreja dos maus e uma Igreja dos justos, seria, segundo Ratzinger, que a Igreja é, até ao Juízo universal, ao mesmo tempo Igreja de Cristo e Igreja do Anticristo: “Disso deriva que o Anticristo pertence à Igreja, nela e com ela cresce até a grande discessio, que será introduzida pela revelatio definitiva”.

4.

É sobre esse último ponto que convém refletir para compreendermos as implicações da leitura de Ticónio a respeito da concepção – tanto no jovem teólogo de Frisinga como no futuro papa – da essência e do destino da Igreja. Como vimos, Ticónio distingue uma Igreja negra (fusca), composta pelos maus que formam o corpo de Satanás, e uma Igreja justa (decora), composta pelos fiéis de Cristo. No presente estado, os dois corpos da Igreja estão inseparavelmente misturados, mas dividir-se-ão no fim dos tempos. “Isso acontece desde a paixão do Senhor até ao momento em que a Igreja que o retém for eliminada do mistério do mal (mysterium facinoris), a fim de que, quando o tempo chegar, o ímpio seja revelado, como diz o Apóstolo.”

O texto da Escritura que Ticónio cita (“como diz o Apóstolo”) é o mesmo ao qual Ratzinger alude falando de uma “grande discessio” – trata-se da célebre e obscura passagem da “Segunda Epístola aos Tessalonicenses”, de Paulo, a qual contém uma profecia sobre o fim dos tempos. Damos aqui uma tradução, a mais fiel possível:

“Nós vos pedimos, irmãos, em relação à vinda de nosso Senhor Jesus Cristo e da nossa reunião com ele, de não vos deixardes turbar na vossa mente ou assustar com inspirações ou discursos ou com uma carta que se presuma mandada por mim, como se o dia do Senhor fosse iminente. Que ninguém vos engane de modo algum: já que, se antes não vier a apostasia e não for revelado o homem da anomia (ho anthropos tes anomias), o filho da destruição, aquele que se contrapõe e se levanta sobre qualquer ser chamado Deus ou é objeto de culto, até se sentar no templo de Deus, mostrando-se como Deus. Não vos lembrais de que, quando eu ainda estava entre vós, vos dizia essas coisas? Agora sabeis aquilo que retém (to katechon) e que será revelado no seu tempo. O mistério da anomia (mysterion tes anomias, que a Vulgata traduz mysterium iniquitatis; na tradução de que se serve Ticónio, mysterium facinoris) já está em acto; só aquele que retém (to katechon), até que esteja fora do caminho. E então será revelado o ímpio (anomos, lit. “sem lei”), que o senhor Jesus eliminará com o sopro da sua boca e tornará inoperante com o aparecimento da sua vinda – aquele cuja vinda é, segundo o ser em acto de Satanás, em toda a potência e sinais e falsos prodígios e com todos os enganos da injustiça, para aqueles que se perdem por não terem acolhido o amor da verdade para a sua salvação. (2 Tess. 2, 1-11)

5.

A passagem refere-se ao fim dos tempos, cuja chegada está ligada à acção de dois personagens: o “homem da anomia” (ou o “fora da lei”, anomos) e “aquele (ou aquilo) que retém”, isto é, retarda a vinda de Cristo e o fim do mundo. Apesar de parecer que Paulo não conhece o termo Anticristo, a partir de Irineu (e depois, conforme Hipólito, Orígenes, Tertuliano e Agostinho), o primeiro personagem foi identificado com o Anticristo da primeira epístola de João. O katechon, que retém o fim, pelo contrário, foi identificado pelos Padres como duas potências contrapostas: o Império Romano e a própria Igreja. A primeira interpretação remonta a Jerónimo, segundo o qual o Apóstolo não quis nomear abertamente o Império para não ser acusado de desejar a sua ruína. A segunda interpretação remonta, como vimos, a Ticónio, que identificou a Igreja (ou melhor, uma parte dela, a Igreja fusca) com o Anticristo. Agostinho, no livro XX de A Cidade de Deus, sugere isso com discrição, sem o nomear: “Outros pensam” – escreve ele – “que as palavras do Apóstolo se referem somente aos maus e aos hipócritas que estão na Igreja, até ao momento em que o número deles formará o grande povo do Anticristo. Seria esse o mistério do pecado, pois está escondido, e creem que é a esse mistério que o evangelista João se refere na sua epístola… Como na hora que João chama última, muitos hereges, aos quais ele chama Anticristos, sairão da Igreja, assim, quando chegar o momento, sairão todos aqueles que não pertencem a Cristo, mas ao último Anticristo, que então será revelado” (XX, 19).

Ticónio conhece, então, um tempo escatológico, no qual se realizará a separação das duas Igrejas e dos dois povos – já no final do século IV, existia, portanto, uma escola de pensamento que via na Igreja romana, mais precisamente no carácter bipartido do seu corpo, a causa do atraso da parusia.

_______________________________________________________________

A Palavra

No semestre de Verão de 1943, Martin Heidegger deu um curso na universidade de Freiburg sobre Heraclito. O curso foi publicado no volume 55 das Obras Completas (Gesamtausgabe). Desse curso, apresentam-se a seguir três parágrafos.

___________________________

Dizemos “é” constantemente, mesmo que não o digamos expressamente. Pensamo-lo em todas as formas de cada verbo, em cada nome, em cada apelo e em cada ordem, em cada pedido e em cada saudação. Pensamo-lo sempre e percebemo-lo em todos os lugares e, no entanto, não o entendemos e nunca nele pensamos. Pensamo-lo em todas as reflexões silenciosas, pensamo-lo nas opiniões impensadas, pensamo-lo mesmo aí onde acreditamos que estamos apenas a ”sentir” e a ”experimentar” algo. A palavra de todas as palavras, o éter da linguagem, a palavra que nomeia aquilo em que reside todo o dizer e todo o silêncio, continua até agora a ser para nós o mais inócuo de tudo o que é inócuo. É estranho como o homem é indiferente à palavra que é sempre-já usada, embora nem sempre seja dita, em cada um dos seus pronunciamentos tantas vezes apressados e ruidosos.Heraclitus of Ephesus

Continuar a ler

Imortalidade V

Estamos sentados na esplanada do ex-D. Manuel, a lua recortada contra o céu escuro por cima do ex-Hotel Tocaio. Na Bila por estes dias tudo se tornou o ex de qualquer outra coisa que não existe mais, que nos abandonou. O meu amigo A. acende mais um Marlboro. Tenho saudades do aroma do tabaco e da carícia do fumo dentro das entranhas. Divago. O tempo passa. A lua vai-se deslocando imperceptivelmente no céu da Avenida, traçando o seu percurso solitário ao longo da banda estreita do Zodíaco. Ocorre-me de repente que esta lua não passará nunca.

– Sabes, digo a A., não há morte. Eu não morrerei. Viver quer dizer existir, e a morte é a não-existência. Uma impossibilidade para quem existe, como eu, que existo agora mesmo. Da existência não se produz a não-existência e vice-versa. Logo, eu sou vivo para sempre. Imortal.

A. dá uma fumarada no cigarro, e exclama:

– Arrump counff.

O que ele quis dizer foi “é uma impossibilidade, concedo.” O meu amigo A. abrevia, quando está comigo, as suas elocuções, usando uma espécie de estenografia oral. ‘Arrump’ significa ‘impossível’ e ‘counff’ quer dizer ‘de facto’. Muitos anos de convivência entre nós permitem-nos comunicar desta forma sintética, mas de uma eficácia eloquente. O estimado leitor terá de se amanhar com a minha tradução, na qual, como sempre que se traduz, algo se perde do sentido original. Entre parêntesis está o que efectivamente dissemos.

O diálogo prosseguiu.

Eu: – Logo, a morte é uma ilusão. (Murf arg.)

A: – E esta lua nunca desliza no céu. (Cuf cuf.)

Eu: – É a lua anti-Heraclito. (Inf kruum)

A: – Heidegger tem razão, Sein e Zeit são o mesmo. (Hei tshuff)

Eu: – Alguma coisa se perdeu quando os gregos reduziram o Ser ao ser presente, pois o presente não existe. O presente é o instante. Infinitésimo. (glorb bas tuk)

A: – Não existe o instante, apenas a continuidade do tempo, como uma fita de Moebius. (Thss lunng)

Eu: – O Ser é uma esfera perfeita. (Aum um)

A: – Bebes uma bejeca? (Oi?)

Infelizmente não posso, por razões médicas. Mas a lua não saiu do céu, do seu lugar por cima do ex-Hotel Tocaio, e amanhã cá estará de novo. E o Hotel também. A lua, essa moeda prateada de um valor incalculável, Nyarlathotep.

Nyarlathotep, teu nome é Plenitude e eu sou teu filho.

Amén. (Aim)

Soneto já antigo

Ontem à noite um amigo explicava-me que aquele orangista que tinha dito que nós, os portugueses, gastávamos o dinheiro que eles nos mandavam em putas e vinho verde até que tinha razão.

– A., disse eu depois de uma pausa, ele pode até ter razão (que não tem, apresso-me a acrescentar aqui). Mas há coisas que não se dizem.
– Verdade, verdade, repetiu o meu amigo, acendendo o octagésimo cigarro do dia. Ele há coisas que não se devem dizer.
– Mesmo que se pensem, disse eu.
– E que sejam verdade, confirmou ele.

A fachada de pedra do defunto Banco de Portugal, agora Qualquer Coisa Agrícola, olhou-nos com aprovação. Um cliente noctívago das francesinhas do Cardoso, que urinava os restos da cerveja no nicho do multibanco, também.

Subimos a rampa de São Pedro de regresso ao calor das nossas casas. Ao passar pela montra do Pai dos Pobres parámos por momentos a apreciar os produtos expostos.

– Não precisas de um porta-moedas, A.?
– Para quê?
– Sei lá. Podes precisar. As moedas tendem a cair para o forro do casaco pelo buraco dos bolsos.
– Melhor. De cada vez que viramos o forro, ficamos ricos.

E com esta metáfora da economia nacional nos fomos.

Onde se fala de desgraças, mas de tal modo que o leitor não se sentirá – garante-se – ele mesmo desgraçado, antes esclarecido quanto ao verdadeiro sentido da existência

Como todos os hipocondríacos, o meu amigo A. tem uma saúde de ferro, embora esteja sempre doente ou em vias de adoecer. Estamos hoje sentados no nosso lugar habitual das noites de semana, na esplanada da Avenida, e olhamos para a fachada recuperada do Hotel Tocaio, agora transformado em Hospital. As letras brancas de néon, em maiúsculas de um neo-grotesco sem serifa, dirigem-se-nos numa demonstração de competência fria. Hospital da Luz, o adversário das trevas. A. fuma um dos muitos Marlboros com que diariamente desafia as Parcas, indiferente aos protestos da própria carteira e dos pulmões alheios. Já o alertei para o subsídio que ele assim oferece ao Repugnante Governo do Coiso, e até fizemos as contas, calculadora do telemóvel na mão: sejam cerca de três euros de imposto em cada maço, dez euros por dia, a passar. Quatro mil euros por ano, uns quarenta mil por década. “Podias comprar um Mercedes de tempos a tempos, só com os impostos do vício,” digo-lhe. “E dos bons, não dos já velhos, como os carros de praça que estão ali estacionados,” concluo com uma mão ondulante a apontar para o outro lado da avenida.

Carvalho A

Continuar a ler

A minha filosofia

O que eu vejo é o que É. Quem não me conhece do dia-a-dia julga, erradamente, que o meu mundo é o das palavras e ideias. Mas não, amigos, não – tal impressão vossa é uma ilusão criada por este meio palavroso em que nos roçamos uns nos outros. Porque eu não me passeio com uma máquina fotográfica por todo o lado a fixar o que vejo para a eternidade, então resta-me falar e escrever. Fotografo com o que posso, as palavras. Descrevo como sei. Tivesse eu jeito para fotografar, isto é, para apontar e “ver”, como certas pessoas que conheço, e eu juro-vos que já teria comprado uma Leica das pequenas e poria a summicron a botar fogo. Mas assim não. Tenho vergonha, encolho-me. O que por aqui fui fixando no dia de hoje foi aberrante, excepcional, o resultado de uma vagabundagem matinal e ociosa pelas modestas ruas e vielas de Sabrosa, à espera de algo que o ar fresco fazia anunciar e que eu não sabia muito bem o que seria.

Mas o que eu vejo, repito, é o que para mim É. O ser revela-se-me nas coisas visíveis e concretas, nas formas, nos volumes, nas sombras, nas cores, nos contornos do que se mostra e do que se oculta. Uma árvore, por exemplo, “é” porque se ergue contra a pesadume e nos revela o eixo vertical do mundo. Uma parede “é” também, tal como uma árvore “é“, mas é de um “ser” diferente, que eu talvez caracterize como residindo na sua dureza, na sua opacidade, nas cicatrizes que colecciona na quase eternidade da sua persistência imóvel, na rudeza da textura que nos mostra, nos limites que impõe ao espaço, e finalmente, mas não derradeiramente, no convite que nos faz a que a contornemos e vejamos o que está do outro lado. Do SEU outro lado, note-se, um lado que não existiria se não fosse por ela. E, do mesmo modo, “são” as ruas das aldeias e das cidades, e são-no com um modo de ser particularmente intenso e peremptório, porque é nelas que se juntam as nossas vidas todas, as nossas vidas tão diversas, as nossas vidas tantas, tão cheias de tudo e nada. Tão nossas, tão NÓS.

Por exemplo, olhai para esta fotografia. Reparai no bulício – sim, não vos estou a enganar – reparai no bulício das pessoas que não se vêem, mas que estão lá, ainda que invisíveis, nas pessoas que passaram por lá há um instante atrás, e que a câmara fotográfica se atrasou a registar, ou que irão estar lá não tarda nada, nas pessoas que, em suma, estão realmente lá, como sabeis muito bem e vedes claramente, nas pessoas que nunca lá deixarão de estar, porque este é um lugar ocupado e não deserto, um lugar constantemente cruzado por gente. Um lugar vivido. Reparai depois na sua complexidade, na sua complicação, no seu caos tão anti-Le Corbusier, tão real e tão autêntico, e não meramente ficcional como o daquele, reparai nos diferentes níveis, nos múltiplos planos, nas distâncias e nas proximidades, nos pequenos recantos, nas curvas, nas protuberâncias, nas alturas e nas baixezas, no próximo e no distante, no aqui e no acolá, no luminoso e no sombrio. E reparai também nos humildes objectos utilitários, na quinquilharia urbana enfim, nos sinais de trânsito, no candeeiro, na antena de televisão, na caixa de electricidade na parede junto à ombreira de pedra da porta, no fio agressivo da EDP que sobrevoa a rua e liga, de certa maneira, as casas entre si.

Isto é o que existe para mim, isto é o SER. Esta é a minha filosofia. E cabe, pobre dela, numa simples foto.

IMG_4125

Sobre a América

Na sua obra L’Ère du Consommateur (Cerf, 2011) o escritor francês Laurent Fourquet analisa a época contemporânea a partir da sua Figura central, o Consumidor. Esta substitui a que fora a figura dominante na época imediatamente anterior, o Trabalhador, celebremente descrita há quase um século atrás pelo filósofo e romancista alemão Ernst Jünger (ver, por exemplo, O trabalhador: domínio e figura, Hugin, 2000 [1932]). Uma FIGURA historial, como o Cavaleiro medieval, o Burguês do século XIX, o Trabalhador da primeira metade do século XX, ou o Consumidor contemporâneo, não deve ser entendida como um tipo de ser humano concreto e particular, susceptível de ocorrer com maior ou menor frequência ao longo da história, como o são os tipos humanos descritos pela ciência psicológica ou recortados por uma função económica ou laboral. A Figura, contrariamente a estas possibilidades humanas acidentais, é uma entidade ontológica, isto é, uma FORMA (Gestalt) que representa a essência própria do Homem em cada época histórica. Deste modo, o Consumidor não é apenas um (qualquer) ser humano que, por causa das exigências da condição biológica, acontece também consumir. Neste sentido estrito — o de consumidor como sendo aquele que consome — todos os seres humanos são, por definição, consumidores. Ao invés, o Consumidor de que trata Fourquet é, por destino metafísico, o Consumidor, uma certa entidade que emergiu recentemente na História e se instala, a partir de si mesma e para si mesma, no Consumo como única possibilidade de ser, com exclusão de todas as demais possibilidades. O Consumidor consome, e este é o seu destino.

Vem isto a propósito de uma curta passagem em que Laurent Fourquet descreve, de forma breve mas exacta, o que separa a América (quer dizer, os Estados Unidos) da Europa nesta dimensão fundamental.

O livro foi escrito, recorda-se, em 2011. A transcrição apresentada está no francês original. Continuar a ler

Igor Shafarevich – O Fenómeno Socialista

11shafarevich-obit-superJumbo

Igor Shafarevich (1923-2017) foi um matemático e filósofo russo, e uma figura destacada do movimento de contestação ao comunismo soviético. Participando, ao lado de Soljenítsin, Sakharov, Yanov e outros, no movimento Samizdat, Shafarevich é sobretudo conhecido, para além das suas obras de matemática, por dois importantes ensaios de filosofia política: Russofobia, em que procurou analisar o ódio à Rússia por parte dos intelectuais russos que procuravam a modernização do país, e entre os quais se encontravam muitos dos seus companheiros da Samizdat, e O Socialismo como Fenómeno da História Mundial, uma tentativa de compreender a essência do socialismo, não apenas na sua encarnação mais recente, a da União Soviética marxista, mas ao longo da História. Esta essência encontra-a Shafarevich na “pulsão da morte”, no desejo de aniquilação do humano que está presente no pensamento e na praxis de algumas das mais destacadas figuras da história política e intelectual da humanidade e que, segundo ele, anima igualmente, ainda que de uma forma subterrânea e inconsciente, as multidões que o entusiasmo revolucionário acomete periodicamente. No caso do fenómeno socialista propriamente dito, esta “pulsão da morte” manifesta-se especificamente na vontade de destruir a individualidade humana. O indivíduo é, enquanto lugar do Ser e da liberdade a que o Ser obriga, o grande obstáculo à realização do Nada, e portanto, o obstáculo que deve ser eliminado para se extinguir o sofrimento e a dor da existência. Tal é a pretensão do Socialismo. E tal é a sua essência.

Continuar a ler

¿Masculino o Femenino?

Como prometido, aqui se apresenta o artigo que o filósofo José Ortega y Gasset publicou no jornal El Sol no Verão de 1927 sobre o tema em epígrafe.

000420830W

¿MASCULINO O FEMENINO?

I

No hay duda que nuestro tiempo es tiempo de jóvenes. El péndulo de la historia, siempre inquieto, asciende ahora por el cuadrante «mocedad». El nuevo estilo de vida ha comenzado no hace mucho, y ocurre que la generación próxima ya a los cuarenta años ha sido una de las más infortunadas que han existido. Porque cuando era joven reinaban todavía en Europa los viejos, y ahora que ha entrado en la madurez encuentra que se ha transferido el imperio la mocedad. Le ha faltado, pues, la hora de triunfo y dominio, la sazón de grata coincidencia con el orden reinante en la vida. En suma: que ha vivido siempre al revés que el mundo y, como el esturión, ha tenido que nadar sin descanso contra la corriente del tiempo. Los más viejos y los más jóvenes desconocen este duro destino de no haber flotado nunca; quiero decir de no haberse sentido nunca la persona como llevada por un elemento favorable, sino que un día tras otro y lustro tras lustro tuvo que vivir en vilo, sosteniéndose a pulso sobre el nivel de la existencia. Pero tal vez esta misma imposibilidad de abandonarse un solo instante la ha disciplinado y purificado sobremanera. Es la generación que ha combatido más, que ha ganado en rigor más batallas y ha gozado menos triunfos.[1]

Continuar a ler

Juventud

Em Junho e Julho de 1927, o filósofo espanhol José Ortega y Gasset publicou no jornal madrileno El Sol dois breves ensaios, o primeiro sobre as épocas juvenis (isto é, as que privilegiam as primeiras idades do ser humano – infância e juvenilidade – sobre a maturidade e a velhice) e o segundo sobre as épocas femininas (que se organizam em torno dos valores femininos). Porque me parece que a nossa época é juvenil e (começa a ser) feminina, parece-me de inegável interesse recordar aqui estes dois textos. O primeiro, sobre a juvenilidade (e puerilidade), pode ler-se em baixo. O segundo, relativo à polaridade masculino/feminino, será disponibilizado em breve.

OrtegayGasset2

JUVENTUD

I

Las variaciones históricas no proceden nunca de causas externas al organismo humano, al menos dentro de un mismo período zoológico. Si ha habido catástrofes telúricas – diluvios, sumersión de continentes, cambios súbitos y extremes de clima –, como en los mitos más arcaicos parece recordarse confusamente, el efecto por ellas producido trascendió los límites de lo histórico y trastornó la especie como tal. Lo más probable es que el hombre no ha asistido nunca a semejantes catástrofes. La existencia ha sido, por lo visto, siempre muy cotidiana. Los cambios más violentos que nuestra especie ha conocido, los períodos glaciales, no tuvieron carácter de gran espectáculo. Basta que durante algún tiempo la temperatura media del año descienda cinco o seis grados para que la glacialización se produzca. En definitiva, que los veranos sean un poco más frescos. La lentitud y suavidad de este proceso da tiempo a que el organismo reaccione, y esta reacción dentro del organismo al cambio físico del contorno, es la verdadera variación histórica. Conviene abandonar la idea de que el medio, mecánicamente, modele la vida; por lo tanto, que la vida sea un proceso de fuera a dentro. Las modificaciones externas actúan sólo como excitantes de modificaciones intraorgánicas; son, más bien, preguntas a que el ser vivo responde con un amplio margen de originalidad imprevisible. Cada especie, y aun cada variedad, y allí cada individuo, aprontará una respuesta más o menos diferente, nunca idéntica. Vivir, en suma, es una operación que se hace de dentro a fuera, y por eso las causas o principios de sus variaciones hay que buscarlos en el interior del organismo.

Continuar a ler