Olavo de Carvalho sobre a Elite Globalista Opressora (EGO)

Em 2011, Alexandr Dugin e Olavo de Carvalho mantiveram uma conversa/debate sobre um tema candente, o de “quem manda hoje no mundo?” (Ortega y Gasset). O título oficial do debate foi “The United States and the New World Order”. Ao longo desse ano, os dois autores escreveram alternadamente sobre o assunto, respondendo às alegações e aos argumentos do outro. O resultado final deste debate, que se realizou em inglês, está disponível em http://debateolavodugin.blogspot.com.

Deste debate, transcrevo a seguir, na tradução portuguesa (que suponho ser a de Giuliano Morais e Ricardo Almeida, os organizadores e mediadores do debate), uma pequena parte da contribuição de Olavo de Carvalho, precisamente a parte onde ele procura caracterizar o que chama O Consórcio – e que eu designo no título deste post “Elite Globalista Opressora” (EGO) – e a sua relação com os outros poderes mundiais, e em especial com a Rússia, tanto na sua manifestação soviética, como nos seus prolongamentos actuais.

O interesse destas páginas é evidente. Para além da leitura do excerto, que aqui apresentamos, do saudoso filósofo brasileiro, fica o convite para lerdes o debate na sua totalidade. Vale a pena.


§ 3. O Consórcio

[…] A elite globalista não é apenas uma vaga classe social de capitalistas e banqueiros. É uma entidade organizada, com existência contínua há mais de um século, que se reúne periodicamente para assegurar a unidade dos seus planos e a continuidade da sua execução, com a minúcia e a precisão científica com que um engenheiro controla a transmutação do seu projeto em edifício.

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O Futuro já chegou

Achais que não se pode prever o futuro? Que o dom da profecia foi uma superstição de rústicos da idade do bronze? Que o Espírito se calou de vez e Deus já não sussurra aos ouvidos dos seus o que Ele quer que os homens saibam? Que já não há Verdade?

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Então lêde esta passagem de Dostoievski, escrita em 1881. O Inquisidor fala com Cristo e descreve-lhe com minúcia exacta o que hoje está a acontecer. E o que vem aí, a galope, pela mão dos zeladores da humanidade, os Grandes Humanistas, o Concílio da Bondade Universal, os Cientistas e os Crentes da Igreja do Bem, o Papa da Roma Pachamama, os Oficiantes da Grande Obediência, os oráculos da Razão Universal, os zurzidores da Superstição e da Diferença, os perseguidores da Matemática, da Metafísica e de Mozart, os promotores da Felicidade e da Segurança e da Igualdade e da Indistinção. E esta vai finalmente estender-se por toda a terra, como um caldo morno e confortável, e o milénio durará exactamente mil anos. Continuar a ler

O Bom Carniceiro

Exposta à contemplação universal a governação desmedida de Estaline, os ideólogos têm defendido o comunismo imputando àquele, e não a este, a carnificina. Estaline seria um caso anómalo, face ao qual os apologistas erguem, como exemplo contrastante, a benevolência de Lenine, o piedoso.

Hélas, Lenine não resiste à prova dos números.

Jacques Baynac, ele mesmo um marxista francês, socialista libertário, editou em 1975 um interessante livro sobre o Terror no tempo de Lenine  a que chamou, para o distinguir do Terror Estalinista, o Primeiro Terror. Na introdução da obra, Baynac apresenta um cálculo aproximado das mortes perpetradas por Lenine e pelo Partido Bolchevique no breve período de dezanove meses e meio entre 1918 e 1920. O resultado é um número que excede, em média, o das execuções e liquidações de Estaline.

Tanto pior para Lenine.

Baynac, como bom marxista, quer pôr Marx a salvo deste vórtice contabilístico. Na nossa opinião, estes números estão já contidos em potência no Das Kapital. Mas esta é matéria para outras conversas. Fiquemo-nos para já apenas com a contabilidade sinistra do Santo Fundador da Revolução Russa.
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O Padrão Real

Não mais, Musa, não mais, que a Lira tenho
Destemperada e a voz enrouquecida,
E não do canto, mas de ver que venho
Cantar a gente surda e endurecida.
O favor com que mais se acende o engenho
Não no dá a pátria, não, que está metida
No gosto da cobiça e na rudeza
Duma austera, apagada e vil tristeza.

Luís Vaz de Camões, Os Lusíadas, X – 145.

 

E no entanto nem sempre foi em Portugal esta apagada e vil tristeza. Em Março de 1502, informa-nos João de Barros nas suas Décadas da Ásia, reuniu o rei Dom Manuel um conselho de homens bons do reino para discutir a nossa política do Oriente. Tinham-se então concluído duas viagens à Índia: a original de Vasco da Gama, em 1499, e a de Pedro Álvares Cabral, em 1501. Esperava-se em Lisboa a volta de uma terceira, capitaneada por João da Nova, e preparava-se uma nova viagem de Vasco da Gama, poderosa de vinte navios. O conselho convocado pelo rei realizou-se na Casa da Guiné e da Índia, em cujo salão maior se podia contemplar o Padrão Real, um enorme mapa mundi que era continuamente actualizado à medida que os navegadores chegavam a Lisboa com nova informação. O Padrão Real continha o melhor conhecimento geográfico e humano então disponível, e era guardado dia e noite por homens armados. Só algumas pessoas de confiança do rei e os navegadores que partiam para novas expedições o podiam consultar. Continuar a ler

O Mal

Escrito há oitenta anos, e só verdadeiramente compreendido nos tempos que correm. E não é apenas sobre o nacional-socialismo, mais conhecido hoje em dia por nazismo, ou sequer sobre as demais religiões políticas, como o islão, o comunismo e as numerosas declinações quiliásticas de cariz socialista que se apresentam sob figuras mais benignas. É também, e sobretudo, sobre essa forma suprema de religião política maligna, que se chama Humanismo. Não sei se durará mil anos.

“Existe hoje um tipo ideal de intelectual politizante que manifesta a sua profunda aversão pelo nacional-socialismo baseando-se em poderosos juízos éticos; vê a sua tarefa e o seu dever na condução da luta por todos os meios literários de que se dispõe. Coisa de que também eu sou capaz: a minha rejeição por qualquer forma de colectivismo político pode encontrar-se, por quem souber ler, no verso de Dante colocado no início do estudo (1); e eu poderia facilmente revelar a amplitude da minha reserva de expressões, mais ou menos rebuscadas, a tal condenação. Mas que eu não me permita expô-la, no quadro destas efusões politizantes contra o nacional-socialismo diante de um grande público, tem as suas razões — numerosas razões. Não posso aqui aflorar senão uma delas, assaz essencial.

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A execução da Marquesa de Távora

Na sua obra Perfil do Marquês de Pombal, publicada em 1882, Camilo Castelo Branco descreve a execução pública de Dona Leonor Tomásia de Lorena, a terceira marquesa de Távora. Camilo simpatiza com Leonor, de quem diz que era “gentilíssima, d’um talento extraordinário, muito lida, uma verdadeira distinção na corte de D. João V”. Leonor é a primeira vítima do tenebroso processo dos Távora, uma família nobre que, por despeito do Marquês de Pombal e conveniência do rei Dom José, é executada em público com requintes de uma malvadez que Pombal desejaria exemplar. Camilo não perdoa a Pombal os crimes que comete e os vícios que o apoucam. A descrição que vão ler a seguir é uma peça que, embora breve, é extraordinária.

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A aurora do dia 13 de janeiro de 1759 alvorejava uma luz azulada do eclipse daquele dia, por entre castelos pardacentos de nuvens esfumaradas que, a espaços, saraivavam bátegas de aguaceiros glaciais. O cadafalso, construído durante a noite, estava húmido. Continuar a ler

Hoje, é tudo de ontem.

Hoje, dia da liberdade, levanto-me um pouco mais tarde do que o habitual. Na sala, o senhor Henrique folheia com ar melancólico os impressos publicitários dos supermercados. Um deles, de pneus, parece despertar-lhe a atenção. “Não saíste para ir até ao café?”, pergunto-lhe. “Não, está a chover desagradavelmente e além disso o senhor Carlos está fechado.” O senhor Carlos é o dono da Casinha do Chocolate, onde o meu pai toma o seu pingo directo todos os dias, de manhã e depois do almoço, e onde tagarela com os sobreviventes. Aparentemente, sempre fiel aos princípios de economia rural transmontana, o senhor Carlos, que é de Ferreiros, não abriu hoje, talvez para poupar a (e na) empregada.

cravo

Na televisão da sala discursa o Presidente do Partido Socialista e segunda figura do país, o Doutor Carlos César. De cravo na lapela, ventre já um pouco arredondado, exalta neste momento a revolução, a memória – Mnemosine, a deusa grega do recolhimento e dos sinos – e as virtudes da democracia e da liberdade. Olhamos uns segundos para aquilo, apreciando o sotaque ilhéu do prócere, o seu fato às riscas de belo corte, os arranjos de flores vermelhas, a câmara de televisão que percorre em plano médio os rostos orgulhosos dos deputados das bancadas democráticas. “Vou fazer o almoço,” diz por fim o senhor Henrique, levantando-se do sofá. “Já?”, inquiro. “Ainda nem são onze.” O meu pai nem se digna responder. O almoço é uma coisa que se vai fazendo, eu já devia saber isso. Não há pressas para o meu pai. “Que vamos comer hoje?”, insisto, provocador. “Não sei, vitela estufada. Ou rancho.” “Hoje o rancho parece-me mais adequado,” concluo.

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England

Estes são uns dias complicados para os ingleses (e para os restantes habitantes das ilhas — os irlandeses, galeses e escoceses — mas estes são aves de diferentes penas, como por lá se diz). Quero por isso prestar-lhes uma singela homenagem, a minha forma de lhes desejar a melhor sorte deste mundo.

Os ingleses são um povo singular, que mostrou ao longo da sua história uma coragem, uma nobreza, uma capacidade de trabalho e uma inteligência indiscutíveis. É verdade que hoje, infelizmente, já não é assim, uma consequência triste do gradual apodrecimento da estirpe, um processo que vemos ocorrer também no resto do continente. Mas que importa! É dos ingleses que falamos: que possam ir buscar, na reserva mais antiga do seu ser, as energias necessárias para ultrapassar a provação!

John of Gaunt, Duke of Lancaster (1340-99) (tempera on panel)

O texto seguinte — a minha forma de os homenagear — é parte de um discurso que ocorre no acto segundo, cena primeira, da peça Ricardo II, de Shakespeare. Fala João de Gaunt, duque de Lencaster, tio de Ricardo II e pai de Filipa de Lencastre, esposa do nosso rei Dom João I. João de Gaunt é, assim, o avô materno dos membros da nossa ínclita geração. Na imagem acima vemo-lo pintado por Lucas Cornelisz. A inscrição refere Gaunt como rei de Castela e Leão, uma pretensão que ele tentou fazer valer em frustrada campanha militar por terras de Galiza, com um exército formado por ingleses e portugueses. Correu mal. O outro candidato e seu adversário militar, João de Trastámara, um aragonês conhecido entre nós por João I de Castela, haveria de ser desfeiteado, não muitos anos depois, pelo seu (e nosso) homónimo em Aljubarrota. Uma revancha apropriada. Continuar a ler

Pisa

André Suarèz, o magnífico escritor francês, nascido judeu Isaac-Félix, em Marselha, em 1868, de quem se disse — e não creio haver aqui um exagero — possuir a cadência e a solenidade séria e meditada da prosa de Pascal, tem um apelido português. Nunca foi, que eu saiba, traduzido ou editado na língua de Camões. Enfim. Pela minha parte gostaria de o saber descendente ou pelo menos familiar do seu homónimo, o grande arquitecto bracarense André Soares. E talvez seja.

Suarèz foi toda a sua vida um apaixonado por Itália, que visitou a pé e em viaturas e carroças várias por diversas vezes. Destas andanças suas deixou-nos um dos mais exultantes livros de viagem que conheço, Voyage du Condottière, publicado em três volumes, entre 1910 e 1932. A segunda parte intitula-se Fiorenza. É sobre a cidade das flores (Florença) e o seu entorno toscano e úmbrico. No quarto capítulo desta segunda parte faz a descrição de Pisa, a cidade que Génova despojou, em momento surpreendente e imprevisível, da sua grandeza no dia 6 de Agosto de 1284.

E reza assim:
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A Árvore da Cocanha

Boa noite, jóias refulgentes da criação. Nesta madrugada de sexta em que, mandado Bruno em paz, nada acontece, convém talvez contar uns cabrititos saltando cercas pela pradaria. Um, três, treze, trinta e três. Ou, em alternativa, se a matemática não for o nosso forte, ocuparmo-nos com uma reflexão correcta e agudíssima. Seja por exemplo esta simples e modesta: já notaram que o Hugo Chavez foi bem melhor do que o Maduro? Tal como o Cunhal foi melhor do que o Jerónimo, e o Che foi melhor do que o Fidel, e este foi melhor do que o Raul, e o Kim-pai melhor do que o Kim-filho, e o Kim-filho melhor do que o Kim-neto, e o Lenine melhor do que o Trotsky, e este último melhor do que o Estaline, e o Mao Tse-Tung melhor do que …. bom, do que a mulher dele, qualquer que tenha sido o nome dela, talvez Yoko Ono? Há aqui – parece-me – neste fenómeno repetido e regular uma espécie de lei geral em acção, que talvez possamos resumir dizendo que, nos Paraísos Socialistas, o melhor acontece sempre no Princípio, o qual dá lugar a continuações um pouco menos boas e assim sucessivamente, de menos bom em menos bom, até à catástrofe final da instauração da ditadura do (super)mercado.

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