O Padrão Real

Não mais, Musa, não mais, que a Lira tenho
Destemperada e a voz enrouquecida,
E não do canto, mas de ver que venho
Cantar a gente surda e endurecida.
O favor com que mais se acende o engenho
Não no dá a pátria, não, que está metida
No gosto da cobiça e na rudeza
Duma austera, apagada e vil tristeza.

Luís Vaz de Camões, Os Lusíadas, X – 145.

 

E no entanto nem sempre foi em Portugal esta apagada e vil tristeza. Em Março de 1502, informa-nos João de Barros nas suas Décadas da Ásia, reuniu o rei Dom Manuel um conselho de homens bons do reino para discutir a nossa política do Oriente. Tinham-se então concluído duas viagens à Índia: a original de Vasco da Gama, em 1499, e a de Pedro Álvares Cabral, em 1501. Esperava-se em Lisboa a volta de uma terceira, capitaneada por João da Nova, e preparava-se uma nova viagem de Vasco da Gama, poderosa de vinte navios. O conselho convocado pelo rei realizou-se na Casa da Guiné e da Índia, em cujo salão maior se podia contemplar o Padrão Real, um enorme mapa mundi que era continuamente actualizado à medida que os navegadores chegavam a Lisboa com nova informação. O Padrão Real continha o melhor conhecimento geográfico e humano então disponível, e era guardado dia e noite por homens armados. Só algumas pessoas de confiança do rei e os navegadores que partiam para novas expedições o podiam consultar. Continuar a ler

Imortalidade IV

Há qualquer coisa na Rua das Pedrinhas que faz dela a quintessência da famosa Bila. É uma via obscura, perfilada por casas ao abandono, como sentinelas carunchosas, um carreiro por onde passam, faça dia ou faça noite, divindades sepulcrais. O terrível Nyarlathotep e o seu Olho. A Caçada Selvagem, a Wilde Jagt, a Cavalgada de Odin, o som de ossos e de cascos de cavalos a bater no empedrado. Quando a percorro sinto sempre um calafrio. Continuar a ler

Soneto já antigo

Ontem à noite um amigo explicava-me que aquele orangista que tinha dito que nós, os portugueses, gastávamos o dinheiro que eles nos mandavam em putas e vinho verde até que tinha razão.

– A., disse eu depois de uma pausa, ele pode até ter razão (que não tem, apresso-me a acrescentar aqui). Mas há coisas que não se dizem.
– Verdade, verdade, repetiu o meu amigo, acendendo o octagésimo cigarro do dia. Ele há coisas que não se devem dizer.
– Mesmo que se pensem, disse eu.
– E que sejam verdade, confirmou ele.

A fachada de pedra do defunto Banco de Portugal, agora Qualquer Coisa Agrícola, olhou-nos com aprovação. Um cliente noctívago das francesinhas do Cardoso, que urinava os restos da cerveja no nicho do multibanco, também.

Subimos a rampa de São Pedro de regresso ao calor das nossas casas. Ao passar pela montra do Pai dos Pobres parámos por momentos a apreciar os produtos expostos.

– Não precisas de um porta-moedas, A.?
– Para quê?
– Sei lá. Podes precisar. As moedas tendem a cair para o forro do casaco pelo buraco dos bolsos.
– Melhor. De cada vez que viramos o forro, ficamos ricos.

E com esta metáfora da economia nacional nos fomos.

Imortalidade III

Fecharam-nos o café da Avenida, na nossa triste Bila. De repente, sem aviso prévio, sem nos darem tempo a protestarmos ou a procurarmos solução. Uma noite ele lá estava, como sempre, a generosa porta aberta, a televisão discreta à esquerda de quem entra, a empregada brasileira pronta a servir-nos o café com um copo de água bem gelada, as fotografias de oleiros espalhadas nas paredes, a lembrar-nos que a vida é dura e frágil como uma pichorra de loiça negra de Bisalhães. Na noite seguinte, a porta cerrada, sem uma nota explicativa. Fechado. Foi uma oferta irresistível, dizem-nos mais tarde; um café a menos, uma hamburgueria a mais.

Lagartixa

Para mim, não é demasiado grave, há mais dois cafés nas redondezas, com tv e futebol. Não fumo, posso encostar-me num qualquer lugar com uma reserva mediana de oxigénio e pouco barulho. Mas para o meu amigo A., que fuma compulsivamente — quatro maços de Marlboro em cada dia — faz toda a diferença. Andámos por ali umas noites vagabundas, sem achar um rumo, como marinheiros à procura de taberna em porto hostil. Lá acabámos por arribar a um, numa rua mais acima, onde estamos desde então. Mas não é a mesma coisa: ruidoso, com uma tv sempre a bombar a bola, uma música de blues repetitiva, que nos põe febris e pessimistas e desestimula a cavaqueira, clientes alienos, de outros tempos e de outras freguesias, e uma tiragem de fumos mais do que suspeita e que nos deixa os olhos irritados e a garganta áspera.

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Imortalidade II

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Em conversa nocturna com A., ao lado da Capela Nova. Queixamo-nos de dores em lugares exóticos da nossa anatomia. Já não é só no baixo ventre, como costumava ser. Agora é no baixo ventre do baixo ventre, como se houvesse em nós uma criança minúscula prestes a nascer e esta viesse ao mundo sofrendo de uma maleita irremissível. É esta pelo menos a minha teoria, que eu desfio contemplando aquela fachada veneranda, que viu gerações de vilarealenses ilustres, todos eles indispensáveis para si próprios, nascerem e morrerem sem sombra de lamento dos vindouros. E vou-me eclesiasticando deste modo, perante o olhar sarcástico do meu amigo.

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Pisa

André Suarèz, o magnífico escritor francês, nascido judeu Isaac-Félix, em Marselha, em 1868, de quem se disse — e não creio haver aqui um exagero — possuir a cadência e a solenidade séria e meditada da prosa de Pascal, tem um apelido português. Nunca foi, que eu saiba, traduzido ou editado na língua de Camões. Enfim. Pela minha parte gostaria de o saber descendente ou pelo menos familiar do seu homónimo, o grande arquitecto bracarense André Soares. E talvez seja.

Suarèz foi toda a sua vida um apaixonado por Itália, que visitou a pé e em viaturas e carroças várias por diversas vezes. Destas andanças suas deixou-nos um dos mais exultantes livros de viagem que conheço, Voyage du Condottière, publicado em três volumes, entre 1910 e 1932. A segunda parte intitula-se Fiorenza. É sobre a cidade das flores (Florença) e o seu entorno toscano e úmbrico. No quarto capítulo desta segunda parte faz a descrição de Pisa, a cidade que Génova despojou, em momento surpreendente e imprevisível, da sua grandeza no dia 6 de Agosto de 1284.

E reza assim:
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Salazares até ao fundo

Há nos arredores da Bila uma aldeia pequena e muito pobre onde se faz desde tempos imemoriais uma olaria de barro escuro. A aldeia chama-se Bisalhães. No dia de São Pedro, que é o dia 29 de Junho, faz-se uma feira na Bila onde se expõem e vendem, na rua fronteira à Capela Nova, os produtos da aldeia. É uma tradição local, sustentada por cada vez menos fabricantes. Restam hoje, dizem-me, não mais de meia dúzia. A Câmara, num esforço de apoio à actividade, dispôs há uns anos atrás uns espaços abarracados numa espécie de avenida à entrada da Bila (tudo é uma espécie de avenida na Bila), para quem vem do Porto (na Bila tudo vem do Porto), e onde os turistas podem comprar umas peças da famosa olaria negra. Dizem que ficam bem em cima de um armário de cozinha, a dar o toque de rusticidade num tête-à-tête nonchalante com a porcelana Qing. Coisa chique.

Bisa cópia

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Onde se fala de desgraças, mas de tal modo que o leitor não se sentirá – garante-se – ele mesmo desgraçado, antes esclarecido quanto ao verdadeiro sentido da existência

Como todos os hipocondríacos, o meu amigo A. tem uma saúde de ferro, embora esteja sempre doente ou em vias de adoecer. Estamos hoje sentados no nosso lugar habitual das noites de semana, na esplanada da Avenida, e olhamos para a fachada recuperada do Hotel Tocaio, agora transformado em Hospital. As letras brancas de néon, em maiúsculas de um neo-grotesco sem serifa, dirigem-se-nos numa demonstração de competência fria. Hospital da Luz, o adversário das trevas. A. fuma um dos muitos Marlboros com que diariamente desafia as Parcas, indiferente aos protestos da própria carteira e dos pulmões alheios. Já o alertei para o subsídio que ele assim oferece ao Repugnante Governo do Coiso, e até fizemos as contas, calculadora do telemóvel na mão: sejam cerca de três euros de imposto em cada maço, dez euros por dia, a passar. Quatro mil euros por ano, uns quarenta mil por década. “Podias comprar um Mercedes de tempos a tempos, só com os impostos do vício,” digo-lhe. “E dos bons, não dos já velhos, como os carros de praça que estão ali estacionados,” concluo com uma mão ondulante a apontar para o outro lado da avenida.

Carvalho A

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A minha filosofia

O que eu vejo é o que É. Quem não me conhece do dia-a-dia julga, erradamente, que o meu mundo é o das palavras e ideias. Mas não, amigos, não – tal impressão vossa é uma ilusão criada por este meio palavroso em que nos roçamos uns nos outros. Porque eu não me passeio com uma máquina fotográfica por todo o lado a fixar o que vejo para a eternidade, então resta-me falar e escrever. Fotografo com o que posso, as palavras. Descrevo como sei. Tivesse eu jeito para fotografar, isto é, para apontar e “ver”, como certas pessoas que conheço, e eu juro-vos que já teria comprado uma Leica das pequenas e poria a summicron a botar fogo. Mas assim não. Tenho vergonha, encolho-me. O que por aqui fui fixando no dia de hoje foi aberrante, excepcional, o resultado de uma vagabundagem matinal e ociosa pelas modestas ruas e vielas de Sabrosa, à espera de algo que o ar fresco fazia anunciar e que eu não sabia muito bem o que seria.

Mas o que eu vejo, repito, é o que para mim É. O ser revela-se-me nas coisas visíveis e concretas, nas formas, nos volumes, nas sombras, nas cores, nos contornos do que se mostra e do que se oculta. Uma árvore, por exemplo, “é” porque se ergue contra a pesadume e nos revela o eixo vertical do mundo. Uma parede “é” também, tal como uma árvore “é“, mas é de um “ser” diferente, que eu talvez caracterize como residindo na sua dureza, na sua opacidade, nas cicatrizes que colecciona na quase eternidade da sua persistência imóvel, na rudeza da textura que nos mostra, nos limites que impõe ao espaço, e finalmente, mas não derradeiramente, no convite que nos faz a que a contornemos e vejamos o que está do outro lado. Do SEU outro lado, note-se, um lado que não existiria se não fosse por ela. E, do mesmo modo, “são” as ruas das aldeias e das cidades, e são-no com um modo de ser particularmente intenso e peremptório, porque é nelas que se juntam as nossas vidas todas, as nossas vidas tão diversas, as nossas vidas tantas, tão cheias de tudo e nada. Tão nossas, tão NÓS.

Por exemplo, olhai para esta fotografia. Reparai no bulício – sim, não vos estou a enganar – reparai no bulício das pessoas que não se vêem, mas que estão lá, ainda que invisíveis, nas pessoas que passaram por lá há um instante atrás, e que a câmara fotográfica se atrasou a registar, ou que irão estar lá não tarda nada, nas pessoas que, em suma, estão realmente lá, como sabeis muito bem e vedes claramente, nas pessoas que nunca lá deixarão de estar, porque este é um lugar ocupado e não deserto, um lugar constantemente cruzado por gente. Um lugar vivido. Reparai depois na sua complexidade, na sua complicação, no seu caos tão anti-Le Corbusier, tão real e tão autêntico, e não meramente ficcional como o daquele, reparai nos diferentes níveis, nos múltiplos planos, nas distâncias e nas proximidades, nos pequenos recantos, nas curvas, nas protuberâncias, nas alturas e nas baixezas, no próximo e no distante, no aqui e no acolá, no luminoso e no sombrio. E reparai também nos humildes objectos utilitários, na quinquilharia urbana enfim, nos sinais de trânsito, no candeeiro, na antena de televisão, na caixa de electricidade na parede junto à ombreira de pedra da porta, no fio agressivo da EDP que sobrevoa a rua e liga, de certa maneira, as casas entre si.

Isto é o que existe para mim, isto é o SER. Esta é a minha filosofia. E cabe, pobre dela, numa simples foto.

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Les jeunes

Um texto do sempre arguto Theodore Dalrymple, escritor inglês que já vos apresentei por aqui. Desta vez é sobre o curioso hábito que os habitantes dos bairros periféricos das cidades francesas – les banlieues – têm de deitar fogo à propriedade alheia, e em especial aos automóveis. Vem isto a propósito da vitória futebolística da selecção francesa de futebol e das festanças subsequentes. Festejar é cada vez mais uma forma de exprimir o nosso íntimo, e o íntimo in, por assim dizer, é agora murder, como diria Leonard Cohen.

[O texto data de 2005]

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“Deixamos a nossa casa na France profonde enquanto continuam as revoltas nos municípios e nas cidades maiores. A exemplo de 95% da população, nada vimos de extraordinário: as banlieues são outro país, e lá as coisas são feitas de outro modo. Brincamos sobre a situação com os operários que fazem reparações na nossa casa; estamos certos de que, se as revoltas, por assim dizer, transbordarem e se derramarem sobre as áreas em que moram as pessoas boas como nós, as CRS (Compagnies Républicaines de Sécurité) ficarão contentes por fazer o que fazem tradicionalmente: descer o cassetete, com entusiasmo, sobre a cabeça dos outros.

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