Uma fábula

Era uma vez um porqueiro chamado Herr Junker. Junker tinha uma vara de porcos que mantinha na pocilga com os cuidados e os mimos necessários à melhor preservação. Poucos porcos morriam por incúria de Herr Junker, que dizia a quem por ali passava que a sua pocilga era a melhor das redondezas e que os fazendeiros vizinhos, como Mister Trumpter ou Gospod Porktin, tratavam mal os seus porcos e os deixavam entregues ao acaso e ao Deus dará. “Deus dará, percebem?”, dizia ele com uma piscadela de olho. “Deus dará. Mas aqui, na minha pocilga, não é Deus, mas os próprios porcos que decidem como são tratados. Claro que, meus amigos, sendo eles uns porcos, preferem a lama e a porcaria, mas quem sou eu para os contrariar? Eles são donos e senhores do seu próprio destino. Aqui não é ao Deus dará, mas sim e literalmente, ao Nós daremos.”

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Miragaia

Miragaia

A primeira narrativa ficcional escrita em português terá sido a Lenda de Gaia, ou Lenda do Rei Ramiro, a qual aparece em duas versões distintas nos livros de linhagens medievais portugueses. A primeira delas datará dos finais do século XIII e encontra-se no chamado Livro Velho. A segunda, cerca de um século depois, no Livro de Linhagens do Conde D. Pedro.

É, como podereis ler, uma estória de amor e morte, duas realidades que se entrelaçam permanentemente na vida humana, com a pertinácia dos dois irmãos dioscuri, e que adquirem nesta estória a forma particular da ferocidade possessiva do homem e da perversidade feminina que lhe corresponde.

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Porque é que eu sou feliz

Sabe-se que, em geral, as pessoas de direita são mais felizes que as de esquerda. Ainda hoje li um circunspecto artigo científico que o confirma. Imaginaria talvez o cidadão desprevenido o contrário, dada a enorme satisfação que o povo socialista tira da sua superior condição moral e que tende a exibir por ocasião de qualquer eucaristia. Mas isso, caro cidadão desprevenido, não é verdade. A verdade é que as pessoas de esquerda são incapazes de aprender com a experiência e, por causa disso, são constantemente desfeiteadas pelas circunstâncias e pelo mundo. E como se pode ser feliz num mundo que nos derrota e desilude?

Vem isto a propósito do ritual que todos os anos cumpro quando tenho uma aula inaugural com uma turma de futuros professores. Procuro saber quem são, de onde vêm, o que querem. Pergunto se ensinar é o seu sonho, se gostam de aprender, se este foi o destino que desenharam para si mesmos. Há uns meses atrás, numa turma de meninas que iam ser mestres-escolas, isto é, professoras do 1’ ciclo, como agora se diz, calhou falarmos de leitura e do plano nacional da mesma. De livros, enfim. E eu a querer saber:

— ‘E lêem muito?’

Silêncio geral, que uma jovem rompe, quase a medo, lá do fundo da sala onde se esconde.

— ‘Eu leio’, diz ela, visivelmente enrubescida pelo atrevimento.
— ‘E quantos livros por ano em média? Mais ou menos?’
— ’Uns três ou quatro.’
— ‘Nada mau,’ remato, para encorajar as hostes. ‘E vocês?’, pergunto para o resto da turma.

Silêncio de novo, desta vez a prolongar-se por incómodos momentos. Até que uma outra aluna, uma gorducha de cara redonda e que se fizera notar antes pelo destemor da sua pose, diz:

— ‘Eu não leio nada. Nem preciso de ler.’
— ‘Nada?’ ecoo, não fosse o caso de ter ouvido mal.
— ‘Nada’, confirma ela. ‘E não só não leio, como não gosto de ler. Não gosto, pronto. Há anos que não leio um livro.’
— ‘Mas assim,’ observo eu, ‘como pode ser professora? Como pode aprender para ensinar?’
— ’Não preciso de ler para ser professora. E boa professora.’ Há um tom de indignação na sua réplica, como se eu me estivesse a revelar ostensivamente obtuso, para além do que é normal num docente. ’Não vamos ensinar Camões ou Shakespeare aos meninos, pois não?’

[A menção de Shakespeare, apresso-me a esclarecer, não vão vocês pensar que a jovem sabia quem era o bardo de Stratford, fora motivada pela minha referência, minutos antes, ao drama de Romeu e Julieta, versão musical de Zeffirelli, que eu mostrara à turma numa pequeno clip disponível no Youtube.]

— ‘Talvez não, talvez sim,’ argumento eu. ‘Como podem saber o que será dito numa sala de aula daqui a uns anos? E se algum menino ou menina vos perguntar pelo drama amoroso de Romeu e Julieta? E se quiser saber quem foi Shakespeare, ou onde fica Verona?’
— ‘Nessa altura vamos ao google e ficamos logo a saber. Não é que isso seja importante, note.’

Olho para a moça e para as colegas que abanam a cabeça em concordância.

— ‘O que é importante é que tenha uma boa relação com as crianças. E que elas sejam felizes,’ conclui. ‘Vou ser uma grande professora. Não tenha dúvidas.’

Não tenho dúvidas. É por isso que sou feliz: porque não tenho dúvidas.

Nós, os vivos

São dez da manhã deste sábado, dia 15 de Agosto, dia santo de nossa senhora. Estou no mini-mercado do bairro, numa pequena fila junto da caixa, à espera para pagar meia dúzia de carcassas de pão pré-embalado. Dois lugares à minha frente está uma cadeira de bebé, onde um pequeno ocupante de pouco mais de um ano me fita com uma cara redonda e pensativa. Um outro miúdo, mais velho, perfila-se ao lado da cadeira, em posição de guarda relutante. A mãe, uma mulher com aspecto pesado e com aquela rotundidade de figura que resulta das gravidezes repetidas, anda pelas prateleiras próximas a escolher vitualhas de última hora, um olho nas prateleiras, o outro nos petizes.

Quando eu entrara no mercado, apenas um minuto antes, ouvia-se nele uma choradeira miudinha e pertinaz, naquela mistura de gemido de gato e de toque de sirene que os bebés utilizam para exigir nem eles sabem bem o quê. Como a cadeira estava de costas para a entrada, eu não vislumbrara inicialmente o seu ocupante. Mas um senhor inclinava-se em genuflexão imperfeita diante da cadeira, agitando a centímetros da cara do bebé um punho fechado e dizendo: ‘olha que levas, olha que levas’, uma expressão de divertimento mal disfarçado a escorrer de um rosto escuro e enrugado. Olha que levas. O irmão mais velho em expectativa. A mãe, noto-o depois, pergunta ao senhor do punho fechado pelas latas de grão-de-bico. ‘Que queres, ein?, olha que levas! Na outra prateleira, dona Paula, aí em baixo, à sua esquerda.’ O miúdo cala-se.

Mas isso foi há uns instantes atrás. Estou agora na fila diante da caixa, o saco de pão na mão, o bebé na cadeira à minha frente inclinando a cabecinha, olhando para mim, a expressão fechada e impassível. Outra mãe aproxima-se, empurrando, não uma cadeira, mas um carrinho com cobertura de fole, e nele um bebé de meses embrulhado em mantas, os olhos bem despertos. A fila reorganiza-se obediente, abre um espaço, a mamã recém-chegada estaciona o carrinho junto à cadeira, as duas mulheres, que imagino amigas ou vizinhas, ambas inchadas pelo esforço de maternidade, conversam em voz baixa, a da cadeira paga as mercearias, a outra esforça-se por abrir um porta-moedas no meio de uma confusão de sacos de plástico, de guizos e de apetrechos de bebé.

De onde estou, tenho uma visão frontal e desempedida dos dois pequenos espécimes humanos que me olham. Há um cheiro de vómito, ao mesmo tempo acre e doce. Olham-me com grandes olhos, sem uma ruga, sem um piscar de pálpebras. Olham-me e eu olho-os. Passam-se segundos. O tempo espessa-se como uma baba grumosa e branca. Vem dos seus olhos, dos seus rostos, das suas pequeninas bocas rosadas, na minha direcção.

Há um número infinito de possíveis seres humanos que nunca nasceram e nunca nascerão. Felizes por isso, para além do que os vivos podem imaginar. Com a sorte de não serem. Não é o caso destes dois, no seu carrinho, na sua cadeirinha. Ou da meia dúzia de adultos que se aglomeram à volta da caixa nesta pequena mercearia de bairro. Nós, e estes bebés acabados de chegar à existência, estamos aqui, feitos, existentes, sem recurso e sem possibilidade de voltar atrás. Sofredores. Estamos aqui, para além da remissão.

A vida é um mar de sofrimentos, um oceano a perder de vista de males e de torturas, apenas percorrido de onde em onde por prazeres espasmódicos e evanescentes. Lembro-me do dito talmúdico que Freud cita algures: “a vida é tão terrível que seria melhor não ter nascido. Mas quem tem essa sorte? Nem um só, ai de nós, entre cem mil.” O meu lamento por aquelas duas criaturas, prístinas e inocentes, quase me afoga. Pago os pães, sem reparar no que faço, sem querer saber do troco. Cá fora, no passeio, as duas mamãs reorganizam-se, afastam-se em conversa, ignaras do pecado terrível de que foram cúmplices.

Eu, pela minha parte, atravesso a rua em grandes passadas. Viro para sul. Caminho e ranjo intimamente, alheio ao sol que se derrama sobre mim e sobre os vivos, ao sol glabro como a cabeça e a pele de um bebé, ao sol que se ri, em silêncio e como que para dentro, de uma bela piada, insana, cheia de som e fúria, significando nada.

Coros do bucho do tempo

Um avistamento francês de um vrykolakas em Dezembro de 1700 na ilha de Mykonos

Um avistamento francês de um vrykolakas em Dezembro de 1700 na ilha de Mykonos

Joseph Pitton de Tournefort (1656-1708), foi um botânico francês do século XVII. Nascido em Aix-en-Provence, antiga capital histórica da Provence, viu a sua carreira académica culminar no Collège Royal, em Paris, com a cátedra de medicina e botânica, carreira essa que foi infeliz e prematuramente interrompida por um atropelamento fatal por uma carroça na rue Lacépède, nas proximidades do Jardin des Plantes. Corria o dia 16 de Abril de 1708, tinha o nosso autor apenas 52 anos de idade e uma saúde de ferro.

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Almoço público

Estou hoje numa cantina de um serviço público a almoçar com duas colegas. O serviço é lento, a oferta é escassa. Como seria de esperar, a funcionária na máquina engana-se no troco, a favor da casa. É parente de outra a quem eu pedi em tempos um alperce de pêssego e que removeu mundos e fundos para me fazer a vontade. Esta, hélas, não sabe fazer nem vontades nem contas.

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Um soneto de Shakespeare

Como um dia de Verão direi — talvez — que és?
Mas tu és mais bela que ele e mais temperada:
O vento de Maio aos botões florais sacode os pés,
E o vero Estio tem um prazo curto e chega a nada:

Às vezes de calor extremo nos aflige o sol na altura,
E outras demais vezes sua cor d’oiro empalidece;
E seco fica o que antes fresco já não tem frescura,
Que no ramo a lei errante ou o azar da sorte esquece;

Mas sem termo será o teu eterno Verão
Nem a frescura ninguém verá que perdes;
Nem se gabará a Morte de te ter na mão,

Quando em eternas linhas pelo tempo cresces:
Enquanto os homens vivam e os olhos possam ver,
Enquanto este amor exista, e ele te dê o ser.

(William Shakespeare, soneto 18. Tradução de José Costa Pinto)

A Coisa

[Um texto de Desidério Peixoto, escrito à hora do almoço numa tasquinha do Bairro Alto, num dia cinzento de Inverno]

Dou-lhe este nome, à falta de outro melhor. Poderia chamar-lhe repulsa, ou fuga, ou recusa, ou medo, ou abafação, ou, o que seria porventura o mais próximo dos nomes, estranheza. Mas a verdade é que a Coisa não é nenhum deles, tendo ao mesmo tempo um pouco da cada um, numa mistura que é diferente e mais do que a soma de todos.

Conheço a Coisa desde tempos imemoriais. Desde que as mulheres, então simples raparigas, começaram a ser algo de especial para mim, e não apenas pessoas comuns na paisagem ordinária, que a Coisa me visita com regularidade. Chega sem aviso prévio, sempre rápida e de forma decisiva. Limpa, como um cirurgião do coração que corta com a consciência da delicadeza e da necessidade do golpe. A Coisa, um bisturi do sentimento.

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Dia de reflexão eleitoral

Terá sido do almoço pesado uma carne assada com batatas a estalar ou então  pensou ele com um sorriso breve do vinho tinto da Sónia sim mais provavelmente do vinho a Sónia tem artes de meter o fogo e a terra dentro de uma garrafa mesmo sem rótulo. Mas a verdade é que deu por si a pensar muito lentamente os pensamentos escorrendo como mosto sentado na poltrona de vime na varanda das traseiras da casa a cabeça recolhida do sol apesar de tudo ainda quente neste final de setembro e uma levíssima brisa que descompunha os ramos das duas tílias e lhe acariciava os braços como se fossem as pontas dos dedos da mulher mas às três da tarde ela não faz isso não tem tempo para se sentar anda a esta hora ocupada com as outras mulheres têm todas tanto que saber das filhas das amigas quase tudo filhas só um rapaz solitário e algo descompensado no meio daquele gineceu não admira que o rapaz bata mal da bola pensou ele mas de qualquer modo a mulher não estava por ali era só ele as tílias os feixes grossos da luz solar a passar por entre os ramos e pelos intervalos das nuvens e dos toldos o vento e a vaga sensação que caía como uma toalha de torpor de que se fechasse os olhos teria uma revelação sobre a natureza da alma. Não propriamente da sua que é coisa de pouco interesse para ele mas da alma dos outros da alma dos homens das mulheres e das crianças. E dos velhos.

E depois de o sol traçar em silêncio um ângulo de quase 35 graus sobre a abóbada azul pintalgada de branco a mulher veio e acordou-o. Já sei para quem vai o meu voto disse ele de rajada e estremecendo discretamente. Para quem perguntou ela com um elevar de voz e de sobrancelhas característico. Não há novidade nisto neste erguer de tom é bem sabido que ela não gosta de políticos e acha a actividade deles sempre suspeita como se os políticos fossem antigos mestres-escolas ignorantes e sebosos que tentassem perverter a pureza cristalina da matemática com aproximações de circunstância ou explicar a poesia com citações de artigos de jornal sobre jogos de futebol. Para quem repetiu ela mas sabendo que ele iria dizer uma qualquer inconveniência ou uma frase sarcástica e girando o seu corpo para olhar para as tílias e pensando aí vem uma das dele a ironia oblíqua e eu penso se estará a falar a sério mas nunca está. Nunca está. E voltou-se para olhar para ele.

Os olhos dele brilhavam com uma sugestão de água por sobre as bolsas rosadas das noites de insónia. E no silêncio súbito que entre eles se fez no silêncio apenas preenchido pelo assobio quase imperceptível da brisa que passava entre os ramos acastanhados e quase esquálidos das tílias ele disse devagar e com uma solenidade inusitada vai para ti. Para mim ecoou ela porquê para mim não me explicas. Porque sim respondeu ele por seres linda como só a a verdade o sabe ser. E perante a expressão fechada dela as rugas à volta da sua boca e na sua testa finas como cabelos subitamente encanecidos os cabelos que ela tantas vezes deixa cair descuidadamente sem paciência para ser mulher ela que é mãe quase o tempo todo a preocupação assaltou-o como se um punho se cerrasse sobre o coração de repente pensando que talvez o seu momento tivesse passado que talvez o destino tivesse deslizado sobre ele como aquele sol distante e indiferente que não quer saber que aquece mas apenas cuida de brilhar e ele tivesse adormecido sem dar conta. E do fundo do silêncio que o fitava nos olhos dela ele arrancou a custo e num sopro rouco quase inaudível um acaso nunca to disse.

Sim retorquiu ela mas não nos últimos tempos não há já muito tempo porquê agora. Uma nuvem passou sobre o sol e na penumbra que se fez ele disse porque não tinha tempo para reflectir. E hoje é dia de reflexão. Ainda bem respondeu ela e sorriu e de repente era mais nova e tinha trinta e cinco anos no máximo não mais do que isso não mais do que a idade do seu cartão de identidade ainda bem que reflectiste e vais votar. Odeio quem se abstém. Eu também disse ele mentindo. Mas só voto na verdade.

Um novo poema completo de Safo (poema Lobel-Page 58)

Ainda a propósito de Oxyrhynchus. Da abundante obra poética de Safo – nove volumes guardados na biblioteca de Alexandria – restam hoje um pouco mais de duas centenas de fragmentos, dos quais até há bem pouco tempo apenas um deles era um poema inteiro: o famoso Hino a Afrodite, o poema nº 1 da colecção de Lobel-Page. Além deste, existiam mais dois poemas quase completos, os fragmentos 16 e 31.

Em 2004, porém, uns fragmentos de papiro provenientes do invólucro cartonado de uma múmia egípcia, adquiridos pela Universidade de Colónia, foram identificados como contendo partes de um poema de Safo. Os académicos responsáveis não só procederam à identificação, mas associaram esses fragmentos a um papiro proveniente de Oxyrhyncus, o POxy 1787, e conhecido desde 1922 (ver Gronewald, M. e R. W. Daniel, 2004. “Ein neuer Sappho-Papyrus.” Zeitschrift für Papyrologie und Epigraphik 147:1–8). Este último tinha vários fragmentos de Safo, severamente mutilados e incompletos.

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