A caminho da feira

Pela estrada fora,
Toc, toc, toc,
Marcha o jumentinho,
a cenoira à frente,
Os donos atrás.

jumentinho

Que róseos
Os donos,
Sorrindo venais,
Mungindo cabritas,
E outras que tais.

E anhos, bezerros,
E ovelhas tenrinhas,
Em autos de fé,
Das vacas lustrosas
Sai leite cremoso,
A juntar ao café.

E bodes, sisudos,
E severos toiros,
Mas todos tão lindos,
Oh tão lindos todos,

Vestidos prá feira,
Com canga bastante,
Zurzidos lá seguem,
Pela estrada fora,
Pela estrada adiante,
Contentes e fartos,
Nesta procissão.

O vaqueiro xuxa
Colhe o leite quente,
O mel das abelhas,
A carne e o sangue,
Curte a pele do gado,
Faz sapatos belos,

Vai à televisão.

Sem Pernas

[Aqui coloco — ou recoloco, nem sei bem — um pequeno texto já conhecido de alguns, mas que a recente compita no partido socialista pelos despojos deste triste país trouxe à actualidade.]

 

boi

 

Há uns anos atrás fui ver, disfarçado de picnic com arroz de cabidela e umas garrafas de Quinta de Vale Meão, uma etapa de montanha da Volta a Portugal em bicicleta. Era nos arredores da bila, uma cavalgada de 150 km que culminava na Senhora da Graça e que tinha, pelo meio e com requintes de malvadez, uma subida interminável até à famosa aldeia de Lamas d’Olo. Montadas a mesa e as cadeiras articuladas à beira da estrada, comemos e bebemos, trocámos anedotas e ficámos à espera dos ciclistas. O nosso poiso era numa pequena ilha de erva a meia altura de uma recta íngreme, que escolhemos criteriosamente, não só pela sombra que oferecia, mas porque o local se anunciava como um calvário rasgador de pernas.

Uma hora depois, lá começam os homens a chegar, precedidos pela chinfrineira dos carros da imprensa e das motas velozes dos gnrs. Os atletas passam por nós em câmara lenta, resfolegando na agonia do esforço, primeiro dois ou três, depois mais meia dúzia, depois outra meia dúzia, depois umas duas dezenas (imagino que seriam o que a gíria benevolente chamaria de pelotão), depois desses uns pequenos grupos e finalmente duas ou três mãos cheias de ciclistas isolados, de olhar perdido nas arribas e olhando por cima do ombro para o ansiado carro vassoura.

O terceiro grupo a passar é de seis. Ao dobrarem a curva ao fundo da estrada são a imagem do desalento, mas vendo-nos ao longe, ou porque antecipam um borrifo de água fresca, ou uma mão a distribuir sandes de presunto, pedalam com mais energia. Sacodem-se, empertigam-se, parece que ganham velocidade. Pura ilusão, como descobrimos quando passam por nós. Nem uma brisa deslocam, no calor daquele fim de Julho.

O Sequeira, o Manel Carlos e as meninas estão a distribuir água e incentivos. Eu, uns dez metros mais acima, nada distribuo, medito na condição humana, a kodak esquecida na mão direita. Chegam a mim quase imóveis. Apiedado, digo: ‘ânimo, rapazes, a subida termina já ali em cima’. E aponto para o fim da recta, ao longe. Olhando para mim, um deles retorque alto e bom som, enquanto tira a mão do volante e ajusta o capacete de plástico: ‘Enganador!’.

Hoje, quando contemplo a desgraçada economia e a delapidada sociedade que somos, e penso nas ilusões políticas que persistem em nos tolher a bicicleta, enquanto lá longe, no extremo do mundo, outros se movem em carros velozes em direcção ao futuro, recordo essa palavra terrível.

ENGANADOR!