Onde se fala de desgraças, mas de tal modo que o leitor não se sentirá – garante-se – ele mesmo desgraçado, antes esclarecido quanto ao verdadeiro sentido da existência

Como todos os hipocondríacos, o meu amigo A. tem uma saúde de ferro, embora esteja sempre doente ou em vias de adoecer. Estamos hoje sentados no nosso lugar habitual das noites de semana, na esplanada da Avenida, e olhamos para a fachada recuperada do Hotel Tocaio, agora transformado em Hospital. As letras brancas de néon, em maiúsculas de um neo-grotesco sem serifa, dirigem-se-nos numa demonstração de competência fria. Hospital da Luz, o adversário das trevas. A. fuma um dos muitos Marlboros com que diariamente desafia as Parcas, indiferente aos protestos da própria carteira e dos pulmões alheios. Já o alertei para o subsídio que ele assim oferece ao Repugnante Governo do Coiso, e até fizemos as contas, calculadora do telemóvel na mão: sejam cerca de três euros de imposto em cada maço, dez euros por dia, a passar. Quatro mil euros por ano, uns quarenta mil por década. “Podias comprar um Mercedes de tempos a tempos, só com os impostos do vício,” digo-lhe. “E dos bons, não dos já velhos, como os carros de praça que estão ali estacionados,” concluo com uma mão ondulante a apontar para o outro lado da avenida.

Carvalho A

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