O Amante

Quando passou por lá, apenas por acaso, no regresso de ir buscar as miúdas à escola,
De as levar ao ballet, apenas por ser o negócio de que o marido era o dono, e onde trabalhava o amante,
Os seus olhares, quer dizer o dela e do amante, não o do marido, pareciam tão decorosos, tão distantes,
Mal tocando, apenas mal roçando, as suas asas ígneas, o seu rangido pensou ela tão bem abafado,
Que mais tarde, na imunda casa de banho das mulheres, na retrete, ficou horrorizada ao ouvir duas dactilógrafas,
Que vinham do escritório a rir-se deles, deles todos, o patrão, o marido dela, o “porco cego”,
Disse uma, e riu-se, e ela, “a puta levantada”, disse a outra, e ambas voltaram a rir-se,
“E ele, viste-o, esse santinho, esse bastardo mentiroso – até pensei que ele ia corar.”

C. K. WILLIAMS (1987)