Les jeunes

Um texto do sempre arguto Theodore Dalrymple, escritor inglês que já vos apresentei por aqui. Desta vez é sobre o curioso hábito que os habitantes dos bairros periféricos das cidades francesas – les banlieues – têm de deitar fogo à propriedade alheia, e em especial aos automóveis. Vem isto a propósito da vitória futebolística da selecção francesa de futebol e das festanças subsequentes. Festejar é cada vez mais uma forma de exprimir o nosso íntimo, e o íntimo in, por assim dizer, é agora murder, como diria Leonard Cohen.

[O texto data de 2005]

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“Deixamos a nossa casa na France profonde enquanto continuam as revoltas nos municípios e nas cidades maiores. A exemplo de 95% da população, nada vimos de extraordinário: as banlieues são outro país, e lá as coisas são feitas de outro modo. Brincamos sobre a situação com os operários que fazem reparações na nossa casa; estamos certos de que, se as revoltas, por assim dizer, transbordarem e se derramarem sobre as áreas em que moram as pessoas boas como nós, as CRS (Compagnies Républicaines de Sécurité) ficarão contentes por fazer o que fazem tradicionalmente: descer o cassetete, com entusiasmo, sobre a cabeça dos outros.

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O que é a Pobreza?

O que é a Pobreza?

Theodore Dalrymple publicou no City-Journal, na Primavera de 1999, um magnífico artigo sobre um tema que considero de grande importância e actualidade. A tradução encontra-se abaixo. Os que preferirem o original, escrito no inglês impecável daquele que é um dos mais elegantes e enxutos prosadores britânicos da actualidade, podem clicar aqui.

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O que é a Pobreza?

Theodore Dalrymple

O que entendemos hoje por pobreza? Não o que entendiam Dickens, ou Blake, ou Mayhew. Hoje, ninguém seriamente espera passar fome em Inglaterra, ou viver sem água corrente ou sem cuidados médicos, ou mesmo sem uma televisão. A pobreza foi redefinida nos países industriais, de tal maneira que quem se encontra no ponto mais baixo da distribuição de rendimentos é pobre ex officio, por assim dizer – pobre por ter menos do que os ricos. E é claro que, segundo esta lógica, a única maneira de evitar a pobreza será por meio de uma redistribuição igualitária da riqueza – mesmo se a sociedade como um todo se tornar mais pobre em consequência disso.

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Le Portugal

No seu livro de 2014, Threats of Pain and Ruin, o ensaísta inglês Theodore Dalrymple escreve a dado passo sobre Portugal, a propósito de um velho livro de viagens de 1956 e que ele encontrou em casa de uma amiga recentemente falecida. Este livro de viagens é o Le Portugal, de um escritor francês, Yves Bottineau, com fotografias de um tal Yan. Paris, edição Arthaud.

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Uma verdade universalmente reconhecida

 

Caros,

Neste ano novo parece-me importante oferecer aos nossos governantes um punhado de sugestões para executar nos próximos tempos. Tudo isto no melhor dos espíritos cívicos, que é, como sabem, um dos meus pequenos vícios. Nesse sentido, aqui lhes deixo [a eles, governantes, mas também a vocês, gente humildíssima que por aqui passa] um breve artigo de Theodore Dalrymple, o qual pode ser lido, no elegante inglês original, no livrinho de 1994 intitulado If Symptoms Persist.

Cá vai, então:

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É uma verdade universalmente reconhecida que algo tem de ser feito sobre o assunto. E segue-se que, se algo tem de ser feito, então pode ser feito.

Uma vez que a actividade é tão boa como a acção, a primeira coisa a fazer é constituir uma comissão. O objectivo desta comissão será garantir à Autoridade de Saúde que pode garantir ao Ministério que pode garantir ao Ministro que pode garantir ao Governo que pode garantir à Oposição que algo está de facto a ser feito.

A comissão ideal deverá ter pelo menos os seguintes membros: um consultor hospitalar, um especialista em saúde pública, um polícia, um membro do clero, um terapeuta ocupacional, um técnico de reinserção social, um técnico de serviço social, um autarca, um fisioterapeuta, um representante das agências de voluntariado, um juiz e um proeminente homem de negócios da comunidade. Isto garantirá que a comissão não conseguirá reunir mais do que uma vez em cada quatro meses, e mesmo então só depois de uma longa série de justificações das ausências.

O tema das deliberações da comissão deverá ser vago, mas importante: o álcool é um bom exemplo. Como todos sabemos, o álcool é responsável por acidentes, homicídios, suicídios, cirrose, cancro, doenças do coração, derrames cerebrais, divórcios, crime e falências, bem como por 95 por cento da alegria em ocasiões sociais e por uma proporção considerável, embora menor, das receitas do governo. É, portanto, um candidato perfeito para a estratégia de inacção-através-da-actividade, e de facto actualmente cada autoridade de saúde regional tem uma Comissão de Acompanhamento e de Coordenação Regional para o Alcoolismo, que procura manter em respeito a tendência para o excesso de indulgência face ao álcool, funcionando ao mesmo tempo como uma prenda governamental aos zelotas que acham que uma vida longa e saudável é necessariamente uma vida feliz.

Fui temporariamente nomeado há uns tempos atrás para uma dessas comissões. De tantos em tantos meses lá ouvíamos um inspector ler lugubremente as estatísticas das agressões em estado alcoólico desde a reunião anterior, o que era normalmente seguido por uma descrição de um Assassinato Particularmente Horrível e Brutal Cometido sob Influência. Fazíamos um tch-tch de desaprovação profunda e até abanávamos a cabeça.

Tudo na comissão seguia suave e serenamente quando, de repente, a autoridade de saúde nos deu 20000 libras para gastar. Isto era muito mais do que poderíamos honestamente justificar em consumo de sandes, e a pessoa directora da comissão (seria impróprio mencionar o sexo dela) entrou em pânico. Não restava outra alternativa a não ser fazer um inquérito.

Mas o que queríamos nós descobrir?

Nada nos veio à cabeça.

Decidimos apelar a uma firma de consultoria. Os seus serviços custavam 12000 libras, e uma secretária em part-time garantiu que gastaríamos um pouco mais do que o disponível, um sinal seguro da nossa diligência. O dinheiro terá sido gasto, algo terá sido feito, e o relatório da consultoria terá pelo menos umas vinte páginas.

Dalrymple If Symptoms Persist