A Coisa

[Um texto de Desidério Peixoto, escrito à hora do almoço numa tasquinha do Bairro Alto, num dia cinzento de Inverno]

Dou-lhe este nome, à falta de outro melhor. Poderia chamar-lhe repulsa, ou fuga, ou recusa, ou medo, ou abafação, ou, o que seria porventura o mais próximo dos nomes, estranheza. Mas a verdade é que a Coisa não é nenhum deles, tendo ao mesmo tempo um pouco da cada um, numa mistura que é diferente e mais do que a soma de todos.

Conheço a Coisa desde tempos imemoriais. Desde que as mulheres, então simples raparigas, começaram a ser algo de especial para mim, e não apenas pessoas comuns na paisagem ordinária, que a Coisa me visita com regularidade. Chega sem aviso prévio, sempre rápida e de forma decisiva. Limpa, como um cirurgião do coração que corta com a consciência da delicadeza e da necessidade do golpe. A Coisa, um bisturi do sentimento.

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