Gosto de conduzir de noite – II

Desloco-me vertiginoso pela estrada larga de alcatrão, metáfora da vida. A estrada de alcatrão, que perfeição geométrica, que certeza garantida de destino. As estradas modernas, as auto-estradas, são, a esse respeito, insuperáveis na sua implacabilidade higiénica. Sem buracos, curvas, obstáculos emboscados no caminho do viajante. Como o tempo que nos leva até à morte, as auto-estradas conduzem-nos sem uma hesitação, sem solavancos, sem especiais favores para os ricos e particulares humilhações para os pobres. Uma paragem aqui e acolá, de longe em longe, o bilhetinho da portagem, e lá vamos todos nós direitos ao destino. No anonimato do percurso. As auto-estradas são a ausência de metafísica e de mistério da existência. São a cura para o mal, o mal de amor e o mal de desespero. Quando a vida me dói, meto-me numa auto-estrada e zap. Meia hora depois estou curado. Viajando na estrada de nada a caminho de lugar nenhum.

Hoje a auto-estrada está, porém, pensativa. Não a reconheço. Invulgar momento, este. Terá sido da chuva que caiu todo o dia, do cheiro do ozono no ar, não sei. A estrada brilha húmida, reflecte o céu escuro, devolve-me o olhar como um poço de insondável mistério, ela que não tem mistério nenhum. Se calhar o mistério está em mim, hoje, esta noite.

Acelero. 160, 180, 200, 220, embalo na descida, uma longa curva para a esquerda, a entrada na ponte magnífica, visão rápida da vila que se estende pela planície, como a aproximação à pista de um avião nas planuras brasileiras. Lembra-me Vitória da Conquista, à noite. O motor do carro zumbe, protesta, ralha comigo baixinho. Que ralhe, a noite é minha mãe.

Subimos agora. Por momentos, na distracção da memória súbito alheada, o carro ia falhando o seu caminho, é preciso voltar à direita, sim, é precisamente aqui, neste ponto. A complicação da topografia, o emaranhado destas estradas devolve-me ao presente. Agora sei onde me dirijo. E com essa consciência do presente vem a dor, a dor imensa que se abate sobre mim. Socorro, noite, socorro, estrada. Socorro.

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Gosto de conduzir de noite

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Gosto de conduzir de noite. De dia não. Durante o dia, as coisas exibem uma nudez quase indecente, e tudo, as pessoas, as casas, o barulho do bulício e da agitação da vida, pesa e oprime. Mas de noite, a realidade transmuta-se, a vida bate em retirada e a paz instala-se. Conduzir sem destino, de noite.

Sempre gostei. Quando era jovem conduzia horas e horas a fio, sem descanso. Chegava a fazer oitocentos ou mil quilómetros numa única estirada. Sempre de noite. E, quando raiava o sol matinal, e finalmente tinha de parar, ficava com pena que a noite e a viagem tivessem chegado ao seu fim.

Agora não consigo andar tanto, mas ainda assim continuo a gostar de conduzir de noite. Muitas vezes, quando o sono não chega, levanto-me da cama, pego no carro e parto para a estrada. Sem rumo, como hoje. A estrada me guiará.

O meu carro é o meu amigo. Mais do que um amigo, uma parte de mim. Ao volante, na escura fita de alcatrão, eu e o meu carro fazemos um só. Homem/máquina. Meus braços nervos em volta do volante, meus pés cabos de aço da estrutura mecânica do carro, meu cérebro rodas de borracha, meus olhos viseiras do néon verde do velocímetro. Um só, o homem e o carro. Não sei onde começo ou onde acabo, não sei se sou eu que curvo, se é o meu corpo que trava, se são os meus olhos que iluminam as valetas. Conduzo e sou conduzido. Deixo-me levar.

Quando conduzo de noite, a viagem abre-se sem roteiro, sem princípio ou fim determinados. Ao volante do meu carro, nas estradas apenas adivinhadas, posso imaginar que não sei de onde parti, ou aonde chegarei. Ah, se a vida fosse assim, uma viagem sem início pré-determinado e sem fim à vista! Não saber de onde se vem, e para onde se vai. Assim eu quereria que a minha existência decorresse. Pura passagem, movimento puro.

Sem um lugar de partida. Sem nome, família de origem, lugar paterno, história ou memória pessoal. Tudo isso nos limita, torna-nos prisioneiros dos outros, os outros que acham que nos conhecem, prende-nos ao solo como uma pesada âncora de ferro. Sem origem, seríamos velas, cavername tendido no esforço das viragens, veleiros ágeis e caprichosos vogando ao sabor dos ventos. Livres. Verdadeiramente anónimos.

E sem um lugar de chegada. Sem horários, compromissos, quefazeres. Sem ter de dar razão de nada, omissos dos nossos motivos, inscientes das forças que nos controlam, rebeldes a qualquer horário, inúteis para todas as obrigações, e, porque sem préstimo, incomparáveis. E despreocupados do tempo, olhando de modo vago e como que cegamente para o futuro, sem uma ruga traçada na face pela consciência da morte. Sem ninguém que nos espere à chegada. Sem um abraço, uma mala que desarrumar, perguntas pelo que se passou, “perdi algo de importante enquanto estive fora?”

Puras consciências presentes, derramadas no espaço, como animais.