A morte do camareiro Brigge

Eis as entradas 6 a 9 do Caderno de Notas de Malte Laurids Brigge, de Rainer Maria Rilke. Descrevem a morte do avô de Malte e de outra gente variegada. E têm dentro, como grãos no âmago de um fruto, certas pequenas coisas, como galgos e mulheres grávidas. Apreciem.

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(6) Tenho medo. Mal o medo chegue, é preciso fazer algo contra ele. Seria muito mau adoecer aqui, e se ocorresse a alguém levar-me para o Hôtel-Dieu, eu certamente morreria. O Hôtel é agradável, muito popular. É quase impossível contemplar a fachada da catedral de Paris sem correr o risco de se ser atropelado por um dos muitos veículos que atravessam, rápidos, a ampla praça que conduz ao Hôtel. Estes pequenos coches estridulam sem cessar, e até o duque de Sagan teria de mandar parar o seu se se metesse na cabeça de um desses pequenos moribundos dever ir imediatamente ao Hôtel do Bom Deus. Os moribundos são teimosos, e Paris inteira pára quando madame Legrand, a brocanteuse da Rue des Martyrs, se dirige a esta praça da Cité. É de notar que estes pequenos veículos diabólicos têm janelas de vidro fosco invulgarmente sugestivas, atrás das quais podemos imaginar as mais esplêndidas agonias; basta para isso a fantasia de uma concierge. Caso se tenha mais imaginação, e ela se desenvolva por outras direcções, as conjecturas são praticamente infinitas. Mas também vi chegarem coches abertos, coches de aluguel com a capota descida e que cobravam a tarifa habitual: dois francos. É o que custa aqui a hora da morte.

4CAFFAFE-C688-4C72-9053-9DB93CA3B679 Continuar a ler

Imortalidade V

Estamos sentados na esplanada do ex-D. Manuel, a lua recortada contra o céu escuro por cima do ex-Hotel Tocaio. Na Bila por estes dias tudo se tornou o ex de qualquer outra coisa que não existe mais, que nos abandonou. O meu amigo A. acende mais um Marlboro. Tenho saudades do aroma do tabaco e da carícia do fumo dentro das entranhas. Divago. O tempo passa. A lua vai-se deslocando imperceptivelmente no céu da Avenida, traçando o seu percurso solitário ao longo da banda estreita do Zodíaco. Ocorre-me de repente que esta lua não passará nunca.

– Sabes, digo a A., não há morte. Eu não morrerei. Viver quer dizer existir, e a morte é a não-existência. Uma impossibilidade para quem existe, como eu, que existo agora mesmo. Da existência não se produz a não-existência e vice-versa. Logo, eu sou vivo para sempre. Imortal.

A. dá uma fumarada no cigarro, e exclama:

– Arrump counff.

O que ele quis dizer foi “é uma impossibilidade, concedo.” O meu amigo A. abrevia, quando está comigo, as suas elocuções, usando uma espécie de estenografia oral. ‘Arrump’ significa ‘impossível’ e ‘counff’ quer dizer ‘de facto’. Muitos anos de convivência entre nós permitem-nos comunicar desta forma sintética, mas de uma eficácia eloquente. O estimado leitor terá de se amanhar com a minha tradução, na qual, como sempre que se traduz, algo se perde do sentido original. Entre parêntesis está o que efectivamente dissemos.

O diálogo prosseguiu.

Eu: – Logo, a morte é uma ilusão. (Murf arg.)

A: – E esta lua nunca desliza no céu. (Cuf cuf.)

Eu: – É a lua anti-Heraclito. (Inf kruum)

A: – Heidegger tem razão, Sein e Zeit são o mesmo. (Hei tshuff)

Eu: – Alguma coisa se perdeu quando os gregos reduziram o Ser ao ser presente, pois o presente não existe. O presente é o instante. Infinitésimo. (glorb bas tuk)

A: – Não existe o instante, apenas a continuidade do tempo, como uma fita de Moebius. (Thss lunng)

Eu: – O Ser é uma esfera perfeita. (Aum um)

A: – Bebes uma bejeca? (Oi?)

Infelizmente não posso, por razões médicas. Mas a lua não saiu do céu, do seu lugar por cima do ex-Hotel Tocaio, e amanhã cá estará de novo. E o Hotel também. A lua, essa moeda prateada de um valor incalculável, Nyarlathotep.

Nyarlathotep, teu nome é Plenitude e eu sou teu filho.

Amén. (Aim)

Monta a morte a sua corte

04330CFB-4AAE-4D26-BF17-789A21FEAC96Ricardo II (falando com o Duque de Aumerle):

Falemos de campas, de vermes, de epitáfios;
Façamos do pó papel, e com olhos rasos d’água
Ditemos lamentações ao ventre duro da terra,
Escolhamos executores, discorramos de legados:
E nem mesmo disso, pois que podemos nós legar
Excepto ao solo os nossos restos despojados?
As terras, até as vidas, tudo é de Bolingbroke,
E a nada, salvo à morte, chamemos de coisa nossa,
Ou a esse pequeno monte de terra estéril
Que servirá de veste mole dos nossos ossos.
Por Deus, sentemo-nos aqui mesmo, neste chão,
Da morte de reis contemos a triste história;
Alguns depostos; outros partidos na guerra,
Ou perseguidos pelo espectro dos que dizimaram;
Envenenados por mulheres; mortos no sono;
Todos assassinados: pois dentro da oca coroa
Que cerca as têmporas mortais de um rei
Monta a Morte a sua corte e nela toma assento,
Do homem escarnecendo, rindo da sua pompa,
Deixando-lhe tão só um suspiro, uma breve cena,
Para reinar, ser temido, matar com pose altiva,
E inchando-o assim de prosápia e vã vaidade,
Como se a carne que empareda a nossa vida
Fosse bronze inexpugnável, e, dest’arte divertida,
A nós por fim chegando e com pequena agulha
Rebentando a muralha do castelo e … era uma vez um rei!

(William Shakespeare, Ricardo II, Acto 3, cena 2. Tradução minha)

O HUMANITARISMO DA GUILHOTINA

Escrevendo em 1991 para um periódico que publicava juntamente com Lew Rockwell, The Rothbard-Rockwell Report, Murray N. Rothbard dedicou duas páginas ao tema da eutanásia. Encontrá-las-eis a seguir, no inglês original do autor. É possível ver nestes curtos parágrafos que o tema tinha já então, há quase trinta anos atrás, os contornos que hoje toma neste pequeno canteiro de nabiças inanes à beira do Atlântico. Não há nada de novo, ao que parece, debaixo do sol.

[O original deste texto encontra-se em Rothbard, Murray N. (2000) – The Irrepressible Rothbard, The Center for Libertarian Studies, Inc. Burlingame, California, pp. 301-303.]

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THE RIGHT TO KILL, WITH DIGNITY?
July 1991

 Murray N. Rothbard

For a long time now we have been subjected to a barrage of pro-death propaganda by left-liberals, and by their cheering squad, left, or modal, Libertarians. The “right to die,” the “right to die with dignity” (whatever that means), the right to get someone to assist you in suicide, the “right to euthanasia,” etc. Up till now, left-liberals have at least appeared to be scrupulous in stressing the crucial importance of consent by the killed victim, because otherwise the right to die with dignity looks very much like the right to commit murder. For what is compulsory euthanasia but murder, pure and simple?

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Lua Cheia

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Está um quarto crescente bem bonito. Deixem que vos confesse uma antiga fascinação minha, sinistra e atormentada, pela lua. Do astro selenita posso dizer que lhe respeita uma das minhas mais antigas memórias, a memória da minha tia B., que era a doçura em pessoa, a contar-me a estória do homem na lua. “Olha,” disse-me ela um dia, há muito tempo atrás, “olha bem, vês aquele homem com um molho de silvas às costas? Lá em cima?” E eu a olhar para a lua e a ver o homem. “Foi lá posto porque estava a trabalhar ao domingo, quando não devia.” “Posto por quem?” “Por Deus, claro, como castigo. Não se deve trabalhar ao domingo, o dia santo.” Mais tarde percebi que era o sábado, não o domingo, o dia santo, o dia do castigo, mas isso foi muito mais tarde, já era a minha tia morta e eu desiludido. O meu pai contou-me, pelo seu lado, que havia também uma vaca, que saltara por cima da lua, com o susto. “De quê?”, perguntei. “De um klaxon de um carro.” Nesse tempo, os carros eram raros e tinham buzinas estridentes, a que toda a gente chamava klaxons. Faziam um prrac-prrac estridente, que afugentava os animais e assustava os putos. Eu pela minha parte adorava. Sempre gostei do Susto.

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Miragaia

Miragaia

A primeira narrativa ficcional escrita em português terá sido a Lenda de Gaia, ou Lenda do Rei Ramiro, a qual aparece em duas versões distintas nos livros de linhagens medievais portugueses. A primeira delas datará dos finais do século XIII e encontra-se no chamado Livro Velho. A segunda, cerca de um século depois, no Livro de Linhagens do Conde D. Pedro.

É, como podereis ler, uma estória de amor e morte, duas realidades que se entrelaçam permanentemente na vida humana, com a pertinácia dos dois irmãos dioscuri, e que adquirem nesta estória a forma particular da ferocidade possessiva do homem e da perversidade feminina que lhe corresponde.

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No Sepulcro (um conto de H.P. Lovecraft)

Cemetery Receiving Tomb

No Sepulcro
H.P. Lovecraft


Escrito em 18 de Setembro de 1925 e publicado em Novembro de 1925 na
The Tryout Magazine, Vol. 10, No. 6, p. 3-17.

(Tradução de José Costa Pinto)

 

Não há nada de mais absurdo, na minha opinião, do que a associação convencional entre o rústico e o saudável que parece dominar a psicologia das multidões. Mencione-se um lugar de bucolismo ianque, um cangalheiro de aldeia trapalhão e grosseiro, e um descuido acidental numa tumba, e o leitor normal não esperará mais do que uma peripécia de uma comédia jovial, embora grotesca. E no entanto só Deus sabe como a estória prosaica que o falecimento de George Birch me autoriza a narrar contém em si certos aspectos, ao lado dos quais algumas das nossas tragédias mais sinistras parecem ser coisa ligeira.

Birch ficara aleijado e mudara de ocupação em 1881, mas nunca conversava sobre o assunto se o podia evitar. Tampouco o fazia o seu médico anterior, o Dr. Davis, que morreu há uns anos atrás. Contava-se normalmente que a aflição e o choque tinham sido causados por um erro azarado em que Birch se tinha trancado durante nove horas no mausoléu temporário do cemitério de Peck Valley, dele tendo escapado apenas com recurso à força bruta e a meios mecânicos desastrosos; mas, embora isso fosse sem dúvida verdade, havia outras coisas bem mais sinistras que o homem me costumava sussurrar ao ouvido no seu delírio bêbado, lá para o fim. Ele confiava em mim porque eu era o seu médico e provavelmente porque sentia necessidade de confiar noutra pessoa depois da morte de Davis. Era solteiro, sem qualquer parente.

Birch fora, antes de 1881, o cangalheiro da aldeia de Peck Valley; e fora um espécime anormalmente calejado e primitivo, mesmo considerando o que tais espécimes costumam ser. As práticas que lhe atribuíam seriam hoje inacreditáveis, pelo menos numa cidade; e até mesmo Peck Valley teria estremecido um pouco se tivesse tido conhecimento da ética de facilidade do seu artista mortuário, em matérias tão duvidosas como a propriedade da roupa dispendiosa que não se via por baixo da tampa do caixão, e o grau de dignidade a preservar no posicionamento e na adaptação dos membros invisíveis dos inquilinos passivos aos contentores, nem sempre calculados com a precisão mais sublime. Era bastante óbvio que Birch era descuidado, insensível, e profissionalmente indesejável; e no entanto penso ainda que ele não era um mau homem. Era apenas grosseiro de fibra e de função – irreflectido, descuidado, e beberrão, como o prova o seu acidente facilmente evitável, e destituído desse mínimo de imaginação que mantém o cidadão médio dentro de certos limites fixados pelo bom gosto.

Mal sei por onde começar a história de Birch, pois não sou um experiente contador de estórias. Suponho que devo começar por aquele frio Dezembro de 1880, quando o solo congelou e os coveiros do cemitério descobriram que não podiam cavar mais sepulturas até à Primavera. Felizmente, a aldeia era pequena e a taxa de mortalidade baixa, de modo que era possível dar a todos os inanimados hóspedes de Birch um refúgio temporário no único e antiquado mausoléu provisório. O cangalheiro foi desenvolvendo uma crescente letargia nesse tempo agreste, parecendo até ultrapassar-se a si mesmo em matéria de descuido. Nunca tinham sido montados caixões mais frágeis e deselegantes, ou mais flagrantemente ignoradas as necessidades da fechadura ferrugenta da porta do mausoléu, que ele escancarava e fechava com um abandono despreocupado.

Chegou por fim o degelo da Primavera, e foram preparadas laboriosamente as sepulturas
para os nove silenciosos exemplares que o ceifador impiedoso colhera e que esperavam no mausoléu. Birch, embora detestasse os incómodos do transporte e do enterramento, começou a tarefa de transferência numa desagradável manhã de Abril, mas parou antes do meio-dia por causa de uma forte chuvada que parecia irritar o seu cavalo, e depois de ter colocado apenas um locatário mortal no seu lugar de eterno descanso. Fora ele Darius Peck, o nonagenário, cuja sepultura não ficava muito longe do mausoléu. Birch decidiu recomeçar no dia seguinte com o minúsculo e idoso Matthew Fenner, cuja sepultura também ficava por perto; mas, na verdade, adiou a coisa por três dias, e só retomou o trabalho na Sexta-feira Santa, dia 15. Sendo pessoa sem superstições, não respeitou o dia; embora depois se recusasse a fazer fosse o que fosse de importância naquele fatídico sexto dia da semana. De tal modo os acontecimentos daquela noite mudaram George Birch.

Na tarde de sexta-feira, 15 de Abril, portanto, Birch dirigiu-se ao túmulo com o cavalo e a carroça para transferir o corpo de Matthew Fenner. Que não estava perfeitamente sóbrio, ele admitiu-o posteriormente; embora por essa altura ainda não se dedicasse à bebida por atacado, como veio mais tarde a fazer para tentar esquecer certas coisas. Estava apenas tonto e descuidado o suficiente para irritar o seu cavalo sensível, que, conduzido por ele violentamente até ao túmulo, relinchava e batia com as patas e sacudia a cabeça, tal como naquela ocasião anterior em que a chuva o apoquentara. O dia estava claro, mas levantara-se um vento forte; e Birch estava satisfeito por chegar ao abrigo, quando destrancou a porta de ferro e entrou no mausoléu na encosta da colina. Outra pessoa qualquer poderia não ter apreciado a câmara húmida e fedorenta com os oito caixões negligentemente espalhados; mas Birch era naquela época um insensível, e só estava preocupado em levar o caixão certo para a sepultura certa. Não tinha ainda esquecido as críticas quando os parentes de Hannah Bixby, desejando transportar o corpo para o cemitério da cidade para a qual se tinham mudado, encontraram o caixão do juiz Capwell debaixo da sua lápide.

A luz era fraca, mas a visão de Birch era boa, e não se deixou enganar pelo caixão de Asafe Sawyer, embora fossem muito parecidos. Ele fizera, de facto, aquele caixão para Matthew Fenner; mas pusera-o de lado no último momento por ser muito frágil e mal-amanhado, num curioso acesso de sentimentalismo despertado pela recordação de quão amável e generoso o velhinho tinha sido com ele, durante a sua falência de há cinco anos atrás. Deu ao velho Matt o melhor que a sua competência podia produzir, mas foi suficientemente poupado para guardar o exemplar rejeitado, e para o usar quando Asafe Sawyer morreu de uma febre maligna. Sawyer não era um homem de quem se gostasse, contando-se muitas histórias a respeito da sua quase desumana teimosia de memória e do seu espírito vingativo por ofensas reais ou imaginárias. No que a ele dizia respeito, Birch não tinha sentido nenhum escrúpulo em atribuir-lhe o caixão desleixadamente feito, e que ele agora empurrava para fora do caminho na sua busca do caixão de Fenner.

E foi exactamente quando reconheceu o caixão do velho Matt que a porta bateu com o vento, mergulhando-o numa penumbra ainda mais profunda do que antes. O postigo estreito por cima da porta apenas admitia o mais pálido dos raios, e o funil de ventilação por cima da sua cabeça não admitia nenhum praticamente; de maneira que foi obrigado a uma desastrada caminhada às apalpadelas enquanto refazia o seu hesitante percurso entre os longas caixões em direcção ao ferrolho. E foi neste crepúsculo fúnebre que remexeu nos puxadores enferrujados, empurrou os painéis de ferro, e se perguntou por que razão o portal enorme se tornara recalcitrante tão de repente. E foi também neste crepúsculo que começou a perceber a verdade e a gritar bem alto como se o seu cavalo lá fora pudesse fazer mais do que relinchar uma antipática resposta. Porque o ferrolho há muito tempo negligenciado estava obviamente quebrado, deixando o descuidado cangalheiro preso no sepulcro, uma vítima de seu próprio descuido.

A coisa deve ter acontecido por volta das três e meia da tarde. Birch, sendo por temperamento fleumático e prático, não gritou por muito tempo; mas começou a procurar às apalpadelas algumas ferramentas que ele se lembrava de ter visto num dos cantos do túmulo. É duvidoso que ele tenha sido tocado minimamente pelo horror e pela requintada estranheza da sua posição, mas a nudez factual de estar aprisionado tão longe dos percursos quotidianos dos homens foi suficiente para o exasperar completamente. O seu trabalho do dia fora infelizmente interrompido, e a menos que o acaso trouxesse agora por aqui algum passante, ele poderia ter que permanecer toda a noite ou mesmo mais. Tendo localizado sem demora a caixa de ferramentas, e escolhido um martelo e um cinzel, Birch regressou, caminhando ao longo dos caixões, à porta. O ar começava a ficar extremamente doentio; mas ele não prestou atenção a este pormenor enquanto trabalhava, meio às apalpadelas, no metal pesado e corroído do trinco. O que ele teria dado por uma lanterna ou por um coto de vela; mas, na falta destes, operava às cegas da melhor maneira que podia.

Quando percebeu que o ferrolho estava irremediavelmente não cooperante, pelo menos perante ferramentas tão escassas e sob condições tão tenebrosos como estas, Birch olhou em volta à procura de outros possíveis pontos de fuga. O mausoléu tinha sido escavado numa colina, de modo que o estreito funil de ventilação no topo corria através de vários metros de terra, fazendo com que ponderar esta direcção de fuga fosse totalmente inútil. Sobre a porta, no entanto, o estreito postigo na fachada de tijolos prometia um possível alargamento a um trabalhador diligente; e foi nele, portanto, que os seus olhos longamente descansaram enquanto dava voltas à cabeça à procura de meios para lhe chegar. Não havia nada que se parecesse com uma escada na tumba, e os nichos de caixão nas laterais e na traseira – que Birch raramente se dera ao trabalho de usar – não proporcionavam nenhuma subida para o espaço acima da porta. Apenas restavam os caixões como degraus potenciais e, enquanto considerava isto, meditou sobre a melhor maneira de os transportar. Três caixões de altura, achava ele, permitir-lhe-iam alcançar o postigo; mas ele poderia fazer mais com quatro. Os caixões eram muito iguais, e poderiam ser empilhados como blocos; começou então a calcular como poderia usar os oito de forma estável para erguer uma plataforma em escada de quatro de profundidade. E enquanto fazia planos, não podia impedir-se de desejar que as unidades de sua escadaria imaginada tivessem sido construídas de maneira mais segura. Mas se ele tinha imaginação suficiente para desejar que estivessem vazias, isso há fortes razões para duvidar.

Decidiu por fim constituir uma base de três paralelamente à parede, colocar sobre esta duas camadas de dois cada uma, e sobre estes um único caixão para servir de plataforma. Poderia trepar-se a este arranjo com um mínimo de constrangimento, e proporcionaria a altura desejada. Melhor ainda, no entanto, usaria apenas dois caixões na base para suportar a superestrutura, deixando um livre para ser empilhado no topo, caso o movimento concreto de fuga necessitasse de uma altitude ainda maior. E assim trabalhou o prisioneiro no crepúsculo, erguendo os inertes remanescentes da mortalidade com pouca cerimónia à medida que crescia a sua miniatural Torre de Babel, camada a camada. Alguns dos caixões começaram a rachar sob o esforço da manipulação, e ele decidiu reservar o caixão robustamente construído do pequeno Matthew Fenner para o topo, a fim de que os seus pés pudessem ter uma superfície tão certa quanto possível. Naquela semi-escuridão foi principalmente no toque que ele confiou para seleccionar o caixão correcto, tendo-o, na verdade, descoberto quase por acaso, pois veio ter às suas mãos como se por meio de alguma estranha volição, depois de o ter inadvertidamente colocado atrás de um outro na terceira camada.

Terminada enfim a torre, e repousados por um momento os braços doloridos enquanto se sentava no degrau de seu sinistro dispositivo, Birch subiu cautelosamente com as suas ferramentas e ficou à altura do estreito postigo. As bordas do espaço eram inteiramente de tijolos, e parecia haver poucas dúvidas de que ele o poderia alargar rapidamente com o cinzel, o suficiente para permitir que o seu corpo passasse. À medida que as suas marteladas começaram a tombar, o cavalo lá fora choramingou num tom que pode ter sido encorajador e pode ter sido de zombaria. Em ambos os casos, teria sido apropriado; porque a tenacidade inesperada da alvenaria de aspecto convidativo era certamente um comentário sarcástico sobre a vaidade das esperanças mortais, e a fonte de uma tarefa cujo desempenho merecia todo o estímulo possível.

A noite tombou e encontrou Birch ainda a labutar. Trabalhava em grande parte pelo tacto agora, já que nuvens recém-reunidas ocultavam a lua; e embora o progresso ainda fosse lento, ele sentia-se encorajado com a extensão de suas invasões na parte superior e inferior da abertura. Poderia, tinha a certeza, sair pela meia-noite – embora fosse típico dele este pensamento ser imune a quaisquer implicações assustadoras. Imperturbado por reflexões opressivas sobre o tempo, o lugar, e a companhia sob os seus pés, lascava filosoficamente a alvenaria de pedra; lançando imprecauções quando um fragmento lhe batia na cara, e rindo quando um atingia o cavalo cada vez mais excitado que agitava os cascos perto do cipreste. Aos poucos, o buraco ficou tão grande que ele se aventurou a meter nele o seu corpo uma e outra vez, mexendo-se de tal forma que os caixões por baixo dele balançavam e rangiam. Não seria preciso, descobriu, empilhar outro na sua plataforma para conseguir a altura adequada; porque o buraco estava exatamente ao nível certo para ser usado assim que o seu tamanho o permitisse.

Deveria ser já a meia-noite, pelo menos, quando Birch decidiu que poderia passar através do postigo. Cansado e transpirando apesar de muitos descansos, desceu até ao chão e sentou-se por um momento no caixão do fundo a reunir forças para o meneio final e para o salto até ao solo do lado de fora. O cavalo esfomeado relinchava repetidamente e quase misteriosamente, e ele desejou vagamente que parasse. Não estava, é curioso, nada exultante com a sua fuga iminente, e quase temia o esforço, pois as suas formas tinham a corpulência indolente do princípio da meia-idade. Ao trepar de novo os caixões desconjuntados sentiu muito pujantemente o seu peso; especialmente quando, ao atingir o mais alto, ouviu o crepitar alarmante que anuncia o rachamento completo da madeira. Ele tinha, ao que parece, planeado em vão ao escolher o caixão mais robusto para a plataforma; pois mal o seu volume inteiro assentou novamente sobre ele, a tampa podre cedeu, despachando-o meio metro para baixo e sobre uma superfície que nem ele desejou imaginar. Enlouquecido pelo som, ou pelo fedor que se ergueu até ao ar do exterior, o cavalo que esperava lá fora deu um grito demasiadamente frenético para um relincho, e mergulhou desalmadamente na noite, a carroça aos sacões loucos atrás dele.

Birch, na sua medonha situação, estava agora demasiado baixo para uma saída fácil através do postigo alargado; mas mobilizou as suas forças para uma tentativa decidida. Agarrando as bordas da abertura, tentou levantar-se, quando se apercebeu de uma estranha demora sob a forma de uma aparente resistência em ambos os tornozelos. Num momento seguinte, conheceu o medo pela primeira vez naquela noite; porque, por mais que lutasse, não podia libertar-se do aperto desconhecido que mantinha os seus pés num cativeiro implacável. Dores horríveis, como se provenientes de feridas selvagens, subiam-lhe pela barriga das pernas; e na sua mente havia um turbilhão de medo misturado com um materialismo inextinguível que sugeria lascas, pregos soltos, ou algum outro atributo de um caixão de madeira partido. Talvez tenha gritado. De qualquer modo deu pontapés e contorceu-se frenética e automaticamente, enquanto a sua consciência quase se eclipsava num meio-desmaio.

O instinto guiou-o na sua escapada através do postigo e no rastejamento que se seguiu ao seu baque surdo no chão húmido. Não podia andar, segundo parecia, e a lua emergente deve ter tido uma visão horrível enquanto ele arrastava os seus tornozelos ensanguentados em direcção ao edifício de entrada do cemitério; os seus dedos a arranhar o bolor negro numa pressa sem consciência, e o seu corpo a responder com aquela lentidão enlouquecedora de que se padece quando se é perseguido pelos fantasmas de um pesadelo. Não havia, no entanto, e evidentemente, nenhum perseguidor; pois ele estava sozinho e vivo quando Armington, o guarda do edifício da entrada, respondeu às suas arranhadelas fracas na porta.

Armington ajudou Birch a arrastar-se para uma cama desocupada e mandou o pequenito Edwin chamar o Dr. Davis. O homem estava plenamente consciente na sua aflição, mas não dizia nada que fizesse sentido; apenas murmurava coisas como “oh, os meus tornozelos!”, “largue-me!”, ou “fechado no mausoléu”. A seguir, chegou o doutor com a sua maleta de médico e fez perguntas exactas, e tirou do paciente a roupa de fora, os sapatos e as meias. As feridas – pois ambos os tornozelos estavam terrivelmente lacerados junto aos tendões de Aquiles – pareceram confundir muito o velho médico, e, por fim, quase o assustar. O seu questionamento tornou-se mais do que medicamente tenso, e as suas mãos tremiam enquanto vestia os membros mutilados; ligando-os como se quisesse colocar as feridas fora da vista o mais rapidamente possível.

Para um médico distante, o interrogatório sinistro e impressionado de Davis tornou-se realmente muito bizarro, enquanto procurava extrair do cangalheiro enfraquecido os mínimos detalhes de sua horrível experiência. Ele estava estranhamente ansioso por saber se Birch tinha a certeza – a certeza absoluta – da identidade desse caixão no topo da pilha; como ele o tinha escolhido, como ele tinha a certeza de que era o caixão Fenner na escuridão, e como ele o distinguira do caixão duplicado e de qualidade inferior do vicioso Asafe Sawyer. Teria o sólido caixão de Fenner cedido tão facilmente? Davis, um velho médico de aldeia, tinha-os naturalmente visto a ambos nos respectivos funerais, tal como de facto tinha tratado Fenner e Sawyer nas suas derradeiras doenças. Ele até se perguntara, no funeral de Sawyer, como é que o vingativo lavrador teria conseguido caber direito num caixão tão parecido com o do diminuto Fenner.

O Dr. Davis foi-se embora duas horas depois, pedindo a Birch que dissesse insistentemente e em todas as ocasiões que os seus ferimentos tinham sido causados exclusivamente por pregos soltos e por lascas de madeira. Que mais, acrescentou, poderia em qualquer caso ser provado ou acreditado? Mas seria preferível dizer tão pouco quanto poderia ser dito, e que não deixasse nenhum outro médico tratar as feridas. Birch atendeu a este conselho todo o resto de sua vida, até que me contou a sua história; e quando eu vi as cicatrizes – antigas e esbranquiçadas como elas eram então – eu concordei que fora sábio ao fazê-lo. Ele ficou sempre coxo, pois os grandes tendões tinham sido cortados; mas acho que o manqueio maior estava na sua alma. Os seus processos de pensamento, outrora tão fleumáticos e lógicos, tinham ficado inapelavelmente cheios de cicatrizes; e era desolador notar a sua resposta a certas alusões casuais, como “Sexta-feira”, “túmulo”, “caixão”, e a palavras de concatenação menos óbvia. O seu cavalo assustado tinha ido para casa, mas a sua inteligência assustada nunca fez isso de facto. Mudou de ocupação, mas havia sempre algo a persegui-lo. Pode ter sido apenas o medo, e pode ter sido o medo misturado com uma estranha e tardia espécie de remorso por cruezas passadas. A bebida, é claro, só agravava o que era suposto aliviar.

Quando o Dr. Davis deixou Birch naquela noite, pegou numa lanterna e dirigiu-se ao velho mausoléu temporário. A lua brilhava sobre os fragmentos de tijolos espalhados e sobre a fachada marcada, e o trinco da grande porta cedeu prontamente a um toque do lado de fora. Fortalecido por antigas provações em salas de dissecação, o médico entrou e olhou em volta, reprimindo a náusea da mente e do corpo que tudo, na vista e no cheiro, induzia. Só uma vez clamou em voz alta, e um pouco mais tarde deu um suspiro que era mais terrível do que um grito. Em seguida, fugiu de volta para o edifício da entrada e violou todas as regras da sua vocação, acordando e agitando o seu paciente, e arremessando-lhe uma sucessão de sussurros trémulos que queimavam os ouvidos perplexos como o silvo do vitríolo.

“Foi o caixão de Asafe, Birch, como eu pensava! Eu conhecia-lhe os dentes, os da frente em falta no maxilar superior – nunca, pelo amor de Deus, mostres estas feridas! O corpo estava muito destruído, mas se alguma vez vi a vingança num rosto – ou num antigo rosto… Tu sabes como ele se pelava por vingança – como ele arruinou o velho Raymond trinta anos depois da querela por causa dos limites de terras, e como ele pisou o cachorrinho que lhe rosnou há um ano atrás, no passado mês de Agosto… Ele era o diabo encarnado, Birch, e creio que a sua fúria de olho por olho, dente por dente poderia levar a melhor mesmo sobre o velho Pai Morte. Deus, quão grande era essa raiva! Detestaria que se voltasse contra mim!

Por que fizeste isso, Birch? Ele era um canalha, e eu não te culpo por lhe dares um caixão rejeitado, mas foste sempre longe de mais! Bem, o suficiente para poupares na coisa de alguma forma, mas sabias como o velho Fenner era pequenino.

Nunca me vai sair a imagem da cabeça, enquanto viver. Tu pontapeaste com força, porque o caixão de Asafe estava no chão. A sua cabeça estava quebrada, e tudo espalhado por ali. Eu já vi coisas terríveis, mas havia aqui algo que ultrapassava tudo. Olho por olho! Que Deus nos valha, Birch, mas tiveste o que mereceste. O crânio revoltou-me o estômago, mas havia algo ainda pior – aqueles tornozelos cuidadosamente serrados para caberem no caixão rejeitado do Matt Fenner!”

 

Nós, os vivos

São dez da manhã deste sábado, dia 15 de Agosto, dia santo de nossa senhora. Estou no mini-mercado do bairro, numa pequena fila junto da caixa, à espera para pagar meia dúzia de carcassas de pão pré-embalado. Dois lugares à minha frente está uma cadeira de bebé, onde um pequeno ocupante de pouco mais de um ano me fita com uma cara redonda e pensativa. Um outro miúdo, mais velho, perfila-se ao lado da cadeira, em posição de guarda relutante. A mãe, uma mulher com aspecto pesado e com aquela rotundidade de figura que resulta das gravidezes repetidas, anda pelas prateleiras próximas a escolher vitualhas de última hora, um olho nas prateleiras, o outro nos petizes.

Quando eu entrara no mercado, apenas um minuto antes, ouvia-se nele uma choradeira miudinha e pertinaz, naquela mistura de gemido de gato e de toque de sirene que os bebés utilizam para exigir nem eles sabem bem o quê. Como a cadeira estava de costas para a entrada, eu não vislumbrara inicialmente o seu ocupante. Mas um senhor inclinava-se em genuflexão imperfeita diante da cadeira, agitando a centímetros da cara do bebé um punho fechado e dizendo: ‘olha que levas, olha que levas’, uma expressão de divertimento mal disfarçado a escorrer de um rosto escuro e enrugado. Olha que levas. O irmão mais velho em expectativa. A mãe, noto-o depois, pergunta ao senhor do punho fechado pelas latas de grão-de-bico. ‘Que queres, ein?, olha que levas! Na outra prateleira, dona Paula, aí em baixo, à sua esquerda.’ O miúdo cala-se.

Mas isso foi há uns instantes atrás. Estou agora na fila diante da caixa, o saco de pão na mão, o bebé na cadeira à minha frente inclinando a cabecinha, olhando para mim, a expressão fechada e impassível. Outra mãe aproxima-se, empurrando, não uma cadeira, mas um carrinho com cobertura de fole, e nele um bebé de meses embrulhado em mantas, os olhos bem despertos. A fila reorganiza-se obediente, abre um espaço, a mamã recém-chegada estaciona o carrinho junto à cadeira, as duas mulheres, que imagino amigas ou vizinhas, ambas inchadas pelo esforço de maternidade, conversam em voz baixa, a da cadeira paga as mercearias, a outra esforça-se por abrir um porta-moedas no meio de uma confusão de sacos de plástico, de guizos e de apetrechos de bebé.

De onde estou, tenho uma visão frontal e desempedida dos dois pequenos espécimes humanos que me olham. Há um cheiro de vómito, ao mesmo tempo acre e doce. Olham-me com grandes olhos, sem uma ruga, sem um piscar de pálpebras. Olham-me e eu olho-os. Passam-se segundos. O tempo espessa-se como uma baba grumosa e branca. Vem dos seus olhos, dos seus rostos, das suas pequeninas bocas rosadas, na minha direcção.

Há um número infinito de possíveis seres humanos que nunca nasceram e nunca nascerão. Felizes por isso, para além do que os vivos podem imaginar. Com a sorte de não serem. Não é o caso destes dois, no seu carrinho, na sua cadeirinha. Ou da meia dúzia de adultos que se aglomeram à volta da caixa nesta pequena mercearia de bairro. Nós, e estes bebés acabados de chegar à existência, estamos aqui, feitos, existentes, sem recurso e sem possibilidade de voltar atrás. Sofredores. Estamos aqui, para além da remissão.

A vida é um mar de sofrimentos, um oceano a perder de vista de males e de torturas, apenas percorrido de onde em onde por prazeres espasmódicos e evanescentes. Lembro-me do dito talmúdico que Freud cita algures: “a vida é tão terrível que seria melhor não ter nascido. Mas quem tem essa sorte? Nem um só, ai de nós, entre cem mil.” O meu lamento por aquelas duas criaturas, prístinas e inocentes, quase me afoga. Pago os pães, sem reparar no que faço, sem querer saber do troco. Cá fora, no passeio, as duas mamãs reorganizam-se, afastam-se em conversa, ignaras do pecado terrível de que foram cúmplices.

Eu, pela minha parte, atravesso a rua em grandes passadas. Viro para sul. Caminho e ranjo intimamente, alheio ao sol que se derrama sobre mim e sobre os vivos, ao sol glabro como a cabeça e a pele de um bebé, ao sol que se ri, em silêncio e como que para dentro, de uma bela piada, insana, cheia de som e fúria, significando nada.

Coros do bucho do tempo

Um avistamento francês de um vrykolakas em Dezembro de 1700 na ilha de Mykonos

Um avistamento francês de um vrykolakas em Dezembro de 1700 na ilha de Mykonos

Joseph Pitton de Tournefort (1656-1708), foi um botânico francês do século XVII. Nascido em Aix-en-Provence, antiga capital histórica da Provence, viu a sua carreira académica culminar no Collège Royal, em Paris, com a cátedra de medicina e botânica, carreira essa que foi infeliz e prematuramente interrompida por um atropelamento fatal por uma carroça na rue Lacépède, nas proximidades do Jardin des Plantes. Corria o dia 16 de Abril de 1708, tinha o nosso autor apenas 52 anos de idade e uma saúde de ferro.

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Deitar fora

Oxyrhynchus é uma antiga cidade egípcia, situada na margem esquerda do rio Nilo, a cerca de 160 km a sul da cidade do Cairo. As lixeiras da urbe, onde era hábito vazar os papiros usados e irrecuperáveis, têm sido uma quase inesgotável fonte de informação para os arqueólogos sobre a vida cultural e pessoal dos seus habitantes e, por implicação, sobre a existência humana no mundo mediterrâneo entre 300 B.C.E. e 700 C.E.

Mais de 100000 papiros estão guardados em Oxford, a maioria à espera de leitura e publicação. Muitos outros ainda encontram-se em bibliotecas e instituições por esse mundo fora.

Transcreve-se a seguir o texto de um papiro (P. Oxy IV. 744G, ver imagem anexa), que é uma carta particular, escrita por um certo Hilarion, trabalhador em Alexandria, a sua mulher, Alis, residente em Oxyrhynchus.

A carta é datada pelo próprio de 16 de Junho de 1 B.C.E. (ou 1 antes de Cristo, se preferirem). Nela, como podem ler, Hilarion exprime o seu carinho pela esposa e, de caminho, aconselha-a (ou instrui-a ?) sobre o que fazer com o recém-nascido que ambos esperam. As notas a seguir destinam-se a facilitar a compreensão do texto.

Leiam nesta carta o que quiserem. É uma mancha de Rorschach.

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Hilarion a Alis, a sua irmã, (1) muitas saudações. Também a Berus, minha senhora, (2) e a Apollonarin. Saibam que ainda estou agora em Alexandrea [sic]. Não se aflijam se eu neste regresso geral (3) permaneço em Alexandren. Rogo-te e suplico-te, toma conta da criança pequena. Assim que recebermos o salário, eu mandar-to-ei. Se tu … [texto obscuro aqui] tiveres parido, se for um rapaz, deixa que [viva?](4); se for rapariga, enjeita-a (5). Tu disseste a Aphrodisias, “Não me esqueças” (6). Como posso esquecer-te? Rogo-te, pois, que não te preocupes. No ano 29 de César, Pauni 23. (7)
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(1) Alis é mulher de Hilarion. O tratamento por “irmã” era carinhoso, embora neste caso pudessem ser igualmente irmãos. O casamento entre irmãos era comum no Egipto nesta época.
(2) Uma forma de tratamento respeitoso, dirigido a alguém que se queria obsequiar. Talvez Berus fosse uma dama de condição.
(3) Provavelmente uma referência ao regresso dos companheiros de trabalho de Hilarion a Oxyrhynchus.
(4) Ou seja, fica com com ele, guarda-o.
(5) ἔκβαλε (ekbalé). De ἐκβαλεῖν, deitar fora, expulsar.
(6) Subentende-se que se trata de um recado da mulher transmitido por Aphrodisias a Hilarion.
(7) A data mencionada é, no nosso calendário, 17 de Junho de 1 B.C.E.

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