O Futuro já chegou

Achais que não se pode prever o futuro? Que o dom da profecia foi uma superstição de rústicos da idade do bronze? Que o Espírito se calou de vez e Deus já não sussurra aos ouvidos dos seus o que Ele quer que os homens saibam? Que já não há Verdade?

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Então lêde esta passagem de Dostoievski, escrita em 1881. O Inquisidor fala com Cristo e descreve-lhe com minúcia exacta o que hoje está a acontecer. E o que vem aí, a galope, pela mão dos zeladores da humanidade, os Grandes Humanistas, o Concílio da Bondade Universal, os Cientistas e os Crentes da Igreja do Bem, o Papa da Roma Pachamama, os Oficiantes da Grande Obediência, os oráculos da Razão Universal, os zurzidores da Superstição e da Diferença, os perseguidores da Matemática, da Metafísica e de Mozart, os promotores da Felicidade e da Segurança e da Igualdade e da Indistinção. E esta vai finalmente estender-se por toda a terra, como um caldo morno e confortável, e o milénio durará exactamente mil anos. Continuar a ler

Sobre a América

Na sua obra L’Ère du Consommateur (Cerf, 2011) o escritor francês Laurent Fourquet analisa a época contemporânea a partir da sua Figura central, o Consumidor. Esta substitui a que fora a figura dominante na época imediatamente anterior, o Trabalhador, celebremente descrita há quase um século atrás pelo filósofo e romancista alemão Ernst Jünger (ver, por exemplo, O trabalhador: domínio e figura, Hugin, 2000 [1932]). Uma FIGURA historial, como o Cavaleiro medieval, o Burguês do século XIX, o Trabalhador da primeira metade do século XX, ou o Consumidor contemporâneo, não deve ser entendida como um tipo de ser humano concreto e particular, susceptível de ocorrer com maior ou menor frequência ao longo da história, como o são os tipos humanos descritos pela ciência psicológica ou recortados por uma função económica ou laboral. A Figura, contrariamente a estas possibilidades humanas acidentais, é uma entidade ontológica, isto é, uma FORMA (Gestalt) que representa a essência própria do Homem em cada época histórica. Deste modo, o Consumidor não é apenas um (qualquer) ser humano que, por causa das exigências da condição biológica, acontece também consumir. Neste sentido estrito — o de consumidor como sendo aquele que consome — todos os seres humanos são, por definição, consumidores. Ao invés, o Consumidor de que trata Fourquet é, por destino metafísico, o Consumidor, uma certa entidade que emergiu recentemente na História e se instala, a partir de si mesma e para si mesma, no Consumo como única possibilidade de ser, com exclusão de todas as demais possibilidades. O Consumidor consome, e este é o seu destino.

Vem isto a propósito de uma curta passagem em que Laurent Fourquet descreve, de forma breve mas exacta, o que separa a América (quer dizer, os Estados Unidos) da Europa nesta dimensão fundamental.

O livro foi escrito, recorda-se, em 2011. A transcrição apresentada está no francês original. Continuar a ler

O DINHEIRO DINAMARQUÊS

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Rudyard Kipling escreveu, em 1911, um poema intitulado Dane-Geld, em português ‘dinheiro [ou ouro] dinamarquês’. A expressão refere-se ao hábito que os anglo-saxões e os franceses tinham, na Idade Média, de entregar aos vikings um tributo em ouro para evitar que estes saqueassem as suas terras. Era, basicamente, um suborno ou um pagamento, por parte de urbanos instalados, aos rústicos por instalar. Lembro aqui este poema a propósito do que hoje se passa um pouco por todo o lado na velha Europa. E lembro-o também a propósito da nossa relação — nossa, quer dizer, dos portugueses — com certos parceiros abastados que nos pagam há muito tempo para sermos uns parentes de aldeia com o mínimo de maneiras à mesa. Continuar a ler

Rios de Sangue

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Há um pouco mais de cinquenta anos, no dia 20 de Abril de 1968, o classicista e político inglês Enoch Powell, então membro destacado do Partido Conservador britânico, pronunciou um discurso sobre os perigos da imigração irrestrita no Reino Unido. Este discurso ficou conhecido como o “Discurso dos Rios de Sangue”, por causa de uma referência à Eneida de Virgílio, que ocorre perto do fim: “E, quando olho para o futuro, invade-me um pressentimento funesto; tal como os romanos, parece-me ver o rio Tibre fervilhando de tanto sangue.” O discurso, lido num encontro de uma Associação Conservadora em Birmingham (ó, a ironia!)  provocou uma comoção tremenda no país, com muita gente a acusar Powell de racismo. Edward Heath, o leader dos Conservadores, demitiu Powell do seu gabinete sombra. Numa sondagem Gallup realizada em 30 de Abril, 74% dos inquiridos concordaram com o discurso e 15% discordaram. Em 1970, dois anos depois, os conservadores recuperaram o governo numas eleições que venceram por larga margem, um sucesso atribuído por muitos a Enoch Powell.

Cinquenta anos depois, compete aos leitores ajuizarem da profecia de Enoch.

O discurso é o seguinte (em inglês):

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The supreme function of statesmanship is to provide against preventable evils. In seeking to do so, it encounters obstacles which are deeply rooted in human nature.

One is that by the very order of things such evils are not demonstrable until they have occurred: at each stage in their onset there is room for doubt and for dispute whether they be real or imaginary. By the same token, they attract little attention in comparison with current troubles, which are both indisputable and pressing: whence the besetting temptation of all politics to concern itself with the immediate present at the expense of the future.

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GUERRAS CULTURAIS

No mesmo lugar em que publicou o texto sobre a eutanásia que transcrevemos anteriormente, o esplêndido Murray N. Rothbard dissertou sobre a guerra em curso pela mente humana e pelo controlo cultural do Ocidente e na qual, como se sabe, a esquerda está a vencer por dez a zero. Publicamos em baixo um extracto dessa passagem, em que omitimos apenas o que nos pareceu secundário para o argumento, sobretudo por mencionar eventos ou protagonistas que pouco dirão hoje a habitantes desta língua e deste lado do Atlântico. Mantivemos Pat Buchanan, praticamente um fóssil político, os incríveis Clintons – a inefável Hillary e o marido, a que Rothbard chama apropriadamente Slick Willie (O Willie Escorregadio) – e Woody Allen, este protótipo do Judeu Útil, uma personagem sem a qual o século XX e o seu filho XXI dificilmente serão compreensíveis. Falta a eminência parda do amor universal e igualitário, George Soros, mas não se pode ter tudo. E Rothbard morreu em 1995, que diabo.

(Publicado in Rothbard, Murray N. (2000) – The Irrepressible Rothbard, The Center for Libertarian Studies, Inc. Burlingame, California, pp. 289-298.)

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KULTURKAMPF
October 1992

Murray N. Rothbard

Yes, yes, you rotten hypocritical liberals, it’s a culture war! And high time, too! It is, of course, typical of our liberal “intellectual” and media elite: after having ridden through and captured our culture, after twenty-odd years (at least!) of their cultural conquest of America proceeding almost unopposed, after completing their successful Gramscian (note: much revered Italian Stalinist of the 1920s) “long march through our institutions,” liberals were just about ready to sit down and treat us as their conquered province. When suddenly, some of us beleaguered provincials began to fight back—rallied, of course, by Pat Buchanan’s speech at the Republican National Convention.

(…) Gee, since when has politics ever “divided” us? I thought, and until the twentieth century it was gloriously true, that the whole point of politics is to “divide” people, to separate people by principle and ideology and to have them slug it out, each trying to gain a majority support of the population. Isn’t that the point of democratic politics, of a more-than-one party system?

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O HUMANITARISMO DA GUILHOTINA

Escrevendo em 1991 para um periódico que publicava juntamente com Lew Rockwell, The Rothbard-Rockwell Report, Murray N. Rothbard dedicou duas páginas ao tema da eutanásia. Encontrá-las-eis a seguir, no inglês original do autor. É possível ver nestes curtos parágrafos que o tema tinha já então, há quase trinta anos atrás, os contornos que hoje toma neste pequeno canteiro de nabiças inanes à beira do Atlântico. Não há nada de novo, ao que parece, debaixo do sol.

[O original deste texto encontra-se em Rothbard, Murray N. (2000) – The Irrepressible Rothbard, The Center for Libertarian Studies, Inc. Burlingame, California, pp. 301-303.]

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THE RIGHT TO KILL, WITH DIGNITY?
July 1991

 Murray N. Rothbard

For a long time now we have been subjected to a barrage of pro-death propaganda by left-liberals, and by their cheering squad, left, or modal, Libertarians. The “right to die,” the “right to die with dignity” (whatever that means), the right to get someone to assist you in suicide, the “right to euthanasia,” etc. Up till now, left-liberals have at least appeared to be scrupulous in stressing the crucial importance of consent by the killed victim, because otherwise the right to die with dignity looks very much like the right to commit murder. For what is compulsory euthanasia but murder, pure and simple?

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Uma fábula sem moral

Uma fábula sem moral

Num país distante, há muito tempo atrás, houve umas eleições para escolher o governo. Concorreram três partidos, o A, o B e o C.

O partido A defendia a liberdade, as virtudes cívicas, a justiça social, o investimento, a cultura, a pátria e a república. O partido B era defensor da república, da qual se considerava aliás a própria incarnação, e da justiça social, das virtudes cívicas, da liberdade, da cultura e, depois de conversar por uns instantes com os seus botões, da pátria e do investimento. O partido C, constituído sobretudo por gente severa e ressentida, que viera das trincheiras de antes da grande guerra, defendia a justiça social, a cultura, a justiça social, a república, a justiça social, a pátria e finalmente — espero não me estar a repetir — defendia com unhas e dentes a justiça social, que encarava como coisa sua e usava ao peito como uma mãe usa o bebé que amamenta.

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Para acabar de vez com o 25 de Abril

Vai por aqui uma agitação, a propósito dos 40 anos do 25 de Abril de 1974, e das comemorações da data na Assembleia da República. Ao que parece, uma organização de militares mais ou menos participantes no golpe reclama o direito de discursar na AR, contra a vontade da Presidente da mesma, e da maioria dos deputados. Não quero tomar partido nesta contenda, que não me interessa minimamente. Percebe-se que uns sejam contra e outros a favor. São os tiques das ideologias, que não são para tomar a sério.

Mas este episódio e a conjuntura de crise trouxeram a questão do 25 de Abril à consciência do presente e isso já me parece importante. Há dias escrevi, a esse respeito, este curto texto na minha página do Facebook:

“Irrita-me sobremaneira o folk-lore do 25 de Abril. Não por razões ideológicas, porque cada um tem o 25 de Abril que quer, mas por razões de saúde mental. O 25 de Abril é como o Sebastianismo, um sebastianismo de feitura recente e, por isso, sem sequer a dignidade da patina do tempo. Os portugueses, em vez de olharem para o presente e para o futuro, olham para o passado de há 40 anos atrás, como se deste pudesse vir uma mão ectoplasmática que os salvasse. Não há qualquer salvação aí, qualquer inspiração, a não ser a de uma vaga metáfora de liberdade, tão vaga que não diz mais do que uma balada passadista dirá ao coração de um amante desiludido. O 25 de Abril foi noutro tempo, noutro mundo. Esse mundo já não existe. A Europa é outra, e o resto do mundo não ficou à espera que nos resolvêssemos. É altura de crescermos.”

Não era para voltar ao assunto. Mas a discussão que este pequeno e inócuo texto desencadeou levou-me a pensar ser pertinente desenvolver um pouco mais a coisa.

Em primeiro lugar, há a questão — objectiva, quer dizer, real — do tempo que passa. Sei que a realidade irrita muita gente, a qual só se sente bem quando está instalada na segurança do seu mundo interior, onde as objecções não chegam; mas a verdade é que os números não mentem. E os números são estes: desde 1974 até hoje passaram 40 anos, muitos mais do que os que tinham passado, por exemplo, entre o final da 2ª Grande Guerra, em 1945, e essa mesma data de 1974. Neste último caso, tinham passado apenas 29 anos. Vinte e nove! Dá para acreditar? Parece, dito assim, impossível. Os que me lêem agora e que estavam vivos nesse ano de 1974 podem confirmar que esta incredulidade é real: quantos de vocês pensaram, nesse dia de 25 de Abril de 1974, na 2ª Grande Guerra? Quantos de vocês tinham, digamos, no fundo da memória esse colossal evento? Se eram como eu, que era então um jovem de 20 anos, nenhum. A Guerra era uma coisa do ‘passado’, a Guerra era passada. Tinham decorrido 29 anos sobre a derrota militar e a morte de Hitler, sobre a Shoah (o holocausto), a Alemanha reconstituía-se, a nova União Europeia avançava a passos de gigante, nós ouvíamos os Beatles e os Kraftwerk, a Nina Hagen ia começar a cantar como ninguém, e a guerra era o passado.

Este é o primeiro facto objectivo: 40 anos é muito tempo, uma quase eternidade no tempo acelerado da História em que vivemos. Daí o meu apelo no Facebook: hora de enterrar a coisa, de passar à frente, folks! O 25 de Abril é uma velharia, uma peça de antiguidade histórica. É malsão para nós continuarmos agarrados a isso, e um pouco ridículo até: que pensaríamos nós, em 1974, dos ingleses ou dos franceses se estes ainda pulsassem e vivessem com as palavras de ordem de Churchill e do general de Gaulle, enquanto construíam pontes e auto-estradas, ou enquanto fabricavam Renaults e Land Rovers?

Mas há mais dois ou três pequenos factos objectivos, que a própria distância nos permite agora abordar tranquilamente. E estes têm a ver com o 25 de Abril propriamente dito e com o que pode ser o seu significado para nós, hoje, como povo.

Diz-se que o 25 de Abril é a data da instauração da liberdade política. Em grande parte, é verdade. É indiscutível que o regime anterior, derrubado pelo putch militar, era opressivo. Politicamente tínhamos por detrás 45 anos de monolitismo político-partidário — não de fascismo, que este verdadeiramente nunca existiu no país e, de qualquer modo, em 1974 o regime já não tinha a abrasividade dos tempos áureos das décadas anteriores, muito menos a dureza dos anos 30. Havia presos políticos em Caxias — quase todos militantes do Partido Comunista — e umas centenas de agentes da PIDE, mas a maioria esmagadora dos portugueses não era incomodada no seu dia-a-dia, e gozava-se uma certa liberdade económica e de circulação. Podia-se viajar para o estrangeiro e até as mulheres, se bem me lembro, o podiam já fazer sem autorização dos maridos. A partir da ascensão ao poder de Marcelo Caetano, em 1969, toda a gente sentia que o regime estava a acabar, quanto mais não fosse por razões de puro realismo económico: a constituição do espaço de livre circulação na Europa, a adesão de Portugal à EFTA, a lenta mas firme mundialização da economia, tornavam impossível, mesmo aos duros do regime, o isolamento. A famosa frase salazarista: ‘orgulhosamente sós’, era uma boutade que talvez tivesse feito algum sentido — isto é, talvez tivesse tido alguma correspondência na realidade — nas décadas do pós-guerra, mas era cada vez mais inverosímil em 1974. Mais uns anos e a coisa resolvia-se. Como em Espanha acabou por suceder, aliás.

De modo que, se o 25 de Abril de 1974 pode de facto ser comemorado como data de libertação, a distância actual permite-nos dizer que essa libertação estava no ar. Se não tivesse ocorrido nesse dia, teria ocorrido inevitavelmente em data posterior próxima. Poderia ser em 1975, ou até em 1980, mas olhando a partir deste ano da graça de 2014, qual a importância de um ano ou mesmo de cinco? Este é, portando, o segundo facto objectivo: libertação sim, mas não contra todas as expectativas. A liberdade era questão de meses.

Mas continuemos.

O terceiro facto objectivo tem a ver com as consequências económicas a curto e médio prazo do putch militar. É inegável que os dezanove meses entre o 25 de Abril e o 25 de Novembro do ano seguinte (vamos tomar esta última data como referente cómodo, sem pretensão de rigor) assistiram ao desmantelamento da economia nacional. Com a distância que hoje temos, há que admitir que o que se passou nesse período — o chamado PREC — foi surrealista. Os grupos económicos e financeiros nacionais foram desmantelados, as empresas produtoras reduzidas a fanicos, a produção afundou. Com a descolonização (falaremos dela daqui a pouco), a perda dos recursos e do mercado das ex-colónias e a necessidade de acolher centenas de milhares de compatriotas subitamente reduzidos à miséria, a coisa agravou-se ainda mais. Tudo isto podia e devia ter sido previsto pelos estrategos do 25 de Abril — os capitães de Abril? — mas não foi. É elementar, quando se derruba um regime — e foi um regime que se derrubou, não apenas um governo — prevenir-se o dia seguinte, isto é, ter uma resposta plausível para a pergunta: e agora? Mas, e esta é a possibilidade mais benevolente que me ocorre, tal não foi prevenido. Nos dias seguintes, passada a euforia imediata, valeu tudo. O partido comunista, aparentemente o mais preparado, tomou conta do país. O PS era o Mário Soares e mais uns rapazes de Genebra, vindos apressadamente e a apertar as calças para não perderem o comboio. As hierarquias militares e a intelligentia foram decapitadas, ficaram garotos a comandar os quartéis e a passar diplomas nas universidades. Espectáculo inacreditável. (Lembro, era já docente incipiente, uma reunião em Vila Real, num pavilhão gimnodesportivo superlotado por professores e alunos do secundário, um capitão ou major [Alves, se não me engano], graduado — imaginem — em Ministro da Educação, rodeado por sargentos e tenentes milicianos em farda militar aparatosa, a perorar aflitíssimo sobre política educativa e alfabetização. Era interpelado pelas gentes, professores ignorantes e alunos semi-analfabetos, e lá ia dizendo o que podia e sabia sobre o futuro da educação e da cultura do país. Parecia uma reunião ministerial em comité, mas com centenas de directores-gerais a pontificar nas bancadas e gente a tratar o ministro por camarada. Parecia, e era, uma opera buffa.)

Não exagero. Mas o pior não foi esta opereta, mas o que aconteceu depois e em parte por causa dela. Estabilizado o poder depois do 25 de Novembro, havia que preencher o vazio da política e da administração económica. E naturalmente o vazio, a que a natureza tem proverbial horror, foi preenchido. Mas à pressa e pelos mais lestos, os quais são, por via de regra, não os mais sábios e dignos, mas aqueles a quem o excesso de escrúpulos não tolhe o passo. Tenho para mim que uma parte da baixeza moral e do cinismo que caracterizam a classe governativa do país nesta terceira república vem daí. Foi criada por essas circunstâncias e à imitação dos inúmeros oportunistas e vira-casacas que fizeram então uma carreira. Hoje diz-se que os políticos e os deputados estão mal preparados, e que os da geração anterior, a que escreveu a Constituição, é que era boa. Tolice! A Constituição é um documento doutrinário lastimável, impróprio para uma sociedade livre e dinâmica, uma aberração legal. E os políticos da época não eram melhores do que os de hoje. Excluindo uns idosos que foram buscar à prateleira para tirar os protagonistas dos apuros em que a sua incompetência os metia, eram todos incapazes de gerir uma empresa, quanto mais um país. Os de hoje são, talvez, mais cínicos e venais, porque a ideologia e a paixão já não existem, mas não são, por grosso, mais incompetentes. Como em tudo na vida, a distância faz-nos o favor de nos tornar amnésicos.

Finalmente, houve a abominação que dá pelo nome de Descolonização. Eu não quero dizer que não existisse um problema colonial, claro que existia. A ideia de um país multirracial era uma ilusão, já impossível nos anos 50, completamente impraticável na década de setenta, a do clímax da Guerra Fria. De modo que era necessário descolonizar. Por mais que alguns portugueses brancos de Angola e Moçambique teimem ainda em dizer que era possível resistir, criar países viáveis com uma minoria branca ao leme, ou em regime de convivência multirracial pacífica, isso não era possível. Mas uma coisa é certa: o que se fez foi inominável de incompetência e de cobardia. De um dia para o outro, o poder político aqui — e, recorde-se esse era também o poder militar aqui e — abandonou centenas de milhares de pessoas à sua sorte, sem possibilidade de defesa, e sem sombra de dignidade. O resultado foi criminoso. Portugal — se podemos por momentos entregar-nos ao devaneio de falar de Portugal como se fosse uma pessoa com consciência de si — deveria, deve, envergonhar-se profundamente desta página da sua história, uma das suas mais negras, talvez a mais negra de todas.

E esta página vergonhosa é também 25 de Abril. Não, não é apenas um episódio, diluível entre tantos outros. É um episódio central, e totalmente da responsabilidade de quem planeou e executou o golpe. Dos tais militares que se organizaram em MFA. De muitos, suponho, que hoje querem falar na Assembleia da República. É deles sobretudo, e não, ao contrário do que se diz, de Mário Soares, que pouco poderia fazer perante a consumação do mal. Paz ao doutor Soares, que, sendo embora um fanfarrão um pouco imbecilizado pelo excesso de prosápia, deve ser exonerado deste pecado.

Em suma, os factos objectivos: o 25 de Abril deu-nos a possibilidade da liberdade antecipada e trouxe a ruína económica, o cinismo político e a maior vergonha da nossa história como comunidade. Não é um belo retrato.

Porque é que se celebra, então? Ora, celebra-se porque se tem de celebrar. Há um embaraço de razões que o explicam. Consideremos, desde logo, uma razão banal, que tem a ver com o que chamaremos a necessidade de legitimação, a necessidade de as pessoas justificarem a ordem, mesmo odiosa, em que vivem e a que se submetem. Esta necessidade de legitimação é útil aos senhores, é evidente, mas é, e isso é frequentemente esquecido, absolutamente indispensável aos servos. Tal como a religião, que consola perante a ideia da morte, as fanfarras, os heroísmos imaginários e as datas simbólicas consolam perante a iniquidade da vida e justificam as imperfeições do presente. Sem datas, as comunidades desagregam-se.

Há, depois, uma outra razão, mais subtil. Toda a ordem nova, seja ela qual for, instala-se após e por cima de uma desordem, da qual resultou criminosamente. Digo ‘criminosamente’ porque, aos olhos da ordem que é desmantelada, a desordem da destruição é necessariamente um crime. Há, por exemplo, uma circunstância histórica raramente notada, mas que é óbvia quando se pensa nisso: toda a nação, concebida como uma comunidade que se assume como unitária e por isso distinta das demais, é o produto de um crime original, pelo qual se separou de uma comunidade anterior que obrigatoriamente a englobava. Este crime original é, para retomar uma referência freudiana, análoga ao parricídio instaurador da civilização, e é de facto e mesmo uma espécie de parricídio, ou, falando mais propriamente, de matricídio, se concedermos que uma comunidade é coisa talvez do domínio mundanal do feminino. Ora, uma revolução dá, de certa maneira, e pela violência explícita, origem a uma nova comunidade, na qual as hierarquias e as funções são redefinidas e o corpo concreto da comunidade passa a ser outro. A comunidade refunda-se, por assim dizer renasce. Este acto refundador violento precisa de uma justificação, daí a mitologia de que se rodeia, e que é uma espécie de narrativa que denigre o passado e exalta o futuro. É, claramente, uma mitologia, sem qualquer fundamento no real, o qual nunca é mitológico, mas sim e sempre friamente objectivo. Esta mitologia simboliza, sublima, conta uma história da qual o mal foi retirado por um mecanismo de repressão colectiva análogo ao recalcamento de que fala precisamente a psicologia das profundezas.

É claro que, à medida que o tempo passa, as novas gerações, que já não guardam memória do pecado anterior, e que se acostumaram a viver na nova ordem como se esta estivesse inscrita por decreto na natureza do cosmos, precisam cada vez menos — até pura e simplesmente deixarem de precisar — dessa mitologia sublimadora. Precisam de datas, como dissemos atrás, mas não da mitologia e do mecanismo sublimado, ao qual são completamente alheias. E é assim que o 25 de Abril das paradas e dos discursos oficiais é apenas a casca exterior desse núcleo original perturbador, como a pele deixada para trás de um ofídio em crescimento, e assim será cada vez mais, até que finalmente a data represente para os portugueses, daqui a duas ou três gerações, o mesmo que o 5 de Outubro para os sexagenários do presente. E é também por isso que, por contraste, a sua celebração exaltada em certos círculos seja tanto mais ruidosa quanto mais evidente se torna, COM A DISTÂNCIA, o carácter problemático da desordem original em que consistiu. Parece um paradoxo, mas o paradoxo é apenas um trompe-l’oeil que resulta de não distinguirmos os planos em que uns e outros se colocam.

Então, e os apelos ao retorno ao 25 de Abril e aos seus valores? Não são sinceros? Não é verdade que hoje, e cada vez mais, nos blogues, nas redes sociais, nas ruas, se ouve gente gritar pelo regresso aos valores de Abril, à energia de Abril, à honestidade e pureza de Abril? Aos — em suma — ideais de Abril? É tudo isto mitologia e trompe-l’oeil? Sim e não.

Não, se consideramos que Abril não é, para a maioria dos que gritam, o Abril real de 1974, mas o Abril mitológico e sublimado de que falávamos atrás. Este Abril sublimado nunca se passou na realidade, apenas aconteceu na memória recalcada de alguns mais velhos e nas narrativas fantasiosas ouvidas por alguns mais jovem. É o Abril do romance, não da realidade. In illo tempore, quer dizer, em Abril, os homens eram puros e o povo generoso, o mel jorrava das paredes, o trabalho era alegre e a maldade inexistente… Neste sentido, os gritos por Abril são gritos por justiça e contra a miséria do presente. Perfeitamente compreensíveis e até admissíveis, desde que não desviem a atenção do real e paralisem a vontade de agir para o futuro.

Mas sim, se considerarmos aqueles que pedem um regresso a Abril sabendo muito bem o que pedem, porque estiveram lá e não esquecem o que perderam. Refiro-me, obviamente, aos militares de Abril e aos militantes quase militares de alguns grupos políticos para quem o 25 de Abril representou uma oportunidade de predominância política e de instauração de uma certa ordem. Ordem bem diferente da que existe actualmente e com a qual não se identificam. Mas estes, quando gritam por Abril, não gritam pelo mesmo Abril por que grita a maioria dos portugueses.

O trompe-l’oeil está precisamente aqui: o olhar, incapaz de resolver opticamente os dois planos da narrativa, teima em ver nesta uma estrutura unitária, sugerida pela realidade, ela sim unitária, da tela sobre a qual se pinta. Daí a oscilação e a tontura que nos acomete. Sempre por esta altura, na última semana do mês de Abril.

 

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A traição dos intelectuais

No meio das lamentações e gritos revoltados deste pobre povo português, que se vê obrigado a pagar, com o que já não lhe sobra, as dívidas contraídas pelo poder público, e assim vai soçobrando sob o peso da canga governamental, uma coisa me admira deveras: é que toda a gente protesta contra o governo – todos contra este, muitos contra este e os que o precederam – mas ninguém, repito, ninguém, protesta contra a IDEIA do governo, contra o próprio princípio que subjaze a todos os governos, quaisquer que eles sejam.

O que se ouve é reclamar outro governo. Como se não tivéssemos já experimentado tudo, da esquerda à direita, dos comunistas ao CDS. Já tivemos governos que nacionalizaram e governos que desnacionalizaram. Governos que contrataram gente e Governos que despediram gente. Governos que financiaram obras e governos que as mandaram parar. Governos que investiram em estradas e governos que disseram que não investiam em estradas. Governos de pensadores e de filósofos e governos de economistas e de gestores. Governos de teóricos e governos de pragmáticos. Governos que pagaram cursos e formações e computadores e internet, e governos que mandaram fechar escolas e desligar o aquecimento. Governos que decidiram gastar e governos que tiveram de poupar. Governos que chamaram o FMI e governos que não chamaram o FMI. Governos de gordos e governos de magros. Governos trauliteiros e governos amabilíssimos. Governos com católicos e governos com maçónicos.

Já experimentámos de tudo um pouco, e podemos dizer, com a modéstia e a segurança de uma evidência irrefutável, que esta crise se deve a todos esses governos, e não só a alguns. Deve-se aos PSD’s e aos Socialistas, aos Centristas e aos Comunistas, aos tecnocratas e aos sindicalistas, aos Regeneradores e aos Históricos, aos beatos e aos ateus. Todos os que passaram pelos sucessivos governos fizeram o que tinham a fazer, isto é, aumentaram a despesa e tolheram a comunidade. Gastaram dinheiro, cada vez mais dinheiro, enriqueceram-se e enriqueceram os amigos, e de caminho nada fizeram do que tinham prometido. Nem os portugueses ficaram mais ricos e cultos, nem o país saiu da cauda da Europa. E isto, meus amigos, não se passou num mês de namoro de praia, ou num ano de enlevo matrimonial, ou sequer numa década de ascensão à vida adulta. Passou-se durante décadas, séculos a fio.

E as pessoas, perante esta evidência, o que fazem? Pois, pedem outro governo. Pedem que saia este e entre outro, como antes pediram que saísse o que lá estava para entrar este que temos. Pedem que saia o Passos, certamente para entrar o Seguro, ou quem sabe o Sócrates, como antes pediram ao Lopes que saísse, para entrar o mesmo Sócrates, a quem, como é sabido, tinham pedido para sair para que entrasse o Passos. Uma dança sem fim, uma dança de São Vito.

Os governos são uma dança sem fim, um cordão interminável de contas que só a análise microscópica distingue umas das outras. Vistos à distância própria do olhar histórico – o olhar que não se prende ao fais divers dos hebdomadários – são todos iguais. Como dizia Bertrand de Jouvenel, “a sucessão de governos que, no decurso dos séculos, governa a mesma sociedade pode ser vista como um mesmo governo de fundo que vai tomando acrescentos sucessivos.”

A única explicação para isto, nestes tempos de ‘democracia’ em que supostamente os governos respondem à ‘vontade popular’, é que esta não vislumbra alternativas e faz seguir a procissão. Porquê? Talvez porque, meus amigos, a ‘vontade popular’ é amorfa, sem ideias, sem capacidade criativa, e só reage. Consegue protestar, a espaços, produzindo a famosa ‘violência’ de que falam, como se tivessem descoberto a pólvora, Soares e o Papa Francisco, a mesma violência que historicamente tem irrompido um pouco em todas as épocas e lugares, sempre que o pão e circo não chegam e a exploração se torna insuportável. Mas sabemos bem o que esses espasmos de violência produzem: um punhado de cabeças rolando fora do corpo, uma exaltação destrutiva, um recomeço da dominação sob novos senhores ou sob os mesmos maquilhados. E tudo volta ao que era dantes.

As massas não criam, vergadas que são pela ignorância e pelo peso dos hábitos ancestrais, não sabem que fazer. Os intelectuais, os pensadores, criam. Mas estes são pagos pelo poder, pelos governos. Dependem destes para receber empregos, subsídios, uma parte do imposto. Os intelectuais, se se atrevem a sugerir que não precisamos de governos, que há outra maneira, ficam a depender apenas do que produzem, ou seja, ficam entregues ao mercado. E o povo não paga ideias, não consome poesia ou tratados de metafísica. No mercado, os intelectuais ficariam a competir com os autores de telenovelas e de romances de pacotilha. Ou com os verdadeiros criativos, os Shakespeares da escrita, do pensamento, da ciência.

Os intelectuais – essa moderna versão do clero medieval – são os melhores amigos do poder, e os maiores inimigos da liberdade.

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Dia de reflexão eleitoral

Terá sido do almoço pesado uma carne assada com batatas a estalar ou então  pensou ele com um sorriso breve do vinho tinto da Sónia sim mais provavelmente do vinho a Sónia tem artes de meter o fogo e a terra dentro de uma garrafa mesmo sem rótulo. Mas a verdade é que deu por si a pensar muito lentamente os pensamentos escorrendo como mosto sentado na poltrona de vime na varanda das traseiras da casa a cabeça recolhida do sol apesar de tudo ainda quente neste final de setembro e uma levíssima brisa que descompunha os ramos das duas tílias e lhe acariciava os braços como se fossem as pontas dos dedos da mulher mas às três da tarde ela não faz isso não tem tempo para se sentar anda a esta hora ocupada com as outras mulheres têm todas tanto que saber das filhas das amigas quase tudo filhas só um rapaz solitário e algo descompensado no meio daquele gineceu não admira que o rapaz bata mal da bola pensou ele mas de qualquer modo a mulher não estava por ali era só ele as tílias os feixes grossos da luz solar a passar por entre os ramos e pelos intervalos das nuvens e dos toldos o vento e a vaga sensação que caía como uma toalha de torpor de que se fechasse os olhos teria uma revelação sobre a natureza da alma. Não propriamente da sua que é coisa de pouco interesse para ele mas da alma dos outros da alma dos homens das mulheres e das crianças. E dos velhos.

E depois de o sol traçar em silêncio um ângulo de quase 35 graus sobre a abóbada azul pintalgada de branco a mulher veio e acordou-o. Já sei para quem vai o meu voto disse ele de rajada e estremecendo discretamente. Para quem perguntou ela com um elevar de voz e de sobrancelhas característico. Não há novidade nisto neste erguer de tom é bem sabido que ela não gosta de políticos e acha a actividade deles sempre suspeita como se os políticos fossem antigos mestres-escolas ignorantes e sebosos que tentassem perverter a pureza cristalina da matemática com aproximações de circunstância ou explicar a poesia com citações de artigos de jornal sobre jogos de futebol. Para quem repetiu ela mas sabendo que ele iria dizer uma qualquer inconveniência ou uma frase sarcástica e girando o seu corpo para olhar para as tílias e pensando aí vem uma das dele a ironia oblíqua e eu penso se estará a falar a sério mas nunca está. Nunca está. E voltou-se para olhar para ele.

Os olhos dele brilhavam com uma sugestão de água por sobre as bolsas rosadas das noites de insónia. E no silêncio súbito que entre eles se fez no silêncio apenas preenchido pelo assobio quase imperceptível da brisa que passava entre os ramos acastanhados e quase esquálidos das tílias ele disse devagar e com uma solenidade inusitada vai para ti. Para mim ecoou ela porquê para mim não me explicas. Porque sim respondeu ele por seres linda como só a a verdade o sabe ser. E perante a expressão fechada dela as rugas à volta da sua boca e na sua testa finas como cabelos subitamente encanecidos os cabelos que ela tantas vezes deixa cair descuidadamente sem paciência para ser mulher ela que é mãe quase o tempo todo a preocupação assaltou-o como se um punho se cerrasse sobre o coração de repente pensando que talvez o seu momento tivesse passado que talvez o destino tivesse deslizado sobre ele como aquele sol distante e indiferente que não quer saber que aquece mas apenas cuida de brilhar e ele tivesse adormecido sem dar conta. E do fundo do silêncio que o fitava nos olhos dela ele arrancou a custo e num sopro rouco quase inaudível um acaso nunca to disse.

Sim retorquiu ela mas não nos últimos tempos não há já muito tempo porquê agora. Uma nuvem passou sobre o sol e na penumbra que se fez ele disse porque não tinha tempo para reflectir. E hoje é dia de reflexão. Ainda bem respondeu ela e sorriu e de repente era mais nova e tinha trinta e cinco anos no máximo não mais do que isso não mais do que a idade do seu cartão de identidade ainda bem que reflectiste e vais votar. Odeio quem se abstém. Eu também disse ele mentindo. Mas só voto na verdade.