England

Estes são uns dias complicados para os ingleses (e para os restantes habitantes das ilhas — os irlandeses, galeses e escoceses — mas estes são aves de diferentes penas, como por lá se diz). Quero por isso prestar-lhes uma singela homenagem, a minha forma de lhes desejar a melhor sorte deste mundo.

Os ingleses são um povo singular, que mostrou ao longo da sua história uma coragem, uma nobreza, uma capacidade de trabalho e uma inteligência indiscutíveis. É verdade que hoje, infelizmente, já não é assim, uma consequência triste do gradual apodrecimento da estirpe, um processo que vemos ocorrer também no resto do continente. Mas que importa! É dos ingleses que falamos: que possam ir buscar, na reserva mais antiga do seu ser, as energias necessárias para ultrapassar a provação!

John of Gaunt, Duke of Lancaster (1340-99) (tempera on panel)

O texto seguinte — a minha forma de os homenagear — é parte de um discurso que ocorre no acto segundo, cena primeira, da peça Ricardo II, de Shakespeare. Fala João de Gaunt, duque de Lencaster, tio de Ricardo II e pai de Filipa de Lencastre, esposa do nosso rei Dom João I. João de Gaunt é, assim, o avô materno dos membros da nossa ínclita geração. Na imagem acima vemo-lo pintado por Lucas Cornelisz. A inscrição refere Gaunt como rei de Castela e Leão, uma pretensão que ele tentou fazer valer em frustrada campanha militar por terras de Galiza, com um exército formado por ingleses e portugueses. Correu mal. O outro candidato e seu adversário militar, João de Trastámara, um aragonês conhecido entre nós por João I de Castela, haveria de ser desfeiteado, não muitos anos depois, pelo seu (e nosso) homónimo em Aljubarrota. Uma revancha apropriada. Continuar a ler

Monta a morte a sua corte

04330CFB-4AAE-4D26-BF17-789A21FEAC96Ricardo II (falando com o Duque de Aumerle):

Falemos de campas, de vermes, de epitáfios;
Façamos do pó papel, e com olhos rasos d’água
Ditemos lamentações ao ventre duro da terra,
Escolhamos executores, discorramos de legados:
E nem mesmo disso, pois que podemos nós legar
Excepto ao solo os nossos restos despojados?
As terras, até as vidas, tudo é de Bolingbroke,
E a nada, salvo à morte, chamemos de coisa nossa,
Ou a esse pequeno monte de terra estéril
Que servirá de veste mole dos nossos ossos.
Por Deus, sentemo-nos aqui mesmo, neste chão,
Da morte de reis contemos a triste história;
Alguns depostos; outros partidos na guerra,
Ou perseguidos pelo espectro dos que dizimaram;
Envenenados por mulheres; mortos no sono;
Todos assassinados: pois dentro da oca coroa
Que cerca as têmporas mortais de um rei
Monta a Morte a sua corte e nela toma assento,
Do homem escarnecendo, rindo da sua pompa,
Deixando-lhe tão só um suspiro, uma breve cena,
Para reinar, ser temido, matar com pose altiva,
E inchando-o assim de prosápia e vã vaidade,
Como se a carne que empareda a nossa vida
Fosse bronze inexpugnável, e, dest’arte divertida,
A nós por fim chegando e com pequena agulha
Rebentando a muralha do castelo e … era uma vez um rei!

(William Shakespeare, Ricardo II, Acto 3, cena 2. Tradução minha)