A morte do camareiro Brigge

Eis as entradas 6 a 9 do Caderno de Notas de Malte Laurids Brigge, de Rainer Maria Rilke. Descrevem a morte do avô de Malte e de outra gente variegada. E têm dentro, como grãos no âmago de um fruto, certas pequenas coisas, como galgos e mulheres grávidas. Apreciem.

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(6) Tenho medo. Mal o medo chegue, é preciso fazer algo contra ele. Seria muito mau adoecer aqui, e se ocorresse a alguém levar-me para o Hôtel-Dieu, eu certamente morreria. O Hôtel é agradável, muito popular. É quase impossível contemplar a fachada da catedral de Paris sem correr o risco de se ser atropelado por um dos muitos veículos que atravessam, rápidos, a ampla praça que conduz ao Hôtel. Estes pequenos coches estridulam sem cessar, e até o duque de Sagan teria de mandar parar o seu se se metesse na cabeça de um desses pequenos moribundos dever ir imediatamente ao Hôtel do Bom Deus. Os moribundos são teimosos, e Paris inteira pára quando madame Legrand, a brocanteuse da Rue des Martyrs, se dirige a esta praça da Cité. É de notar que estes pequenos veículos diabólicos têm janelas de vidro fosco invulgarmente sugestivas, atrás das quais podemos imaginar as mais esplêndidas agonias; basta para isso a fantasia de uma concierge. Caso se tenha mais imaginação, e ela se desenvolva por outras direcções, as conjecturas são praticamente infinitas. Mas também vi chegarem coches abertos, coches de aluguel com a capota descida e que cobravam a tarifa habitual: dois francos. É o que custa aqui a hora da morte.

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Outono, um poema de Rilke

Herbst

Die Blätter fallen, fallen wie von weit,
als welkten in den Himmeln ferne Gärten;
sie fallen mit verneinender Gebärde.

Und in den Nächten fällt die schwere Erde
aus allen Sternen in die Einsamkeit.

Wir alle fallen. Diese Hand da fällt.
Und sieh dir andre an: es ist in allen.

Und doch ist Einer, welcher dieses Fallen
unendlich sanft in seinen Händen hält.

Outono

As folhas caem, caem como na lonjura,
Como se murchassem jardins no céu distante;
Caem num gesto que se nega e erra.

E cai pelas noites a nossa densa Terra
Com as estrelas todas na solidão escura.

Todos nós caímos. Cai esta mão branca.
E as outras caem: por onde quer que se olhe.

Porém Um há que nas suas mãos nos colhe
E com infinita doçura esta queda estanca.

Rainer Maria Rilke, 11/09/1902, Paris

[Dedicado à Maria Gabriel, com todo o carinho do mundo]

outono

O homem invisível

(a Rainer Maria Rilke)

Tens de nascer com o dom primeiro.
O de olhar, não as pessoas e as coisas,
Mas o espaço que se abre entre elas.
De seres em tudo um estrangeiro.

Depois, é fácil: cultivarás o dom da espera.
Trinta anos, o tempo de morreres quem foste,
De seres tão-só o fumo da antiga glória.
A sombra de uma nuvem na atmosfera.

Por fim, a obra a sério, a que precede a Hora.
Sete anos guardarás de luto, e o absorto passo
Da fera que à noite percorre os cemitérios.
Até que venha a liberdade que em ti mora.

A qual revelará, se tudo correr bem, seu nome.
“Houdini sou, senhor dos interstícios e das fugas.
Aquele que prepara a mesa aos saciados.
E recusa o alimento a quem tem fome.

Comigo aprenderás a arte nobre e derradeira.
Não a de olhares – que o olhar trai ainda a desmesura –
Mas a de existires nos intervalos entre as coisas.
E de seres, por fim, ausência pura e verdadeira.”

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A Pantera (no Jardin des Plantes, Paris)

Há muito que luto com este poema de Rilke, der Panther. A tradução que se segue não me satisfaz, mas confesso que estou, como a pantera, exausto de andar às voltas com as palavras. Ei-la:

Além da grade, a nada mais se agarra,
O olhar tomado de um torpor profundo.
Dez mil grades se fazem uma amarra
E, aquém das dez mil grades, nenhum Mundo.

O andar elástico com fortes passos dentro,
Em apertadas voltas se cerra constrangido.
É uma dança de força em torno a um centro,
No qual um querer enorme jaz entorpecido.

É só às vezes que o pano das pupilas se rende
Sem ruído a algo. – Uma imagem entra então,
Aos seus membros em silêncio tenso ascende, –
E cessa de existir, quando chega ao coração.

Rainer Maria Rilke