O Futuro já chegou

Achais que não se pode prever o futuro? Que o dom da profecia foi uma superstição de rústicos da idade do bronze? Que o Espírito se calou de vez e Deus já não sussurra aos ouvidos dos seus o que Ele quer que os homens saibam? Que já não há Verdade?

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Então lêde esta passagem de Dostoievski, escrita em 1881. O Inquisidor fala com Cristo e descreve-lhe com minúcia exacta o que hoje está a acontecer. E o que vem aí, a galope, pela mão dos zeladores da humanidade, os Grandes Humanistas, o Concílio da Bondade Universal, os Cientistas e os Crentes da Igreja do Bem, o Papa da Roma Pachamama, os Oficiantes da Grande Obediência, os oráculos da Razão Universal, os zurzidores da Superstição e da Diferença, os perseguidores da Matemática, da Metafísica e de Mozart, os promotores da Felicidade e da Segurança e da Igualdade e da Indistinção. E esta vai finalmente estender-se por toda a terra, como um caldo morno e confortável, e o milénio durará exactamente mil anos. Continuar a ler

O INIMIGO PERFEITO

O Covid-19 é o evento ideal. Inventado, não teria sido mais perfeito. Moralmente é irrespondível. Não queres obedecer porque tens, dizes, o gosto da antiga liberdade? Porque te dizes senhor do teu destino? Dono do teu risco? Se quiseres sê-lo, sê-o, nós não te obrigamos, mas lembra-te, criança, que o que fazes não termina em ti, afecta os outros, sobretudo os velhos e os doentes, os que são mais frágeis. Se não obedeceres, serão os outros a pagar. E a tua rebeldia será marcada pelo opróbrio. Ficará presa à tua pele, muito mais do que a máscara que, insolente, te recusaste a colocar.

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O que é o socialismo?

Já apresentámos, há algum tempo atrás, um texto do filósofo polaco Leszek Kolakowski. Cabe hoje a vez de um panfleto que ele redigiu em 1956 para um jornal estudantil de Varsóvia, e cuja publicação foi barrada pelo censor. Afixado a seguir num mural da Universidade de Varsóvia, foi prontamente confiscado pelas autoridades, tendo circulado posteriormente em cópias clandestinas. O escrito, intitulado O que é o socialismo?, data da fase revisionista do autor, na qual já se consumara a ruptura com o comunismo soviético, mas não ainda a separação da tradição filosófica de que esse comunismo oficial se reclamava.

A presente tradução portuguesa é feita a partir da edição norte-americana, publicada por Agniezska Kolakowska, sua filha, em “Leszek Kolakowski, Is God Happy? Selected Essays, Basic Books, 2013, pp. 20-24.”


 

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O QUE É O SOCIALISMO?

Pretendemos dizer-vos o que é o socialismo. Mas primeiro temos de vos dizer o que não é — e as nossas ideias sobre este assunto foram outrora muito diferentes do que são actualmente.

Eis, então, o que o socialismo não é: Continuar a ler

Igor Shafarevich – O Fenómeno Socialista

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Igor Shafarevich (1923-2017) foi um matemático e filósofo russo, e uma figura destacada do movimento de contestação ao comunismo soviético. Participando, ao lado de Soljenítsin, Sakharov, Yanov e outros, no movimento Samizdat, Shafarevich é sobretudo conhecido, para além das suas obras de matemática, por dois importantes ensaios de filosofia política: Russofobia, em que procurou analisar o ódio à Rússia por parte dos intelectuais russos que procuravam a modernização do país, e entre os quais se encontravam muitos dos seus companheiros da Samizdat, e O Socialismo como Fenómeno da História Mundial, uma tentativa de compreender a essência do socialismo, não apenas na sua encarnação mais recente, a da União Soviética marxista, mas ao longo da História. Esta essência encontra-a Shafarevich na “pulsão da morte”, no desejo de aniquilação do humano que está presente no pensamento e na praxis de algumas das mais destacadas figuras da história política e intelectual da humanidade e que, segundo ele, anima igualmente, ainda que de uma forma subterrânea e inconsciente, as multidões que o entusiasmo revolucionário acomete periodicamente. No caso do fenómeno socialista propriamente dito, esta “pulsão da morte” manifesta-se especificamente na vontade de destruir a individualidade humana. O indivíduo é, enquanto lugar do Ser e da liberdade a que o Ser obriga, o grande obstáculo à realização do Nada, e portanto, o obstáculo que deve ser eliminado para se extinguir o sofrimento e a dor da existência. Tal é a pretensão do Socialismo. E tal é a sua essência.

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