O Gato

Já encontrámos o polícia Navajo Jim Chee por aqui às voltas com uma águia. Agora é com um gato. Na realidade Navajo, e em geral entre os povos tradicionais, os animais não são — ao contrário do que tendemos hoje a pensar na nossa deriva ‘anti–especista’ — pessoas apenas um pouco mais pequenas, como se ser um humano ou ser um animal fosse apenas uma questão de grau, e os animais uns humanos mais inocentes e mais próximos da pureza essencial. Com ‘direitos’ que reconhecemos e protegemos, como os ‘direitos’ das crianças. Não, para os Navajos os animais são exactamente isso mesmo: animais, ou seja, seres outros, cada um deles um habitante de um plano da existência distinto do humano. Diferentes de nós. E, porque diferentes de nós, seres que existem a uma distância que os faz mais respeitáveis e mais dignos de consideração. Como aliás sucede no mundo humano, a distância é a marca da importância e da dignidade: quanto mais importante é o homem, mais distante ele é. O gato desta estória ganha importância, isto é, ganha distância. Mesmo que, como se verá, pareça a dado momento encurtá-la. Mas isso é só uma ilusão.

O texto que vão ler é retirado da novela de Tony Hillerman, Skinwalkers. A tradução é, como quase sempre neste blogue, da minha responsabilidade.

skinwalkers

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Como apanhar uma águia

Chief Gall

Chefe Gall, Hunkpapa Lakota.
Fotografia: R. L. Kelly’s Studio, Pierre, Dakota do Sul, circa 1880.

“O tenente-interino Jim Chee chegou cedo e bem preparado a Yells Back Butte. Subiu ao desfiladeiro quando a luz da alvorada mal iluminava o céu por cima da Black Mesa, levando consigo os binóculos, uma gaiola de águia, o seu almoço, um cantil de água, um termos cheio até um terço de café, um coelho e o seu rifle. Descobriu a plataforma rochosa inclinada onde Jano dissera que a encontraria, deu um arranjo ao tojo do tecto do esconderijo. Do saco de mezinhas retirou o saquinho de pele de gamo e deste extraiu a cópia em pedra polida de um texugo, que Sam Nakai lhe dera como fetiche de caça, e um frasco de aspirinas, que continha pólen. Segurou o fetiche na mão direita e espalhou sobre ele um punhado de pólen. Depois virou-se para leste e esperou. Quando o rebordo do sol apareceu, cantou a sua canção da manhã e espalhou no ar uma oferenda de pólen do frasco. Feito isso, passou para a canção de caça, que dizia à águia o seu respeito por ela, e lhe pedia que aparecesse e participasse no sacrifício que a conduziria à sua próxima vida com a sua bênção, salvando, talvez, a vida do Hopi cujo braço ela rasgara. Continuar a ler