O touro Ferdinando

Ontem o meu amigo A. estava febril e, por prudência, fez-me saber que não saía. Levei por isso comigo para o café um dos romances de Arturo Pérez-Reverte sobre a guerra civil espanhola, Eva, para me entreter nos intervalos do futebol. Brinco, claro. A televisão do café transmitia o noticiário da noite, e explorava com denodo o tema forte do dia: o IVA das touradas.

De modo que acabei por ter a leitura interrompida por G. e C., dois velhos compinchas da minha juventude. G. é um veterano do Partido Comunista, no qual já obedeceu a todas as ordens e passou com êxito por todas as ordalias. Não tem, por isso, nada que provar. C. é comunista também, mas de uma estirpe mais venal, mais amanteigada. Veste melhor e tem a pele cuidada. Não usa boina. E preferiu o Bloco de Esquerda, uma congregação com um ambiente por certo bem mais acolhedor. Eu lia, quando se vieram sentar à minha mesa, aquela passagem do livro em que a dita Eva, uma agente soviética da tcheca a operar em Barcelona como controleira da República, revelava a Falcó, um operacional dos serviços secretos franquistas, que fora chamada a Moscovo e que, apesar da sua impecável fé na revolução, não esperava regressar. “Deveras?”, pergunta-lhe Falcó. “Sim. Nem todos os que vão, voltam,” responde Eva.

A conversa prossegue. Falcó quer saber por quê, que crime cometera Eva aos olhos do Partido. E esta explica: “Talvez o de antepor ainda, de modo burguês, os sentimentos à ideia colectiva da humanidade.” “Falas de morrer.” “Isso não é assim tão horrível. Nós, humanos, levamos milhões de anos a morrer.” “E a tua vida? A tua felicidade?” “A vida não é mais do que uma preocupação burguesa. E a felicidade, um problema de engenharia social.”

G. e C. estão obviamente de acordo. Comigo sentem-se à vontade e expõem abertamente as suas ideias. Não lhes ocorre negar ou fingir que lamentam os mortos de Estaline ou Mao, de que discutem o número, mas não o fundamento. Se há algo a lamentar não é que tenham sido mortos em excesso, mas que não tenham sido, como me diz G., “os necessários”. Ou nos momentos necessários. O que importa são os fins, e não os meios. Os sentimentos são sem importância, excepto os dos adversários, que convém que os tenham, porque os enfraquecem.

Há no ecrã da televisão um corropio de gente a protestar contra o IVA das touradas, aquele espectáculo bárbaro, incivilizado. Os meus companheiros nada dizem. Digo eu, que gosto às vezes de os provocar: “E a posição do Bloco?” Quero saber como se explica este contraste entre o humanismo que se apieda do animal, que ele promove, e o positivismo guerreiro e frio da esquerda política, esse epítome do humanismo. C. justifica: “É diferente. Nós reconhecemos a necessidade da violência, mas não a desejamos. A violência revolucionária é um meio para acabar com toda a violência. Já isto não se justifica. É só barbárie, é um puro show. Um espectáculo reaccionário e primitivo, que avilta a humanidade que queremos ser. Por isso, somos contra.” G. confirma, com um sorriso discreto. Há que ser prudente. Convém não esquecer que a tourada é ainda hábito e receita em muitos municípios de maioria comunista.

E é, pois, assim. A tourada é violência gratuita. E isso a torna intolerável. Não por ser violência, mas por não servir para nada. E as demais pessoas pensam tal e qual, isto é, que a tourada é crueldade arbitrária e absurda. C. não tem dúvidas de que está, como actividade, condenada. É uma aberração, como meter um gato num micro-ondas, mas para pior, porque é um micro-ondas com aficionados e espectadores a quem se cobra bilhete. “Não é, portanto,” digo, “uma questão de violência, mas uma questão de narrativa, ou melhor, de falta dela.” Num mundo em que o espectáculo taurino deixou de fazer sentido, de significar, no fundo de “ser útil” à humanidade, a morte do touro choca-nos. Ao invés, porque é útil, não nos choca a morte (e o sofrimento) das vacas no matadouro.

“No fundo,” remato, “o que redime o touro é ser um animal. Um ser sem culpa. Se fosse humano, haveria talvez razão para o bandarilhar. Ou razões diversas.”

G. nega com a cabeça. “Bandarilhar não é o termo,” diz. “Nós não bandarilhamos ninguém. Queremos educar, e no limite redimir. Se não pudermos redimir, suprimimos.”

Há um brilhante futuro à nossa espera. Por enquanto esse futuro é apenas para os animais. Mas chegará, estou certo, a nossa vez.

Les jeunes

Um texto do sempre arguto Theodore Dalrymple, escritor inglês que já vos apresentei por aqui. Desta vez é sobre o curioso hábito que os habitantes dos bairros periféricos das cidades francesas – les banlieues – têm de deitar fogo à propriedade alheia, e em especial aos automóveis. Vem isto a propósito da vitória futebolística da selecção francesa de futebol e das festanças subsequentes. Festejar é cada vez mais uma forma de exprimir o nosso íntimo, e o íntimo in, por assim dizer, é agora murder, como diria Leonard Cohen.

[O texto data de 2005]

Voiture-incendiee-1er-janvier_0_1400_871

————————————–

“Deixamos a nossa casa na France profonde enquanto continuam as revoltas nos municípios e nas cidades maiores. A exemplo de 95% da população, nada vimos de extraordinário: as banlieues são outro país, e lá as coisas são feitas de outro modo. Brincamos sobre a situação com os operários que fazem reparações na nossa casa; estamos certos de que, se as revoltas, por assim dizer, transbordarem e se derramarem sobre as áreas em que moram as pessoas boas como nós, as CRS (Compagnies Républicaines de Sécurité) ficarão contentes por fazer o que fazem tradicionalmente: descer o cassetete, com entusiasmo, sobre a cabeça dos outros.

Continuar a ler