Ao Albatroz

Talvez a mais mítica das aves não seja a Fénix, mas o Albatroz. Os maiores espécimes têm asas cuja envergadura chega a ultrapassar os quatro metros. Passam a maior parte do seu tempo de vida no ar em viagens intermináveis que, como afirma a lenda, fazem parcialmente a dormir. Quando voam, os albatrozes percorrem regularmente mais de mil quilómetros por dia, sobre as vastidões do Atlântico Sul e do Pacífico, e um voo deles pode levá-los facilmente a circum-navegar o globo. Acasalam demoradamente e para a vida. Amam (copulam, para os não antropomorfistas), digamos, apenas uma vez. A fêmea impregnada põe, numa deliberação que diríamos perfeccionista, apenas um ovo. Em muitas espécies, a nova cria, tão amorosamente concebida, consome um ano de vida inteira dos progenitores, até ficar apta a seguir o seu destino. “Que destino?”, perguntareis. Ora, o de navegar, claro. Só isso faz sentido.

Os marinheiros acreditam que cada albatroz é a alma de um marinheiro morto no mar. E é, eu sei de boa fonte. Como Walt Whitman, que lhe dedica o seguinte poema:

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AO ALBATROZ

Tu, que dormiste toda a noite sobre a tempestade,
Que acordas e descansas sobre as tuas asas prodigiosas,
(Desencadeou-se a tempestade brutal? Acima dela ergues-te e repousas no
céu, esse escravo que te abriga).
Agora pareces um ponto azul, ao longe, pairando no céu,
E com a luz que surge observo-te do convés,
(Eu próprio sou apenas um ponto, um sinal sobre a flutuante vastidão
 do mundo).
Longe, longe no mar,
Depois de as bravias e nocturnas correntes terem semeado a praia
de despojos,
Ao romper o dia, feliz e sereno,
Com a alvorada rósea e elástica, com o sol deslumbrante,
Com a límpida extensão do ar cerúleo,
Tu também reapareces.

Tu, nascido para medir a tempestade (és todo asas),
Para competir com o céu e a terra, com os mares e os furacões,
Tu, navio do ar que nunca arriaste as velas,
Durante dias e semanas percorreste, infatigável, espaços e reinos,
avançando sempre,
E ao crepúsculo olhaste o Senegal e a enlutada América,
Que irrompia entre relâmpagos e nuvens de trovoada,
E aí, nas tuas experiências, encontraste a minha alma,

Quantas alegrias! Quantas alegrias as tuas!

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A Invocação Final

Suavemente, por fim,
Das muralhas da cidade fortificada,
Do fecho de fechados ferrolhos, das herméticas portas fechadas,
Deixa-me ir pelo ar.

Deixa que em silêncio avance;
Destrava com branda chave os ferrolhos, com um sussurro
Faz com que as portas se abram, ó alma.

Suavemente – sê paciente,
(Fortemente me apertas, ó carne mortal,
Fortemente me apertas, ó amor).

Walt Whitman