Miragaia

A primeira narrativa ficcional escrita em português terá sido a Lenda de Gaia, ou Lenda do Rei Ramiro, a qual aparece em duas versões distintas nos livros de linhagens medievais portugueses. A primeira delas datará dos finais do século XIII e encontra-se no chamado Livro Velho. A segunda, cerca de um século depois, no Livro de Linhagens do Conde D. Pedro.

É, como podereis ler, uma estória de amor e morte, duas realidades que se entrelaçam permanentemente na vida humana, com a pertinácia dos dois irmãos dioscuri, e que adquirem nesta estória a forma particular da ferocidade possessiva do homem e da perversidade feminina que lhe corresponde.

Almeida Garrett rescreveu a Lenda em verso popular e publicou-a em 1845 no Jornal das Belas Artes. Três anos depois encontramo-la no primeiro volume do seu Romanceiro, precedida de um brevíssimo e muito curioso prefácio, que tem dado pano para mangas aos estudiosos da matéria. Seguem-se a parte mais relevante do prefácio e o romance em verso. Utilizo aqui a versão da quinta edição do Romanceiro, de 1875, que contém alguns melhoramentos do próprio Garrett.

_________________________

 

Extracto do Prefácio de Garrett

Este romance é a verdadeira reconstrucção de um monumento antigo. Algumas coplas são textualmente conservadas da tradição popular, e se cantam no meio da historia ‘rezada’ ainda hoje repettida por velhas e barbeiros do logar. O conde D. Pedro e os chronistas velhos também fabulam cada um a seu modo sobre a legenda. O auctor, ou, mais exactamente, o recopilador, seguiu muito pontualmente a narrativa oral do povo, e sobre tudo quiz ser fiel ao stylo, modos e tom de contar e cantar d’elle ; sem o quê, é sua íntima persuasão que se não pôde restituir a perdida nacionalidade á nossa litteratura

(…)

Foi das primeiras coisas d’este género em que trabalhei: e é a mais antiga reminiscência de poesia popular que me ficou da infância, porque eu abri os olhos á primeira luz da razão nos próprios sitios em que se passam as principaes scenas d’este romance. Dos cinco aos dez annos de edade vivi com meus pães numa pequena quinta, chamada ‘O Castello’ que tínhamos áquem Doiro, e que se diz tirar esse nome das ruínas que alli jazem do castello mourisco.

Na ermida da quinta se venerava uma imagem antiquíssima da Nossa Senhora com a mesma invocação ‘do Castello’ e com a sua legenda popular também, segundo o costume.

Com os olhos tapados eu iria ainda hoje achar todos esses sitios marcados pela tradição. Muita vez brinquei na fonte do rei Ramiro, cuja agua é deliciosa comeffeito; e tenho idea de me ter custado caro, outra vez, o imitar, com uma gaita da feira de San Miguel, os toques da bozina de S. M. Leoneza, impoleirando me, como elle, num resto de muralha velha do castello d’elrei Alboazar : o que meu pae desapprovou com tam significante energia, que ainda hoje me lembra também.

 

MIRAGAIA

Cantiga Primeira

Noite escura tam formosa,
Linda noite sem luar,
As tuas estrellas de oiro
Quem n’as poderá contar!

Quantas folhas ha no bosque,
Areias quantas no mar?…
Em tantas lettras se escreve
O que Deus mandou guardar.

Mas guai do homem que se fia
N’essas lettras decifrar!
Que a ler no livro de Deus
Nem anjo pode atinar.

Bem ledo está Dom Ramiro
Com sua dama a folgar;
Um perro bruxo judio
Foi causa de elle a roubar:

Disse-lhe que pelos astros
Bem lhe podia affirmar
Que Zahara, a flor da belleza,
Lhe devia de tocar.

E o rei veio de cilada
D’alêm do Doiro passar,
E furtou a linda moira,
A irman d’Alboazar.

A Milhor, que é terra sua
E está na beira do mar,
Se acolheu com sua dama…
Do mais não sabe cuidar.

Chora a triste da rainha,
Não se pode consolar;
Deixa-la por essa moira,
Deixa-la com tal dezar!

E a noite é escura cerrada,
Noite negra sem luar…
Ela sósinha ao balcão
Assim se estava a queixar:

– «Rei Ramiro, rei Ramiro,
Rei de muito mau pezar,
Em que te errei d’alma ou corpo,
Que fiz para tal penar?

«Diz que é formosa essa moira,
Que te soube infeitiçar…
Mas tu dizias-me d’antes
Que eu era bella sem par.

«Que é môça, na flor da vida…
Eu, se ainda bem sei contar,
Ha tres que tinha vinte annos,
Fi-los depois de casar.

«Diz que tem os olhos pretos,
D’estes que sabem mandar…
Os meus são azues, coitados!
Não sabem senão chorar.

«Zahara, que é flor, lhe chamam.
A mim, Gaia… Que acertar!
Eu fiquei sem alegria,
Ella a flor não torna a achar.

«Oh! quem podéra ser homem,
Vestir armas, cavalgar,
Que eu me fôra ja direita
A esse moiro Alboazar…»

Palavras não eram dittas,
Os olhos foi a abaixar,
Muitos vultos acercados
Ao palacio viu estar;

– «Peronella, Peronella,
Criada do meu mandar,
Que vultos serão aquelles
Que por alli vejo andar?»

Peronella não responde;
Que havia de ella fallar?
Ricas peitas de oiro e joias
A tinham feito callar.

A rainha que se erguia
Por sua gente a bradar,
Sette moiros cavalleiros
A foram logo cercar;

Soltam prégas de um turbante,
A bôcca lhe vão tapar:
Tres a tomaram nos braços…
Nem mais um ai pôde dar.

Criados da sua casa
Nenhum veio a seu chamar;
Ou peitados ou captivos
Não n’a podem resgatar.

São sette os moiros que entraram,
Sette os estão a aguardar;
Não fallam nem uns nem outros…
E prestes, a cavalgar!

Só um, que de arção a toma,
Parece aos outros mandar…
Junctos junctos, certos certos,
Galopa a bom galopar!

Toda a noite, toda a noite
Vão correndo sem cessar,
Pelos montes trote largo,
Por valles a desfilar.

Nos ribeiros – peito n’agua,
Chape, chape, a vadear!
Nas defesas dos vallados
Up! Salto – e a galgar!

Vai o dia alvorecendo,
Estão á beira do mar,
Que rio é este tão fundo
Que n’elle vem desaguar?

A bôcca ja tinha livre,
Mas não acerta a fallar
A pasmada da rainha…
Cuida ainda de sonhar!

– «Rio Doiro, rio Doiro,
Rio de mau navegar,
Dize-me, essas tuas aguas
Adonde as foste buscar?

«Dir-te-hei a perola fina
Aonde eu a fui roubar.
Ribeiros correm ao rio,
O rio corre a la mar,

«Quem me roubou minha joia,
Sua joia lhe fui roubar…»
O moiro que assim cantava,
Gaia que o estava a mirar…

Quanto o mais mirares, Gaia,
Mais formoso o hasde achar.
– «Que de barcos que alli véem!»
– «Barcos que nos véem buscar.»
– «Que lindo castello aquelle!»
– «É o do moiro Alboazar.»

 

Cantiga Segunda

Rei Ramiro, rei Ramiro,
Rei de muito mau pezar,
Ruins fadas te fadaram,
Má sina te foram dar.

Do que tens não fazer conta,
O que não tens cubiçar!…
Zahara, a flor de teus cuidados,
Ja te não dá que pensar.

A rainha, que era tua,
Que não soubeste guardar,
Agora morto de zelos
Do moiro a queres cobrar.

Oh!… que barcos são aquelles
Doiro acima a navegar?
A noite escura cerrada,
E elles mansinho a remar!

Cozeram-se com a terra,
Lá se foram incostar;
Entre os ramos dos salgueiros
Mal se podem divisar.

Um homem saltou na praia:
Onde irá n’aquelle andar?
Leva bordão e esclavina,
Nas contas vai a rezar.

Inda a névoa tolda o rio,
O sol ja vem a rasgar,
Pela incosta do castello
Vai um romeiro a cantar:

– «Sanctiago de Galliza,
Longe fica o vosso altar:
Peregrino que lá chegue
Não sabe se ha de voltar.»

Na incosta do castello
Uma fonte está a manar;
Donzella que está na fonte
Pôs-se o romeiro a escutar»

A donzella está na fonte,
A jarra cheia a deitar:
– «Bemditto sejais, romeiro,
E o vosso doce cantar!

«Por éstas terras de moiros
É maravilha de azar,
Ouvir cantigas tão sanctas
Cantigas do meu criar.

«Sette padres as cantavam
Á roda de um bento altar;
Outros sette respondiam
No côro do salmear,

Entre véspera e completas,
E os sinos a repicar.
Ai triste da minha vida
Que os não oiço já tocar!

E as rezas d’estes moiros
Ao démo as quizera eu dar.»
Ouvireis ora o romeiro
Resposta que lhe foi dar:

– «Deus vos mantenha, donzella
E o vosso cortez fallar:
Por éstas terras de moiros
Quem tal soubera de achar!

«Por vossa tenção, donzella,
Uma reza heide rezar
Aqui ao pé d’esta fonte,
Que não posso mais andar.

«Oh! que fresca está a fonte,
Oh! que sêde de mattar!
Que Deus vos salve, donzella,
Se aqui me deixais sentar.»

– «Sente-se o bom do romeiro,
Assente-se a descansar.
Fresca é a fonte, doce a agua,
Tem virtude singular:

«D’outra não bebe a rainha
Que aqui m’a manda buscar
Por manhanzinha bem cedo,
Antes de o sol aquentar.»

– «Doce agua deve de ser,
De virtude singular:
Dae-me vós uma vez d’ella
Que me quero consolar.»

– «Beba o peregrino, beba
Por ésta fonte real,
Cântara de prata virgem,
Tem mais valor que oiro tal.»

– «Dona Gaia que diria,
Que faria Alboazar
Se visse o pobre romeiro
Beber da fonte real?…»

– «Inda era noite fechada
Meu senhor foi a caçar:
Maus javardos o detenham,
Que é bem ruim de aturar!

«Minha senhora, coitada,
Essa não tem que fallar:
Quem ja teve fontes de oiro
Prata não sabe zelar.»

– «Pois um recado, donzella,
Agora lhe heisde levar;
Que o romeiro christão
Lhe deseja de fallar.

«Da parte de um que é ja morto,
Que morreu por seu pezar,
Que á hora de sua morte
Este annel lhe quiz mandar.»

Tirou o annel do dedo,
E na jarra o foi deitar:
– «Quando ella beber da agua
No annel hade attentar.»

Foi-se d’alli a donzella,
Ia morta por fallar…
– «Anda ca, ó Peronella,
Criada de mau mandar.

«Tua ama morrendo á sêde
E tu na fonte a folgar?»
– «Folgar não folguei, senhora,
Mas deixei-me adormentar,

«Que a moira vida que eu levo
Ja não n’a posso aturar.
Ai terra da minha terra,
Ai Milhor da beira-mar!

«Aquella sim que era vida,
Aquillo que era folgar!
E em sancto temor de Deus,
Não aqui n’este peccar!»

– «Cal-te, cal-te, Peronella,
Não me queiras attentar;
Que eu a viver entre moiros
Me não vim por meu gostar.

«Mas ja tenho perdoado
A quem lá me foi roubar;
Que antes escrava contente
Do que rainha a chorar.

«Forte christandade aquella,
Bom era aquelle reinar!
Viver so, desemparada,
Ver a moira em meu logar!..»

Lembrava-lhe a sua offensa,
Está-lhe o sangue a queimar;
Na agua fria da fonte
A sêde quiz apagar.

A fonte de prata virgem
Á bôcca foi a levar,
As riccas pedras do annel
No fundo viu a brilhar.

– «Jesus seja c’o a minha alma!
Feitiços me querem dar…
O fogo a arder dentro n’agua
E ella fria de nevar!»

– «Senhora, co’ esses feitiços
Me tomára eu imbruxar!
Foi um bemditto romeiro
Que á fonte fui incontrar,

«Que ahi deitou esse annel
Para prova singular
De um recado que vos trouxe,
Com que muito heisde folgar.»

– «Venha ja esse romeiro,
Que lhe quero ja fallar:
Embaixador deve ser
Quem traz presente real.»

 

Cantiga Terceira

– «Por Deus vos digo, romeiro,
Que vos queirais levantar;
Minhas mãos não são reliquias,
Basta de tanto beijar!»

O romeiro não se erguia,
As mãos não lhe quer largar;
Os beijos uns sôbre os outros
Que era um nunca acabar.

Ia a infadar-se a rainha,
Viu que entrava a soluçar,
E as lagrymas, quatro e quatro,
Nas mãos sentia rollar:

– «Que tem o bom do romeiro
Que lhe dá tanto pezar?
Diga-me las suas penas
Se lh’as posso alliviar.»

– «Minhas penas não são minhas,
Que aos mortos morre o penar;
Mas a vida que eu perdi
Em vós podia incontrar.

«Minhas penas não são minhas,
Senão vossas, mal pezar!
Que uma rainha christan
Feita moira vim achar…»

– «Romeiro não tomeis cuita
Por quem se não quer cuitar:
Do que fui ja me não lembro,
O que sou não me é dezar.

«Deus terá dó da minha alma,
Que meu não foi o peccar;
E a esse traidor Ramiro
As contas lhe hade tomar.»

– «Pois não espereis, senhora,
Por Deus que póde tardar:
Dom Ramiro aqui o tendes,
Mandae-o ja castigar.»

Em pé está Dom Ramiro,
Ja não ha que disfarçar:
Aquellas barbas tam brancas
Cahiram de um impuxar;

O bordão e a esclavina
A terra foram parar:
Não ha ver mais gentilezas
De meneio e de trajar.

Quem viu olhos como aquelles
Com que o ella está a mirar!
Quem passou ja transes d’alma
Como ella está a passar?

Um tremor que não é mêdo,
Um surriso de infiar,
Vergonha que não é pejo,
Faces que ardem sem corar…

Tudo isso tem no semblante,
Tudo lhe está a assomar
Como ondas que vão e vêem
Na travessia do mar.

A vingança é o prazer do homem;
Da mulher, é o seu manjar:
Assim perdoa elle e vive,
Ella não – que era acabar.

Vingar-se foi o primeiro
E o derradeiro pensar
Que entre tantos pensamentos,
Em Gaia estão a pullar:

Logo depois a vaidade,
O gôsto de triumphar
N’um coração que foi seu,
Que seu lhe torna a voltar.

E o rei moiro estava longe
C’os seus no monte a caçar,
Ella só n’aquella tôrre…
Prudencia e dissimular!

Abre a bôcca a um surriso
Doce e triste – de matar!
Tempéra a chamma dos olhos,
Abafa-a por mais queimar.

Pôs na voz aquelle incanto
Que, ou minta ou não, é fatal.
E, com o inferno no seio,
Falla o ceo no seu fallar.

Ja os amargos queixumes
Se imbrandecem no chorar,
E em sua propria justiça
Com arte finge affrouxar.

Protesta a bôcca a verdade:
– «Que não hade perdoar…»
Mas a verdade dos labios
Os olhos querem negar.

De joelhos Dom Ramiro
Alli se estava a humilhar,
Supplíca, roga, promette…
Ella parece hesitar.

Senão quando, uma bozina
Se ouviu ao longe tocar…
A rainha mal podia
O seu prazer disfarçar:

– «Escondei-vos, Dom Ramiro,
Que é chegado Alboazar,
Depressa n’este aposento…
Ou ja me vereis matar.»

Mal a chave deu tres voltas,
Na manga a foi resguardar;
Mal tirou a mão da cotta,
Que o rei moiro vinha a entrar:

– «Tristes novas, minha Gaia,
Novas de muito pezar!
Primeira vez em tres annos
Que me succede este azar!…

«Toquei a minha bozina
Ás portas, antes de entrar,
E não correste ás ameias
Para me ver e saudar!

«Muito mal fizeste, amiga,
Em tam mal me costumar:
Não sei agora o que fazes
Em me querer emendar…»

No coração da rainha
Batalha se estão a dar
Os mais estranhos affectos
Que nunca se hãode incontrar:

O que foi, o que é agora…
E a ambição de reinar…
O amor que tem ao moiro,
E o gôsto de se vingar…

Venceu amor e vingança:
Deviam de triumphar,
Que era em peito de mulher
Que a batalha se foi dar.

– «Novas tenho e grandes novas,
Amigo, para vos dar:
Tomae ésta chave e abride,
Vereis se são de pezar.»

Com que ância elle abriu a porta,
Vista que foi encontrar!…
Palavras que alli disseram,
Não n’as saberei contar:

Que foi um bramir de ventos,
Um bater d’aguas no mar,
Um confundir ceo e terra,
Querer-se o mundo acabar…

Vereis por fim o rei moiro
Que sentença veio a dar:
– «Perdeste a honra, christão:
Vida, quero-t’a deixar.

«De uma vez que me roubaste
Muito bem me fiz pagar:
D’esta basta-me a vergonha
Para de ti me vingar.»

Sentia-se elrei Ramiro
Do despeito devorar;
Com ar contricto e affligido
Assim lhe foi a fallar:

– «Grandes foram meus peccados,
Poderoso Alboazar;
E taes que a mercê da vida
De ti não posso acceitar:

«Eu não vim a teu castello
Senão só por me intregar,
Para receber a morte
Que tu me quizeres dar:

«Que assim me foi ordenado
Para minha alma salvar
Por um sancto confessor
A quem me fui confessar.

«E mais me disse e mandou,
E assim t’o quero rogar,
Que, pois foi publica a offensa,
Público seja o penar:

«Que ahi n’essa praça d’armas
Tua gente faças junctar,
Ahi deante de todos
A vida quero acabar

«Tangendo n’ésta bozina
Tangendo até rebentar;
Que digam todos que isto virem,
E lhes fique de alembrar:

«Grande foi o seu peccado,
No mundo andou a soar;
Mas a sua penitencia
Mais alto som veio a dar.»

Quizera-lhe o bom do moiro
Por fôrça alli perdoar:
Mas se a pêrra da rainha
Jurou de á morte o levar!…

Veis na praça do castello,
Toda moirama a ajunctar;
Em pé no meio da turba
Ramiro se foi alçar.

Tange que lhe tangerás,
Toca rijo a bom tocar;
Por muitas leguas á roda
Reboava o bozinar.

Se o ouvirão nas galés
Que deixou a beira-mar?
Decerto ouviram, que um grito
Tremendo se ouve soar…

 

Cantiga Quarta

– «Sanctiago?… Cerra, cerra!
Sanctiago, e a matar!»
Abertas estão as portas
Da tôrre de par em par.

Nem atalaias nos muros,
Nem roldas para as velar.
Os moiros despercebidos
Sentem-se logo apertar

De um tropel de leonezes
Ja portas a dentro a entrar.
Deixa a bozina Ramiro,
Mão á espada foi lançar,

E de um só golpe fendente,
Sem mais pôr nem mais tirar,
Parte a cabeça até os peitos
Ao rei moiro Alboazar.

Ja tudo é morto ou captivo,
Ja o castello está a queimar,
Ás galés, com seu despôjo,
Se foram logo imbarcar.

– «Voga, rema! d’além Doiro
Á pressa, á pressa a passar,
Que ja oiço alli na praia
Cavallos a relinchar.

«Bandeiras são de Leão
Que lá vejo tremular;
Voga, voga, que alêm Doiro
É terra nossa!… A remar!

«D’aqui é moirama cerrada
Até Coimbra e Thomar.
Voga, rema, e d’alêm Doiro!
D’aquem não ha que fiar.»

Á poppa vai Dom Ramiro
De sua galé real,
Leva a rainha á direita,
Como quem a quer honrar:

Ella, muda, os olhos baixos
Leva n’agua… sem olhar,
E como quem de outras vistas
Se quer so desaffrontar.

Ou Dom Ramiro fingia
Ou não vem n’isso a atentar;
Ja vão a meia corrente,
Sem um para o outro fallar.

Ainda arde, inda fumega
O alcaçar de Alboazar;
Gaia alevantou os olhos,
Triste se pôs a mirar;

As lagrymas, uma e uma,
Lhe estavam a desfiar,
Ao longo, longo das faces
Correm… sem ella as chorar.

Olhou elrei para Gaia,
Não se pôde mais calar;
Cuidava o bom do marido
Que era remorso e pezar

Do mau termo atraiçoado
Que com elle fôra usar
Quando o intregou ao moiro
Tam só para se vingar.

Com a voz internecida
Assim lhe foi a fallar:
– «Que tens, Gaia… minha Gaia?
Ora pois! não mais chorar,

«Que o feito é feito…» – «E bem feito!»
Tornou-lhe ella a soluçar,
Rompendo agora n’uns prantos
Que parecia estalar.

«E bem feito, rei Ramiro!
Valente acção de pasmar!
Á lei de bom cavalleiro,
Para de um rei se contar!

«Á falsa fé o mataste…
Quem a vida te quiz dar!
Á traição… que d’outro modo,
Não es homem para tal.

«Mataste o mais bello moiro,
Mais gentil, mais para amar
Que entre moiros e christãos
Nunca mais não terá par.

«Perguntas-me porque chóro!..
Traidor rei, que heide eu chorar?
Que o não tenho nos meus braços,
Que a teu podêr vim parar.

«Perguntaste-me o que miro?
Traidor rei, que heide eu mirar?
As torres d’aquelle alcáçar,
Que ainda estão a fumegar.

«Se eu fui alli tam ditosa,
Se alli soube o que era amar,
Se alli me fica alma e vida…
Traidor rei, que heide eu mirar!»

– «Pois mira, Gaia!» E, dizendo,
Da espada foi arrancar;
«Mira, Gaia, que esses olhos
Não terão mais que mirar.»

Foi-lhe a cabeça de um talho;
E com o pé, sem olhar,
Borda fóra impuxa o corpo…
O Doiro que os leve ao mar.

Do estranho caso inda agora
Memoria está a durar;
Gaia é o nome do castello
Que alli Gaia fez queimar:

E d’alêm Doiro, essa praia
Onde o barco ia a aproar
Quando bradou «Mira, Gaia!»
O rei que a vai degollar,

Ainda hoje está dizendo
Na tradição popular,
Que o nome tem – MIRAGAIA
D’aquelle fatal mirar.

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