O Padrão Real

Não mais, Musa, não mais, que a Lira tenho
Destemperada e a voz enrouquecida,
E não do canto, mas de ver que venho
Cantar a gente surda e endurecida.
O favor com que mais se acende o engenho
Não no dá a pátria, não, que está metida
No gosto da cobiça e na rudeza
Duma austera, apagada e vil tristeza.

Luís Vaz de Camões, Os Lusíadas, X – 145.

 

E no entanto nem sempre foi em Portugal esta apagada e vil tristeza. Em Março de 1502, informa-nos João de Barros nas suas Décadas da Ásia, reuniu o rei Dom Manuel um conselho de homens bons do reino para discutir a nossa política do Oriente. Tinham-se então concluído duas viagens à Índia: a original de Vasco da Gama, em 1499, e a de Pedro Álvares Cabral, em 1501. Esperava-se em Lisboa a volta de uma terceira, capitaneada por João da Nova, e preparava-se uma nova viagem de Vasco da Gama, poderosa de vinte navios. O conselho convocado pelo rei realizou-se na Casa da Guiné e da Índia, em cujo salão maior se podia contemplar o Padrão Real, um enorme mapa mundi que era continuamente actualizado à medida que os navegadores chegavam a Lisboa com nova informação. O Padrão Real continha o melhor conhecimento geográfico e humano então disponível, e era guardado dia e noite por homens armados. Só algumas pessoas de confiança do rei e os navegadores que partiam para novas expedições o podiam consultar.

O Padrão Real perdeu-se nas voltas da História. Do que ele seria em finais de 1502 podemos, porém, fazer uma ideia observando o planisfério de Alberto Cantino, um espião italiano do duque de Ferrara que terá pago principescamente a um anónimo cartógrafo português uma cópia clandestina, realizada em Outubro desse mesmo ano. O planisfério de Cantino é um pergaminho de 2,18 x 1,02 metros, magnificamente desenhado e ilustrado.

Cantino_planisphere_(1502)

O Planisfério de Cantino (1502)

Teria sido o original desse planisfério, muito maior e mais pormenorizado, que os conselheiros del-rei contemplaram com temor e pasmo na sala do Padrão da Casa da Guiné e da Índia. Pasmo e temor que João de Barros assim descreve:

E ainda a muitos, vendo somente na carta de marear uma tão grande costa de terra pintada, e tantas voltas de rumos que parecia rodearem as nossas naus duas vezes o mundo sabido, por entrar no caminho de outro novo que queríamos descobrir, fazia neles esta pintura uma tão grande espanto da imaginação, que lhe assombrava o juízo. E se esta pintura fazia nojo à vista, ao modo que faz ver sobre os ombros Hércules o Mundo que lhe os poetas puseram, que quase a nossa natureza se move com afectos a se condoer dos ombros daquela imagem pintada, como se não condoeria um prudente homem em sua consideração, ver este reino (de que ele era membro) tornar sobre os ombros de sua obrigação um Mundo, não pintado, mas verdadeiro, que às vezes o podia fazer curvar com o grande peso da terra, do mar, do vento e ardor do sol que em si continha; e o que era muito mais grave e pesado que estes elementos — a variedade de tantas gentes como nele habitavam?…

João de Barros, Primeira Década da Ásia, Livro VI, Capítulo 1.

Enfim, Portugal nem sempre foi uma apagada e vil tristeza, ao contrário de hoje, em que os portugueses vão à Índia fazer selfies e sacudir como epilépticos a mão que a eles se escusa.

 

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